"Muitas pessoas não entendem por que me sinto assim, se a minha família está bem, se meus filhos estão bem, se comigo não aconteceu nada", conta a professora Madeleine Cova. "Mas estou sempre triste."
Disseram que o que ela sente não é depressão, mas um estado de tristeza profunda. Ela diz que está de "luto".
"É que eles não entendem que eu estava muito envolvida com as minhas crianças."
Ela se refere aos seus alunos que morreram no duplo terremoto que sacudiu o norte da Venezuela, no dia 24 de junho.
"Existem pessoas que não entendem meus sentimentos, que perguntam por que ainda me sinto tão mal", ela conta. "No meu status do WhatsApp, coloco minhas crianças, sempre dedico canções a elas."
Madeleine formou uma relação muito próxima com seus alunos.
"Eles me contavam seus problemas, suas metas", segundo ela. "Conversávamos muito, saíamos para comer, eu ia aos seus aniversários."
"As mães que perderam seus filhos me ligam, me escrevem, nós nos consolamos mutuamente."
"Eu digo para elas: 'Não sei como você faz para se levantar todas as manhãs. Se eu me sinto mal, como se sentirá você, que é a mãe?' É uma dor que não consigo descrever porque é imensa e ainda me afeta muito."
"Acontece de eu ir para lugares para me divertir e me sinto culpada porque não quero me sentir bem", lamenta a professora. "Não quero esquecer o quanto eles significavam para mim e que não estão mais aqui."
"Para mim, eles eram como meus filhos."
Duas escolas
Madeleine nasceu em La Guaira, no norte da Venezuela, o Estado mais devastado pelos terremotos que deixaram mais de 6,5 mil mortos, segundo números do governo do país.
Outras fontes estimam que a tragédia também terá deixado milhares de desaparecidos, mas não se tem certeza sobre estes números.
Antes do terremoto, Madeleine trabalhava na escola privada Alejandro Otero, em La Guaira, como professora de Espanhol e de Literatura, do primeiro ao quinto ano do ensino médio.
Ela também era coordenadora do segundo ano do ensino médio na escola pública Juan José Mendoza, onde continua trabalhando.
Em julho, a professora publicou um vídeo no TikTok, dedicado aos seus alunos.
"O terremoto me tirou parte de mim", escreveu ela. "Meus 15 alunos do particular e 100 do público."
"Vocês não mereciam ir embora" é uma das frases que podem ser lidas, enquanto se sucedem fotos e vídeos dos adolescentes e da professora na escola.
"Nesta homenagem, estão estudantes que perdi e seus colegas", conta ela de La Guaira, por chamada de vídeo, à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
"Quando fiz o vídeo, havia 115 estudantes mortos. Esta realidade já mudou", lamenta ela.
"Hoje, na escola pública, tenho mais de 230 meninos falecidos e mais de 200 desaparecidos."
O doloroso início do ano escolar
No dia 14 de setembro, o governo venezuelano deu início ao novo ano escolar em todo o país.
Naquele dia, a presidente em exercício, Delcy Rodríguez, recordou as crianças e adolescentes que morreram durante o duplo terremoto.
"Tivemos estragos que estamos recuperando, 11 escolas desabaram, quase 1.017 sofreram danos, muitas delas foram reabilitadas e outras estão em processo de recuperação", afirmou Rodríguez pelo canal de TV estatal Venezolana de Televisión.
A presidente destacou que o duplo terremoto afetou mais de 86 mil crianças, que foram realocadas em diferentes escolas, para poderem comparecer às aulas.
Madeleine conta que muitos dos alunos da escola Juan José Mendoza moravam em algumas das zonas mais devastadas pelos terremotos em La Guaira.
"Muitas crianças morreram, muitas ficaram órfãs, os números são horríveis", lamenta a professora. "Na verdade, somos o centro educativo com mais crianças falecidas confirmadas, mais de 230."
"Tínhamos cerca de 22 seções de educação secundária geral, que é o ensino médio, sem incluir os anos do primário."
