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O 'papa negro da umbanda' que transformou o culto a Iemanjá e 'inventou' o Réveillon de Copacabana

O 'papa negro da umbanda' que transformou o culto a Iemanjá e 'inventou' o Réveillon de Copacabana

Tata Tancredo, que será homenageado no Carnaval do Rio de Janeiro, teve papel fundamental no combate ao preconceito contra religiões de matriz africana.

Publicado em 1 de fevereiro de 2026 às 16:09

Imagem BBC Brasil
Tata Tancredo, chamado de 'o papa negro da umbanda' Crédito: Wikicommons/Creative Commons

Iemanjá é uma das divindades mais reverenciadas nas religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda. Conhecida como rainha do mar e deusa da fertilidade, da maternidade e da proteção, ela é originária da mitologia iorubá.

A data de sua celebração, 2 de fevereiro, é um exemplo concreto do resultado do sincretismo religioso tão comum na sociedade brasileira. No mesmo dia, católicos veneram Nossa Senhora dos Navegantes — a protetora dos perigos das águas, na piedade popular.

No entanto, se Iemanjá se apropriou de uma data católica, o deslocamento de uma homenagem à divindade afro acabou resultando na criação de uma das maiores festas populares do Brasil: o Réveillon de Copacabana.

Tancredo, que será homenageado no Carnaval pela Estácio de Sá, voltou à evidência no último Réveillon carioca, quando o evento teve um palco gospel com programação voltada para evangélicos.

Lideranças de religiões afro criticaram o ato citando justamente a trajetória de Tancredo e cobrando o que diziam ser uma coerência histórica com o que se pretendia, originalmente, com a multidão trajando branco à beira-mar.

A festa de Réveillon no Rio é considerada pelo Guinness, o livro dos recordes, como o maior do mundo, movimentando mais de cinco milhões de pessoas em toda a cidade do Rio de Janeiro — metade se concentra na praia de Copacabana.

Isso não existia na primeira metade do século 20. Foi quando, mobilizados por um pai de santo umbandista, um pequeno grupo de praticantes dessa religião foi até a badalada praia na virada do ano de 1949 para 1950. Eles vestiam branco, saudavam iemanjá e levavam oferendas para serem lançadas ao mar pouco antes da meia-noite. Era o evento Flores de Iemanjá.

A tradição vingou. A cada ano, o grupo ficava maior e o que era uma celebração umbandista e candomblecista se tornava uma festa mais plural e menos associada a qualquer religião diretamente.

O pai de santo responsável por essa ideia é uma referência gigante para os seguidores de religiões de matriz africana no Brasil. Tancredo da Silva Pinto (1904-1979) nasceu em Cantagalo e foi uma das mais importantes lideranças umbandistas do século 20. Acabou conhecido como "o papa negro da umbanda".

Geralmente ele é chamado de Tata Tancredo. Tata — lê-se como se tivesse um acento agudo no segundo "a", como "Tatá". É um título usado, sobretudo por linhagens religiosas de matriz banto, para designar sacerdotes ou líderes.

"A ligação do Réveillon de Copacabana com a atuação cultural, religiosa e política de Tancredo da Silva Pinto é notória", afirma o historiador Diego Uchoa de Amorim. "Aqueles que olham para os festejos de virada de ano que ocorrem atualmente na orla mais famosa do mundo com seus megashows, milhões de pessoas e turistas do mundo todo podem não ter noção de suas raízes."

O historiador lembra que, se "o costume de levar flores ao mar, entregar balaios e barcos de Iemanjá no final do ano nas praias não foi uma criação de Tata Tancredo, pois encontramos fontes que nos mostram esse costume do povo carioca desde finais do século 19 em diferentes praias como Caju, Ramos, Glória, Flamengo, Ilha do Governador, entre outras", o grande mérito do líder umbandista veio "com a idealização e articulação das Flores de Iemanjá na orla de Copacabana, principalmente, nas décadas de 1950 e 1960."

