Publicado em 11 de fevereiro de 2026 às 06:09
O Supremo Tribunal Federal (STF) julgará a partir de sexta-feira (13/2) um recurso que questiona se a Lei de Anistia tem mesmo validade para impedir o julgamento de acusados de atuar no desaparecimento de opositores da ditadura militar, regime que governou o Brasil entre 1964 e 1985.>
A Lei da Anistia, de 1979, perdoou alguns crimes cometidos durante a ditadura, inclusive torturas e assassinatos de opositores do regime. >
O Ministério Público Federal (MPF) argumenta nesse recurso, porém, que o desaparecimento de pessoas é um crime que não pode ser perdoado por ter duração permanente.>
A decisão da Corte terá repercussão geral, ou seja, terá validade para todos os casos semelhantes, como o do deputado Rubens Paiva — seu assassinato e o desaparecimento de seu corpo foi tema do filme Ainda Estou Aqui, vencedor do Oscar de melhor filme internacional no ano passado.>
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Após anos sem analisar a questão, a Corte deu repercussão geral para quatro recursos contra a Lei da Anistia em 2025, sendo um deles o que será julgado agora — os demais ainda não tiveram julgamento marcado.>
O primeiro recurso pautado está marcado para o plenário virtual, com duração entre 13 e 24 de fevereiro. Nesse período, os ministros poderão depositar seus votos por escrito.>
No entanto, a análise poderá ser interrompida caso um dos integrantes do STF decida pedir destaque para que o recurso seja julgado no plenário físico da Corte. >
Caso isso aconteça, caberá ao presidente do Supremo, o ministro Edson Fachin, marcar a data do novo julgamento.>
O tema entrou em pauta no plenário virtual a pedido do relator do caso, o ministro Flávio Dino. >
Nesse recurso, o MP tenta destravar um processo criminal contra militares acusados do desaparecimento de militantes da Guerrilha do Araguaia, movimento armado que combateu a ditadura militar entre o final da década de 1960 e o início de 1970.>
A denúncia criminal foi apresentada em 2015 contra Lício Augusto Ribeiro Maciel e Sebastião Curió Rodrigues de Moura, ambos tenente-coronéis do Exército Brasileiro. >
Lício é acusado de homicídio qualificado e ocultação de cadáver, enquanto Curió, falecido em 2022, foi denunciado apenas pelo segundo crime.>
A abertura do processo, no entanto, foi recusada na primeira instância judicial e, em 2020, também no Tribunal Regional Federal da 1ª Região, com o argumento de que os crimes estariam perdoados. >
O MP agora tenta reverter esse entendimento no STF, argumentando que a Lei da Anistia não está de acordo com princípios da Constituição Federal de 1988.>
Não é a primeira vez que o STF julga a constitucionalidade da lei. Em 2010, a maioria da Corte, por 7 votos a 2, decidiu pela validade da anistia.>
Depois disso, o Brasil foi condenado três vezes na Corte Interamericana de Direitos Humanos, que entendeu que a Lei da Anistia impede a investigação e a responsabilização de graves crimes contra a humanidade, sendo incompatível com a Convenção Americana, documento ratificado pelo Brasil.>
As primeiras condenações ocorreram em 2010, em relação ao processo sobre a tortura, assassinato e desaparecimento de militantes da Guerrilha do Araguaia, e 2018, em relação ao processo sobre a tortura e assassinato do jornalista Vladimir Herzog, impulsionando a apresentação de novos recursos ao STF contra a Lei da Anistia.>
Já o terceiro caso acaba de ser julgado em dezembro. Nele, a Corte condenou o Brasil por práticas como detenção arbitrária, tortura, execução extrajudicial e ausência de investigação e punição dos responsáveis pela morte de Eduardo Collen Leite e a tortura de sua esposa grávida, Denise Peres Crispim, ambos opositores do regime militar.>
Em entrevista à BBC News Brasil em janeiro, o procurador da República Marlon Alberto Weichert, que atua pelo MPF em casos da ditadura militar, disse esperar que a nova condenação impulsionasse o julgamento dos recursos no STF.>
"A Corte reafirmou que, no Brasil, foram cometidos crimes contra a humanidade e que o Estado brasileiro está violando obrigações internacionais ao não promover o julgamento dos partícipes desses crimes contra a humanidade. Então, temos uma expectativa de que isso possa, de algum modo, influenciar o Supremo Tribunal Federal.">
Defensores da Lei da Anistia dizem que ela foi necessária para "pacificar" o país e abrir espaço para o fim do regime militar. Argumentam ainda que a anistia valeu tanto para apoiadores do regime quanto para opositores que teriam cometido crimes em ações para tentar derrubar a ditadura, como a resistência armada.>
No entanto, enquanto a lei abriu espaço para a volta de exilados políticos, ela excluía da anistia os militantes já "condenados pela prática de crimes de terrorismo, assalto, sequestro e atentado pessoal".>
Segundo Weichert, esses presos — condenados em processos que não seguiam princípios do devido processo legal, como amplo direito à defesa — deixaram a prisão conforme cumpriram suas penas ou alcançaram progressão de regime. >
Esse processo, lembra o procurador, foi acelerado após mudanças da Lei Nacional de Segurança adotadas no início dos anos 1980 que reduziram o tempo das punições.>
Recursos e ações sobre a Lei da Anistia que tramitam no STF argumentam que a Constituição brasileira e acordos internacionais assinados pelo Brasil não permitem perdoar crimes de graves violações de direitos humanos cometidos por agentes do Estado de forma sistemática, como torturas e assassinatos de opositores da ditadura militar.>