"Destas 22 seções, preenchemos apenas cinco, uma por ano", descreve a professora.
"Ou seja, um primeiro ano, um segundo ano, um terceiro ano e assim por diante. Antes, tínhamos primeiro ano A, primeiro ano B, primeiro ano C, D, E e até F."
"Ter só uma seção é devastador, devido ao contexto: tantas perdas, mais todos os alunos que se foram para outros Estados da Venezuela, em busca de refúgios temporários com seus familiares. Perdemos muita população estudantil."
"Nós professores, estamos arrasados, estamos imensamente arrasados."
'Como se me faltasse uma parte do corpo'
Para Madeleine, pensar nos alunos mortos das duas escolas é desolador.
"Tenho um vazio, é como se me faltasse uma parte do corpo", conta a professora.
Na escola onde Madeleine dava aulas de Espanhol e Literatura, ela conta que perdeu 16 dos seus alunos. E, quando pensa neles, ela sente que, "de alguma forma", conseguiu fazer algo para "não os perder".
"Este terrível sentimento de culpa me persegue", ela conta.
"Eu me pergunto: Por que, naquele feriado, decidi descansar e não inventar algo com eles? Por que não convidei as crianças para irmos à praia, fazer um piquenique? Meu Deus, por que não fiz isso ou aquilo?! Tudo isso me deixa muito mal."
"E, como precisei ir para Caracas ajudar minha sobrinha que ficou ferida, tenho sentimento de culpa por não ter ficado quando enquanto eles eram procurados entre os edifícios que desabaram", ela conta. "Isso me atormenta."
"Aquelas crianças eram a minha felicidade e não é que eles substituem minha felicidade com meus filhos e com a minha família. É um tipo de felicidade diferente e também é bonito."
Madeleine sorri quando me conta que ir para a escola era chegar ao "meu lugar feliz".
"Minhas manhãs eram algo do outro mundo", relembra ela. "Eu chegava antes de tocar o sinal e eles vinham em grupo, me agarravam. 'Tia, a bênção', diziam alguns."
"Tínhamos dois recreios de 20 minutos entre as aulas. Vocês acham que íamos ao banheiro, tomávamos café, mas não eu não conseguia.
Eles me diziam: 'Tia, vem aqui que vou contar um problema.' 'Sabe o que aconteceu comigo?' Eu era amiga deles e eles eram meus amigos."
A professora recorda que eles percebiam se ela não estava bem algum dia.
"Talvez eu chegasse muito calada, mesmo sem ter o rosto fechado, e eles me diziam: 'O que você tem, tia? Venha cá, não fique assim.'"
Do jardim para a sala de aula
Madeleine conta que nasceu para ser professora.
"Vivi com minha família, na casa da minha avó", recorda ela. "No seu quintal, havia uma parede enorme e um jardim com muitas flores."
"Eu dava aulas para aquelas flores. Elas eram minhas alunas e, na parede, eu rabiscava as tarefas. Eu sempre quis ser professora, desde criança."
Para Madeleine, é fundamental que cada membro da sua aula se sinta observado, ouvido e querido. "Nossos adolescentes sentem falta disso."
Ela conta que "aqui na Venezuela, os professores são muito próximos." "Eu sei", respondo eu.
Tenho belas recordações dos meus professores nas escolas de Caracas. Na verdade, continuo em contato com uma das mais queridas, minha professora de matemática Claret, do ensino médio. É um vínculo que não conhece a passagem do tempo.
A experiência de Madeleine demonstrou que, às vezes, os jovens se abrem mais com o professor com quem estabelecem conexão. Eles sentem mais liberdade para expressar algo que os preocupe.
"Nós dizemos ao aluno: 'Venha cá, por que você está assim? O que aconteceu? Por que não está escrevendo? Vamos conversar.'"
"Eles se relaxam sobre certos assuntos, esclarecemos as dúvidas, os consolamos [e dizemos] 'vamos procurar uma solução para este problema, fique tranquilo' e eles escutam."