Além de promover esse rito, ele mobilizou outros terreiros, de todas as regiões da cidade, para que participassem juntos. Gradualmente, também ganhou a adesão de representantes de outros Estados, como São Paulo e Minas Gerais, além de autoridades públicas e policiais.

Ele conseguiu, diz Amorim, atribuir "um sentido político de afirmação do povo de terreiro no espaço público", e isso se tornou "tática na luta pela liberdade religiosa e no combate ao preconceito".

"A história do Brasil deve ainda muitas páginas à Tata Tancredo", diz a jornalista e cientista da religião Claudia Alexandre, dirigente umbandista e pesquisadora do Centro de Estudos de Religiosidades Contemporâneas e das Culturas Negras da Universidade de São Paulo (USP).

Alexandre é autora dos livros Orixás no Terreiro Sagrado do Samba e Exu-Mulher e o Matriarcado Nagô. Para ela, a atuação de Tata Tancredo foi política, cultural e religiosa no combate à intolerância religiosa, ao racismo religioso e ao embranquecimento da umbanda e do candomblé.

"Ele foi um importante personagem da época em que os negros, na cidade do Rio, buscavam maneiras de enfrentar a marginalização social, reafirmando valores coletivos através dos sambas, das escolas de samba e dos terreiros, para resistir às opressões sociais e ao racismo estrutural", afirma Alexandre.

Imagem BBC Brasil
Celebração a Iemanjá em praia do Rio de Janeiro em 1972 Crédito: Arquivo Nacional

De ritual religioso à festa para todos

"Segundo a cobertura da imprensa na época, identificamos com o passar dos anos cada vez mais umbandistas se articulando para participar com suas indumentárias na cor branca, fios de conta, tambores, presentes e velas para a rainha do mar", diz o historiador Amorim. Logo, o Réveillon reunia mais de 800 terreiros.

"Observamos relatos do crescimento de pessoas abastadas do próprio bairro que passaram a descer para as areias perto da virada para tomarem seus passes nas giras que aconteciam, deixar suas oferendas e pular suas ondinhas. Então, podemos afirmar sim que o Réveillon mais famoso do mundo e agora recordista está intimamente ligado às ocupações do espaço público pelos povos de axé e contou com o protagonismo de Tancredo", ressalta o historiador.

Amorim estuda a trajetória do líder umbandista há praticamente dez anos, desde seus tempos de graduação, na Universidade Federal Fluminense. Tata Tancredo foi tema de seu mestrado e, agora, vem sendo analisado em sua pesquisa de doutorado, desenvolvida na Universidade Salgado de Oliveira, em Niterói.

"Tata Tancredo era uma sumidade", diz Alexandre, acrescentando que os moradores do entorno da praia de Copacabana, "um bairro de elite", em um primeiro momento reagiram mal ao evento afro de Réveillon. "Mas em pouco tempo a tradição passou a atrair simpatizantes que, influenciados pelo clima festivo e religioso, iam à praia repetindo o traje na cor branca e o gesto de entregar flores ao mar, saudando o novo ano e fazendo pedidos à rainha do mar".

Alexandre comenta que, nos primeiros anos, alguns entendiam aquilo como "uma invasão" dos terreiros "para a região nobre. Ficavam indignados". Mas nos anos 1960 a festa já atraía 400 mil pessoas.

Um articulador

Tancredo nasceu em uma família de ex-escravizados que já praticavam ritos de matriz africana. Ainda jovem, mudou-se para o Rio e lá acabou sendo um dos responsáveis pela consolidação da umbanda como uma religião.

Mas o contexto era de repressão estatal. O Código Penal de 1890 criminalizava o que eram chamadas de "práticas de espiritismo, magia e seus sortilégios". Na Era Vargas, de 1930 a 1945, a repressão era intensa.

A Constituição de 1946 passou a garantir liberdade religiosa, mas intolerância e preconceito contra religiões africanas seguiram. Tancredo cada vez mais se tornava uma referência no meio religioso afro. Articulou, fundou e integrou diversas associações e federações da área, sobretudo umbandistas.

