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'O medo está por todo lado': BBC visita cidade do México transformada em zona de guerra por disputa entre facções do tráfico

'O medo está por todo lado': BBC visita cidade do México transformada em zona de guerra por disputa entre facções do tráfico

A cidade de Culiacán, no norte do México, vive um pico da violência com a luta entre facções rivais do cartel de Sinaloa pelo controle da região.

Publicado em 28 de fevereiro de 2026 às 16:11

Imagem BBC Brasil
Membros do cartel de Sinaloa se dividiram em facções rivais em guerra mortal Crédito: Darren Conway/BBC

A presidente do México, Claudia Sheinbaum, elogiou as forças especiais que "derrubaram" o homem mais procurado do país, o narcotraficante Nemesio Oseguera Cervantes.

Mais conhecido como "El Mencho", Oseguera morreu no domingo (22/2), pouco depois de ser capturado em meio a um sangrento tiroteio no Estado mexicano de Jalisco.

Mas o repórter da BBC Quentin Sommerville descobriu em outro centro de cartéis do México — Culiacán, no Estado de Sinaloa — que o vácuo deixado pela retirada de um líder poderoso pode gerar um surto de violência, causado pela guerra entre as facções para assumir o controle.

Imagem BBC Brasil
Durante seu trabalho, os paramédicos Julio César Vega e Héctor Torres presenciam algumas das sangrentas consequências da violência no México Crédito: Darren Conway/BBC

Importante: esta reportagem contém relatos de violência que podem ser perturbadores para alguns leitores.

"O medo está em toda parte e é constante", afirma o paramédico Héctor Torres, de 53 anos, no assento da frente da ambulância em Culiacán, no norte do México.

Nós havíamos acabado de chegar da cena de um tiroteio dentro de uma garagem, no centro da cidade. O proprietário estava morto no seu escritório, com sangue escorrendo pelo piso branco.

Quando Torres e o outro paramédico, Julio César Vega, de 28 anos, chegaram ao local, uma mulher entrou em prantos.

Era a esposa do homem, mas não havia nada a ser feito. Torres verificou os sinais vitais e usou um cobertor de papel para cobrir o corpo.

No último ano e meio, o cartel de Sinaloa, uma das maiores e mais temidas gangues de drogas do mundo, vem travando uma guerra consigo próprio, depois que o filho de um dos seus líderes traiu o outro.

A saída de cena do líder daquele cartel, Ismael "El Mayo" Zambada, agora preso nos Estados Unidos, trouxe a desordem a Sinaloa e oferece um alerta sobre os riscos enfrentados pelo país.

Torres afirma que a violência em Culiacán nunca foi tão forte, nem permaneceu por tanto tempo.

No último ano, seu número de chamados aumentou em mais de 70%.

Mas, na semana em que conversei com os paramédicos, quase todos os incidentes que eles atenderam terminaram da mesma forma, com uma pessoa morta em um edifício ou ao lado de uma rodovia e parentes em luto pedindo respostas.

Poucas vítimas dos cartéis sobrevivem aos crimes e ninguém está seguro. Escolas, hospitais e até funerais já foram atacados.

"O cartel de Sinaloa era como uma família", explica Torres. "Todos estavam unidos em um único cartel. Eles eram amigos, comiam na mesma mesa."

"Eles eram como irmãos, pais, tios, irmãs. E, de repente, estavam brigando... e ficaram presos em uma luta mortal."

O negócio familiar se transformou em uma empresa bilionária, que produz a droga mortal fentanil e lota as ruas americanas com opioides que já custaram dezenas de milhares de vidas.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou este e outros cartéis como organizações terroristas e considera o fentanil uma arma de destruição em massa.

Ele ameaçou o México com ações militares diretas se o país não colocar as drogas e os traficantes sob controle.

Imagem BBC Brasil
Os dois paramédicos sabem que atender os feridos pode transformá-los em um alvo Crédito: Darren Conway/BBC

Torres e Vega vestem coletes à prova de bala, com 14 kg de fibra sintética Kevlar e chapa metálica de proteção. Para Torres, o equipamento é fundamental.

"Não sabemos se as pessoas responsáveis pelos ataques ainda estão no local ou se atingiram seu objetivo e desapareceram em seguida", explica ele. "Por isso, corremos o risco de sermos pegos no fogo cruzado de um ataque e sairmos feridos."

O sol começava a se pôr quando voltávamos para a base dos paramédicos. A cidade, antes ativa à noite, logo ficaria deserta. O tráfego era lento.

O governo do México enviou milhares de soldados para Sinaloa. E eles instalaram barreiras na maior parte das estradas.

Quando o dono da garagem foi morto, três homens foram sequestrados ao mesmo tempo daquelas instalações. Soldados fortemente armados examinavam os carros, em busca de qualquer sinal deles.

'Viremos buscar os outros'

Ser sequestrado em Culiacán pode ser um destino pior que a morte.

No início da semana, um corpo foi encontrado no chão, no lado de fora de um dos principais shopping centers da cidade.