A professora destaca a riqueza dos conteúdos acadêmicos acessíveis na internet, mas "está em nós, aplicando a pedagogia do amor, fazer com que esse conhecimento seja significativo, que eles aproveitem, que fique para eles."
E também fazer com que esse encontro na escola seja valioso, que "peguem gosto pela matéria" e se sintam motivados.
"O conteúdo acadêmico pode ficar em segundo plano, mas adoro que eles saibam que não são um número, que não são uma carteira."
"Talvez eles esqueçam um assunto ou outro, mas o que nunca irão esquecer é como os tratamos."
Como uma borboleta
Madeleine se lembra de um grupo do quarto ano do ensino médio que a conquistou quando entrou na escola privada onde ela lecionava.
"Havia crianças com diferentes capacidades, crianças que não queriam falar e, depois, adoravam. É que dávamos solução para tudo."
"Em um dos meus aniversários, eles fizeram uma surpresa muito comovente e nos pusemos a conversar", ela conta.
A professora conta que, entre sorrisos, perguntou aos alunos em tom de brincadeira: "E vocês, por que me veem como uma heroína, uma superpersonagem, uma deusa grega?"
Um deles tomou a palavra:
— "Profe, porque você é como as borboletas."
— "Como assim?"
— "Porque as borboletas não veem sua própria beleza. Quem contempla a beleza das suas asas são as pessoas que as veem."
A resposta a fez chorar naquele momento e também a marcou.
"Todos nós aprendemos a ser intensos, 'venham, se expressem, o que querem dizer?' Eu vivia apaixonada por aquele grupo."
"Dessa classe, perdi três estudantes."
Com lágrimas, ela me fala de uma das meninas e seu talento para pintar. "Bonita, brilhante, doce, me faz uma falta enorme."
E também do aluno que era muito tímido e, depois, ela descobriu que ele fazia teatro fora da escola."
"Eu o coloquei como diretor dos trabalhos de final de ano e ele se encarregou de organizar o grupo", ela conta. "Exerceu uma liderança maravilhosa, ele que nem falava em sala de aula."
"E ele me disse: 'Tia, obrigado.'"
"Eu o repreendia porque ele tinha síndrome do impostor. Escrevia muito bem, mas dizia que, em tudo, ele tinha um defeito. Eu dizia: 'Não, você é bonito, olhe para tudo o que você faz, você tem grande valor.'"
"Ele me faz muita falta."
Os que se foram de La Guaira
Madeleine perdeu o pai no deslizamento de terra ocorrido em La Guaira em 1999. Entre 10 mil e 30 mil pessoas morreram naquela ocasião.
"Foi uma dor muito grande", ela conta.
"Perdi cerca de 20 kg devido à depressão, foi meu primeiro luto forte. Mas o que experimentei com todos os meus meninos foi outra coisa."
"É como se todos fossem minha família, meus sobrinhos e me fazem falta", lamenta a professora. "Quero saber que, embora não estejam comigo, estão bem em outro lugar."
"Perder os que morreram e os que saíram do Estado me afetou muito. Sei que estão bem e isso me acalma um pouco, mas eu queria estar com eles. Vou guardá-los para sempre como um tesouro, vão me fazer falta."
No momento, ela não tem previsão de voltar para a escola particular onde ensinava Espanhol.
"Precisei me retirar dali, o luto não me permite regressar", conta Madeleine. "Tentei entrar, mas me afetou muito, muitas lembranças dos meus 16 meninos."
"Sinto como se me tivessem tirado uma parte do corpo, como se me faltasse um braço. Não sei definir, só sei que ainda é muito desolador viver aqui."
Ela conta que tem familiares que moram no outro lado do Estado e, para chegar até lá, é preciso cruzar uma das regiões mais devastadas pelos terremotos.
"Vou de carro e me sinto muito triste quando passo por ali, é uma luta enorme", afirma a professora. Afinal, o que se vê são os escombros das casas de alguns dos seus alunos.
"Eu conhecia meus meninos, sabia onde eles moravam."