Assim, ele buscava um amparo jurídico e político, ao mesmo tempo em que procurava quebrar o estigma social — e a festa na virada do ano não deixava de ser, em seus primórdios, uma maneira de os rituais transcenderem os terreiros e estarem à vista da alta sociedade carioca.

Na definição de Amorim, Tancredo foi "sem dúvidas um dos nomes mais importantes na luta pela liberdade religiosa no Brasil do pós-abolição". "Ele se destacou no processo de legitimação da umbanda enquanto religião, entre as décadas de 1930 e 1950", diz o historiador.

Além de ter, de certa forma, "inventado" o Réveillon carioca, Tancredo esteve à frente de outros grandes eventos, como a histórica gira de umbanda que reuniu 40 mil adeptos no Maracanã em maio 1965. Gira é uma reunião ritualística em que médiuns, em círculo, incorporam entidades.

O historiador explica que havia um "processo de desafricanização" da religião entre as décadas de 1940 e 1960, e Tancredo empreendeu um combate a isso, situando as raízes do culto na região centro-ocidental africana e reforçando "seus fundamentos, como o uso de tambores, os pontos em línguas africanas, o uso de indumentárias tradicionais e a manutenção dos cortes de animais com fins ritualísticos, entre outros".

"Quando pensamos em Tancredo e sua relação com as religiões de matriz africana, precisamos contextualizar sua luta, pois estamos falando do Brasil durante o século 20, no qual o preconceito, a discriminação e a repressão policial ainda eram realidades vivas para os povos de terreiros em decorrência do racismo estrutural que caracteriza o país", lembra o historiador.

"Tancredo, mesmo com toda dificuldade que encontrou e passou por cima com suas táticas e articulações, conseguiu conquistas em relação ao espaço público com seus eventos religiosos."

Entre essas instituições estão a Confederação Espírita Umbandista do Brasil, de 1950, e a Congregação Espírita Umbandista do Brasil, de 1968.

Tancredo também esteve na fundação da União das Escolas de Samba, da União Brasileira de Compositores e da Federação Brasileira das Escolas de Samba. "Foi um defensor da preservação das tradições afrobrasileiras", diz Alexandre.

Em 1956, ele e outras lideranças reportaram à Organização das Nações Unidas (ONU) o contexto das religiões de matriz africana no Brasil, dando visibilidade internacional à luta contra a tolerância religiosa.

Tancredo também foi autor ou coautor de livros sobre a história e as práticas da religiosidade afrobrasileira, como Origens da Umbanda, de 1970, e Negro e Branco na Cultura Religiosa Afrobrasileira, de 1976.

"Ele não apenas defendeu uma origem africanista para a umbanda como inseriu neste campo uma nova vertente, a umbanda omolocô, que seria a junção das práticas omolocô, do povo de Luanda Quiôco, com outras tradições africanas, indígenas, católicas e kardecistas, que ocorreram no Brasil", conta Alexandre.

Autor do livro Apropriação Cultural, o sociólogo, antropólogo e babalorixá Rodney William Eugênio comenta que Tancredo "não recebeu à toa o título de papa negro da umbanda". "Teve grande importância para a manutenção de uma raiz afro-indígena e na resistência contra o embranquecimento dessa religião", afirma.

Imagem BBC Brasil
Celebração a Iemanjá em praia do Rio de Janeiro em 1972 Crédito: Arquivo Nacional

Sambista

A atuação de Tancredo não se limitou à seara religiosa. Ele foi compositor de sambas e um dos fundadores da Federação Brasileira das Escolas de Samba, em 1947.

Morava no morro de São Carlos, no bairro do Estácio, uma das favelas mais antigas do Rio. A comunidade é considerada o berço do samba moderno. Ali vivia o compositor e cantor Ismael Silva (1905-1978), entre outros sambistas. Era o grupo conhecido como "os bambas do Estácio" — e Tancredo também fazia parte dessa turma.

Liderados por Silva, eles foram os criadores da Deixa Falar, a primeira escola de samba da história, que nasceu como bloco em 1928.