Pelo estado do corpo da vítima, ficava claro que ele havia sido torturado. Seu corpo estava intacto, mas o crânio foi esfolado e os olhos foram retirados.

Foi deixado um sinal com o corpo, em letras grandes. Era uma mensagem de uma facção do cartel para outra.

A mensagem acusava o homem morto de ser um traidor e trazia um alerta: "Viremos buscar os outros."

Culiacán é uma cidade próspera, repleta de shopping centers, belos parques e sofisticadas concessionárias de automóveis.

No lado de fora do shopping, um homem com roupas de ciclista pretas parou no trânsito, no horário do rush, para observar a polícia colocar os restos do homem dentro de um saco.

No dia seguinte, o corpo de outra vítima, mutilado da mesma forma, foi deixado na estrada principal que segue para o norte, saindo da cidade.

A equipe forense que ergueu o aviso que o acompanhava teve dificuldade para ler, devido ao sangue que escorria em cima dele e se acumulava no cascalho do acostamento.

Em cada nova cena de crime, encontro Ernesto Martínez, repórter que cobre a violência local há 27 anos.

Um menino de 16 anos foi morto a tiros no bairro de San Rafael, em Culiacán. As pernas de Emmanuel Alexander ainda estavam presas à sua bicicleta quando a polícia contou mais de uma dezena de cartuchos de balas em volta do seu corpo.

Ele foi morto à tira-roupa com uma pistola.

Imagem BBC Brasil
Crianças também são vítimas da violência que assola a cidade Crédito: Darren Conway/BBC

Martínez explica que "costumava haver mais policiais, havia mais soldados, havia mais segurança".

"Você encontra uma barreira em cada esquina, mas os homicídios continuam. Eles não diminuíram, eles permanecem em uma média de cinco ou seis por dia. E a tendência continua."

Como será possível pôr fim a esta violência?

Eu me reuni com uma das facções de Sinaloa para fazer esta pergunta. Antes do encontro, fui orientado a não levar meu telefone celular e nenhum dispositivo de rastreamento.

Eles são criminosos cruéis, que demonstram pouco remorso e têm uma solução simples para acabar com os assassinatos.

Para eles, o governo deveria sair do caminho e deixar que eles matem uns aos outros, independentemente do risco aos transeuntes, até que uma das facções saia vencedora.

Eles chegaram à reunião fortemente armados e com máscaras no rosto para a entrevista. Eles insistiram para que suas identidades fossem omitidas.

Quando perguntei a Marco (nome fictício) se ele sentia alguma culpa, a resposta foi:

"Sim, é verdade, pois, muitas vezes, pessoas inocentes morrem. Crianças morrem. Existem muitas mortes de pessoas inocentes."

Sentado ao seu lado, Miguel foi mais impiedoso.

"Muitas pessoas continuarão morrendo porque o cartel ainda está lutando e fica cada vez pior. A guerra vai continuar. Nada irá se acalmar até que sobre apenas uma facção."

A busca dos desaparecidos

A violência dos cartéis vem aumentando não só o número de corpos encontrados, mas também a quantidade de desaparecidos.

O filho de Reynalda Pulido, Javier Ernesto, desapareceu em dezembro de 2020. Ela lidera o grupo Mães em Luta e segue em busca dele e de outras pessoas.

Em uma fria manhã, Pulido e um grupo de outras mães se abraçam em um posto de gasolina não muito longe de Culiacán. Elas estão prontas para sair em uma busca.

Havia mais de uma dezena de mulheres, quase todas vestindo camisetas brancas com fotos e nomes dos seus entes queridos desaparecidos.

Elas começaram pendurando as imagens de alguns deles nos postes. O som da fita adesiva contrastava com os cães da vizinhança, latindo agressivamente quando elas passavam junto às casas.

Com elas, havia escolta militar. Seis soldados fortemente armados, em um caminhão blindado e uma picape armada com artilharia, acompanhavam o grupo.

Em um campo sobrevoado por urubus, elas usaram detectores de metal, pás e enxadas na sua busca por corpos. As mães procuravam solo remexido, depressões, qualquer sinal de túmulos improvisados.

Enquanto examinavam a terra, elas cheiravam a poeira, procurando pelo odor característico de restos humanos.

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Reynalda Pulido ainda procura pelo seu filho que desapareceu em 2020 Crédito: Darren Conway/BBC

Durante uma pausa nas buscas, Reynalda Pulido conta que, assim que acorda todos os dias, ela pergunta a Deus: "Por que estou aqui?"

"O que me dá forças é perceber que ninguém mais irá procurá-los", ela conta.

"Percebo isso porque ninguém está se esforçando para procurar os desaparecidos em Sinaloa. E uma mãe sempre irá procurar pelo seu filho. Não importa se for nos confins da Terra, ela irá procurar."

As mulheres receberam diversas indicações de que um corpo pode ter sido descartado naquele campo. Mas, depois de horas no sol escaldante, elas só encontraram ossos de animais.