"Sempre fui de La Guaira, não me imagino morando em outro lugar. É algo que nos diferencia, é difícil nos adaptarmos a outros ambientes, somos o mar, somos o entardecer."
"Minha sobrinha, graças a Deus, está melhor e me propôs que me mudasse para Caracas", ela conta. "Mas, aqui, em La Guaira, estão meus entes queridos, minha mãe, minha família, embora não descarte porque, às vezes, o medo me invade."
Madeleine fala conosco da casa onde mora, que "sofreu danos menores", segundo ela.
Ela continua trabalhando como professora da escola pública Juan José Mendoza que, segundo conta, não sofreu danos estruturais, mas foi submetida a um processo de renovação.
"Enquanto isso, estamos atendendo as crianças em outra instituição próxima", ela conta.
'Vamos viver por eles e por nós'
Madeleine entrou para o quadro docente de outra escola. "Morreu uma colega que dava minha disciplina e me chamaram."
"A recepção foi feita com um grupo de psicólogos muito bom, que vai começar a nos atender, pois o bem-estar do pessoal é importante", explica ela.
"Eu não queria admitir, mas preciso", ela conta. "Eu estava em negação, mas necessito que me orientem, estou muito presa ao luto."
"Alguns dos meus alunos me escrevem: 'Tia, fique tranquila, vamos viver por eles e por nós.'"
"Eles mesmos, os que foram embora de La Guaira porque perderam suas coisas, me levantaram, me escrevem, me aconselham."
Madeleine faz um pedido de ajuda para os professores de La Guaira e de qualquer outro lugar que tenha sido afetado pelos terremotos.
"Quando você é professor e sua fonte de trabalho está ali, abraçando você, como você arranca a dor?", questiona ela.
Ela me pede para ter em conta que os professores do ensino médio trocam de classe a cada hora e meia. "Agora, pense nas professoras que ficam o dia todo com os seus meninos, sofrendo pelos que perderam."
'Estou aqui para vocês'
Yssa Hernández é professora e diretora de uma escola que oferece educação infantil, do maternal até o terceiro ano da pré-escola. A instituição pertence à Associação Civil Juvenil Alvorada.
"Perdemos oito alunos", ela conta por chamada de vídeo, falando da escola localizada em Caraballeda, "a cerca de 300 metros do ponto zero".
"E há outros que não irão voltar porque foram embora do Estado. A maioria emigrou."
Seu objetivo é começar as aulas nos próximos dias. Em um ano normal, haveria 110 crianças matriculadas. Mas, este ano, são apenas 11.
"Estes dois meses foram incrivelmente difíceis, pois estamos todos abatidos."
Em julho, com o apoio de professores aposentados e organizações religiosas e não governamentais, a escola ofereceu atenção recreativa e contenção emocional a crianças de três a 12 anos de idade.
"Em uma das atividades, uma menina nos disse que queria ser um super-herói para voar sobre os edifícios e salvar as pessoas, quando ocorresse um terremoto", conta a professora Laura Brito.
Outra docente, Oneida Castillo, recorda quando as crianças a abordaram.
"Um me disse: 'Profe, meu pai perdeu o braço.' Outro me disse: 'Morreram meu primo e meu tio.'"
"Assim, começaram a surgir muitas experiências, mas todas sobre mortos. Foi muito, muito triste. Eu tinha o coração despedaçado. Sem saber o que dizer, eu os abracei."
Hernández conta que a Cecodap, uma organização promotora dos direitos das crianças, está oferecendo apoio psicológico para as crianças e os pais.
"Nós, professores, precisamos conter e orientar", indica a educadora.
"Neste ano escolar, precisamos levar um pouquinho de luz para cada lar. O conteúdo acadêmico vem depois, este ano é de reconstrução do ser humano."
Por isso, ela considera fundamental que seus funcionários e os professores das regiões afetadas também contem com apoio psicológico.
Castillo já pensou no que dirá aos seus alunos, no primeiro dia de aula.
"Estou aqui para vocês, para dar muito amor a vocês, pois esta é a sua casa."
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