Tancredo compôs, em parceria com Sátiro de Melo (1900-1957) e José Alcides (1918-1978), um samba-marcha aclamado como o maior sucesso do Carnaval de 1950: General da Banda, que ganhou as rádios na voz de Blecaute, nome artístico de Otávio Henrique de Oliveira (1919-1983).

"A inspiração da composição, segundo Tancredo, veio do pedido do orixá rei Xangô para que ele criasse uma instituição para defender o povo de terreiro", conta Amorim. "Após o sucesso da canção, parte da arrecadação dos direitos autorais foram investidos na criação da Confederação Espírita Umbandista, em 1950."

"As encruzilhadas entre o samba, a política e a religiosidade marcaram a trajetória de Tata Tancredo", acrescenta o historiador.

Estátua e Carnaval

"Além de grande sambista e compositor, Tancredo tinha uma facilidade em dialogar em diversas camadas da sociedade e uma ousadia típica das grandes lideranças", diz Eugênio.

"Tancredo não só defendeu uma umbanda negra, como foi o visionário nas estratégias de crescimento, difusão e popularização do culto. Além de ter dado início ao Réveillon festivo e profundamente conectado com nossa ancestralidade em Copacabana, lotou o Maracanã e promoveu as macumbas cariocas de uma forma tão eficiente que, apesar de tantas tentativas, nunca conseguiram apagar seu legado."

Esse debate voltou à tona no final do ano, quando o prefeito do Rio, Eduardo Paes, rebateu as críticas ao evento para evangélicos no Réveillon, dizendo "é impressionante o nível de preconceito dessa gente". A expressão "essa gente" caiu mal. Para muitos umbandistas e candomblecistas, soou ofensivo e até intolerante.

Depois o prefeito voltou ao tema em suas redes sociais fez um aceno aos religiosos de matriz africana. "Não foram poucas vezes em que saí em defesa dessas tradições, do respeito à fé e do combate à intolerância religiosa", disse, prometendo que iria dialogar com lideranças do segmento para decidir como viabilizar uma homenagem a Tancredo que, segundo ele, ganhará uma estátua no Rio.

Hoje cristão evangélico, o escritor, palestrante e pesquisador Oliver Dara era babalaô — sacerdote do rito iorubá — e frequentador de terreiros de candomblé e de umbanda.

Ele reconhece que Tancredo "sofreu forte resistência e preconceito" nos primeiros anos do evento em Copacabana e cobra um discurso de tolerância e paz entre as vertentes religiosas.

"Como cristão, confesso que é triste observar que ainda existe muito atrito ideológico nessas questões e muitas pessoas buscam se posicionar, debatendo temas sem sentido, como no último Réveillon em que lideres de matriz africana questionaram a prefeitura do Rio, sobre o palco gospel", afirma Dara, que é autor do livro Jesus Me Aceitou! E Agora?

"Os evangélicos seguem se apropriando dos espaços e das festas com conivência e apoio do poder público. O prefeito se desculpou, dizendo que vai instalar uma estátua em homenagem a Tancredo, mas as manobras que sempre investem contra a umbanda e o candomblé ainda ditam as regras numa cidade que se veste quase que inteiramente de branco no Réveillon enquanto oprime e reprime as manifestações da cultura negra", critica Eugênio.

"Tancredo fez história e o Réveillon brasileiro tornou-se o que é hoje, ou seja, uma mistura de festa, espiritualidade e misticismo, em razão de sua coragem em levar seu povo para fazer macumba na beira da praia, em plena zona sul carioca", diz o sociólogo. "É fato que ele deu origem a tudo isso."

No Carnaval deste ano, o líder umbandista será homenageado. A escola de samba Estácio de Sá, da série ouro (equivalente à segunda divisão do Carnaval do Rio), levará para a avenida o enredo Tata Tancredo — O Papa Negro no Terreiro do Estácio.

Amorim, o historiador, está desde o início da concepção envolvido no processo de construção do enredo.

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