Perguntei gentilmente a Pulido se ela acredita que, um dia, irá encontrar seu filho.

"Eu me faço essa pergunta com muita frequência", responde ela, enxugando lágrimas dos olhos.

"Mas já encontrei meu filho nos 250 corpos que localizei e nas mais de 30 pessoas que encontrei vivas. Eles também são meus filhos. E os filhos de todas as famílias que vêm me pedir ajuda passam a ser meus filhos."

"Meu filho está ali, em todos e em cada um deles. Todos eles carregam um pedacinho do meu filho."

O comércio do fentanil

A principal causa do sofrimento de Culiacán é o comércio de fentanil. Em uma base do cartel, Román (nome fictício) produz a droga e me pede para segui-lo.

Ele havia acabado de embalar seu último embarque da droga. São mais de meia dúzia de pacotes de pó branco firmemente prensados, com destino aos Estados Unidos.

Román usava luvas e uma máscara no rosto para manusear os pacotes mortais. Ele abriu um pacote e a droga estava prensada em forma sólida, com o número 300 marcado na superfície.

No passado, eles enviavam comprimidos para os Estados Unidos. Agora, eles mandam pó, pois acreditam que isso ajuda a evitar a alfândega americana.

Cada pacote pesa 1 kg e vale US$ 20 mil (cerca de R$ 102 mil). Mas Román explica que, dependendo da cidade para onde for enviado, pode render mais.

"Se levarmos para Nova York, pode chegar a US$ 28 mil ou US$ 29 mil [cerca de R$ 143 mil a R$ 149 mil]. Quanto mais para o norte, maior é o preço e maior o nosso lucro."

Ele não assume a responsabilidade e não se envergonha do seu negócio. E afirma que, independentemente da opinião do governo do México e dos Estados Unidos, o fluxo de fentanil continuará se mantendo.

"O governo pode ter intensificado a busca e, sim, eles estão vindo atrás de nós e chegando mais perto", ele conta. "Mas, em relação à produção, nunca paramos."

"Às vezes, reduzimos a escala quando a situação esquenta e o governo chega perto demais. Por isso, diminuímos a atividade por alguns dias. Mas, quando o problema termina, nós continuamos ou nos mudamos para outras regiões."

Dizemos a Román que os Estados Unidos os chamam de terroristas. Ele responde despreocupadamente.

"Bem, o presidente Donald Trump pode nos chamar de terroristas, mas eu relembraria a ele que, enquanto houver consumidores, continuaremos a fazer isso, o que não necessariamente nos transforma em terroristas."

"Enquanto as pessoas quiserem consumir, eles têm liberdade para isso. Ninguém está forçando. Ninguém os forçou a começar este vício, a começar a usar isso."

O governo do México declarou que está fazendo progressos na sua luta contra o tráfico de drogas, afirmando ter interrompido o fornecimento de fentanil para os Estados Unidos em 50%.

De Culiacán, viajei para a Cidade do México, a pouco mais de 1,2 mil quilômetros de distância. O aeroporto da capital estava tomado pelo ruído de perfurações e da retirada do reboco das paredes, em preparação para a Copa do Mundo deste ano.

Em uma das suas entrevistas coletivas regulares, antes da morte de "El Mencho", no domingo, perguntei à presidente mexicana Claudia Sheinbaum o que seria necessário para que a violência em Sinaloa ficasse sob controle.

Ela culpou a luta de poder interna do cartel de Sinaloa pelo aumento da violência no Estado. E defende que seu governo está "tentando evitar danos para os civis, para as pessoas".

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A presidente do México, Claudia Sheinbaum, afirma que seu governo vem fazendo progressos na luta contra o tráfico de drogas Crédito: Darren Conway/BBC

De volta a Sinaloa, tenho um último contato com os paramédicos, Julio César Vega e Héctor Torres. Eu os acompanhei enquanto atendiam a outro tiroteio na cidade.

Com o helicóptero da polícia voando sobre nossas cabeças, atravessamos a fita que delimitava a cena do crime e encontramos um homem no chão, sangrando com um ferimento a bala no peito. Ele ainda respirava e gritava pedindo ajuda.

Torres começou a tratar dele enquanto Vega corria em direção a outro homem na esquina, gravemente ferido, que não reagia.

O receio de que o cartel pudesse retornar, apesar da presença dos soldados à nossa volta, aumentava o senso de urgência do trabalho dos dois homens.

As duas vítimas foram tratadas e levadas rapidamente para um hospital próximo. Descobrimos que eles eram transeuntes e foram pegos no fogo cruzado.

Ainda assim, o exército montou um cordão armado em volta do hospital, para um eventual ataque. Soubemos posteriormente que os homens sobreviveram.

Vega e Torres retiram suas luvas médicas azuis de borracha, ainda molhadas de sangue, e dividem um cigarro.

"Estas são as primeiras vítimas que encontramos vivas desde novembro", afirma Torres.

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