Outro argumento é que a anistia não poderia incluir crimes continuados ou permanentes, como o desaparecimento de corpos que nunca foram localizados — um cenário possível é que o STF acolha apenas esse segundo argumento, o que permitiria apenas processar os acusados por crime de ocultação de cadáver.>
No ano passado, o STF decidiu, por unanimidade, dar repercussão geral a quatro recursos que buscam destravar processos criminais.>
Além do caso da Guerrilha do Araguaia, o MPF tenta processar acusados das mortes de Rubens Paiva, Mário Alves de Souza Vieira (dirigente do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário) e Helber José Gomes Goulart (militante da Aliança Libertadora Nacional).>
Os restos mortais de Vieira seguem desaparecidos, enquanto os de Goulart foram localizados em 1992 no Cemitério de Perus, em São Paulo, onde estava enterrado como indigente.>
Ainda não houve análise de mérito desses casos — e o fato de os ministros terem votado pela repercussão geral não significa que vão, necessariamente, apoiar a revisão da lei.>
Porém Flávio Dino, relator do caso da Guerrilha do Araguaia, já propôs uma tese de que o desaparecimento de corpos é um crime permanente e não pode ser perdoado pela anistia. Ele citou o filme de Walter Salles em seu voto pela repercussão geral.>
"O crime de ocultação de cadáver tem, portanto, uma altíssima lesividade, justamente por privar as famílias desse ato tão essencial [o sepultamento]. No momento presente, o filme 'Ainda Estou Aqui' — derivado do livro de Marcelo Rubens Paiva e estrelado por Fernanda Torres — tem comovido milhões de brasileiros e estrangeiros", escreveu.>
"A história do desaparecimento de Rubens Paiva, cujo corpo jamais foi encontrado e sepultado, sublinha a dor imprescritível de milhares de pais, mães, irmãos, filhos, sobrinhos, netos, que nunca tiveram atendidos os seus direitos quanto aos familiares desaparecidos. Nunca puderam velá-los e sepultá-los, apesar de buscas obstinadas como a de Zuzu Angel à procura do seu filho.">
Além desses recursos, há outra ação que questiona de forma mais ampla a Lei da Anistia, uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) apresentada pelo PSOL em 2014, de relatoria do ministro Dias Toffoli. Não há previsão de julgamento.>
De acordo com o procurador Alberto Weichert, há mais de cinquenta casos travados pela Lei da Anistia que potencialmente podem ser impactados por uma revisão ampla do STF — algo que incomodaria as Forças Armadas. Muitos dos acusados, porém, já podem estar mortos, o que levaria ao arquivamento de processos.>
Em entrevista à BBC News Brasil em 2024, o advogado Rodrigo Roca, que representa os acusados de torturar e matar Rubens Paiva, questionou a argumentação de que os crimes da ditadura podem ser enquadrados como crimes contra a humanidade.>
"Uma conduta para ser considerada crime contra a humanidade, ela precisa se voltar contra a população civil como um todo. E não contra determinados grupos insurgentes", disse Roca.>
"Isso, legalmente, ou seja, tecnicamente, penso até que dogmaticamente, não poderia jamais ser tipificado como crime contra a humanidade.">
O advogado afirmou ainda que o processo movido pelo MPF que busca um desfecho para a morte de Rubens Paiva, iniciado durante o governo de Dilma Rousseff (PF), na esteira das conclusões da Comissão da Verdade, teve um "viés político".>
Segundo ele, sempre que um governo de esquerda chega ao poder, há um "recrudescimento desse movimento", que ele qualifica como "delírios".>
"É preciso se perguntar antes a quem isso vai interessar, qual é a relação custo-benefício de uma nova mobilização dessas, do governo, de alguns setores do Judiciário, em torno de pessoas com questões jurídicas plenamente resolvidas, quer dizer, é uma perda para todos, é uma guerra sem vencedores", afirmou o advogado na ocasião.>
"Há um revolvimento de uma matéria jurídica já bem desgastada e resolvida do ponto de vista social. Caberia ao plano jurídico apenas aderir a essa consciência popular e pôr um fim nessa história.">
Além do sucesso do filme de Walter Salles, juristas também atribuem a retomada da discussão da Lei da Anistia aos ataques de 8 de janeiro de 2023, em que bolsonaristas radicais insatisfeitos com a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) invadiram e depredaram as sedes dos Três Poderes.>
O STF já condenou, com penas duras, dezenas de pessoas por esse ataque, visto pela maioria da Corte como parte de uma tentativa de golpe de Estado, inclusive o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e integrantes do núcleo de seu governo.>
Parlamentares aliados a Bolsonaro não alcançaram apoio para uma anistia a esses condenados no Congresso, mas conseguiram aprovar a redução das penas, no que ficou conhecido como PL da dosimetria.>
O presidente Lula, porém, vetou a proposta. Agora, a bancada bolsonarista tenta derrubar o veto em sessão conjunta do Congresso. A votação ainda será marcada pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).>
"O caso do Rubens Paiva estava adormecido há muitos anos, assim como tantos outros, e veio então essa conjuntura: de um lado o 8 de Janeiro e, de outro, o Oscar", disse à BBC News Brasil o professor de Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) José Carlos Moreira Filho, quando o STF aprovou a repercussão geral do tema, no início de 2025.>
"Foram dois eventos que acabaram criando um ambiente muito mais favorável à continuidade desses casos, que estavam simplesmente parados.">
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