Publicado em 14 de março de 2026 às 11:36
O Brasil volta a entrar em "clima de final de Copa do Mundo" neste domingo (15/3). Mas, pelo segundo ano consecutivo, a disputa é pelo Oscar.>
Um ano após o triunfo de Ainda Estou Aqui, brasileiros torcem agora por uma estatueta para O Agente Secreto, indicado a quatro categorias do principal prêmio do cinema mundial.>
De transmissões em salas de cinema a festas com DJ, torcedores se reúnem para acompanhar se o filme de Kléber Mendonça Filho repetirá o feito do conterrâneo Walter Salles. >
Cinemas, bares e espaços culturais em diferentes cidades do país organizam eventos para exibir a cerimônia — especialmente no Recife, onde se passa a história.>
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A produção disputa nas categorias de Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (para Wagner Moura) e Melhor Direção de Elenco.>
Recife e Olinda se preparam para acompanhar a cerimônia do Oscar com eventos especiais e concurso de sósias da personagem Dona Sebastiana e da folclórica Perna Cabeluda. >
Com ingressos esgotados, o Cinema São Luiz, também cenário do filme, vai transmitir a cerimônia em Recife. Um telão também será instalado na Rua da Aurora, um dos principais cartões-postais da capital pernambucana.>
Em Olinda, a sede da Pitombeira dos Quatro Cantos, que vendeu mais de 30 mil camisas do clube carnavalesco após Wagner Moura aparecer nas telas com uma delas, vai exibir a premiação com apresentações de frevo.>
Na véspera da cerimônia, o Brasil aparece mais visível do que nunca. Desde a estreia do filme no Festival de Cannes, em maio de 2025, elenco e equipe participaram de uma intensa campanha internacional.>
O ator Wagner Moura, protagonista do longa, tem feito uma maratona de entrevistas de divulgação, mostrando que o brasileiro "tem o molho" — e especialmente o baiano. O filme chega à premiação acumulando dezenas de prêmios, incluindo o Globo de Ouro. >
Mas será que o engajamento dos brasileiros vai se concretizar em uma premiação pelo segundo ano consecutivo?>
Para a crítica de cinema Caryn James, que escreve para a BBC, o desempenho do filme nas indicações já demonstra a força da produção brasileira neste ano.>
"Isso diz muito sobre a força de O Agente Secreto, que recebeu tantas indicações importantes, e eu diria que merecia ainda mais, especialmente para direção", afirma a crítica britânica.>
A presença nas principais categorias representa um avanço em relação ao ano passado, quando Ainda Estou Aqui, de Walter Salles — também ambientado durante a ditadura militar brasileira — foi o representante do país na premiação.>
Mas, apesar do reconhecimento da crítica e dos diversos prêmios que a produção conquistou nesta temporada, a imprensa especializada não aponta o filme brasileiro como favorito nas categorias em que concorre.>
Mas, se o número de indicações aumentou, o cenário da disputa parece mais difícil. É o que afirma a crítica de cinema Flávia Guerra. >
"A gente vem com mais indicações, o que é incrível, porque mostra uma evolução de um ano para o outro. Mostra o cinema brasileiro fazendo filmes melhores ou mais competitivos — e também a nossa capacidade de nos posicionarmos nessa festa, que é prioritariamente americana, internacional e muito competitiva", afirma. >
"Claro que, como público brasileiro e torcedor, a gente tende a pensar: se agora temos mais indicações, então também deveríamos levar mais prêmios. Mas a matemática não é tão linear assim. O Oscar ainda é, no fim das contas, uma ciência humana.">
Abaixo, veja a análise das chances da produção levar uma estatueta neste domingo.>
Na categoria de Melhor Filme, o longa enfrenta uma disputa dominada por produções americanas de grande orçamento, muitas delas com mais indicações na premiação.>
"É difícil para qualquer filme competir pelo prêmio de melhor filme com Uma Batalha Após a Outra e Pecadores, que são produções de grande escala", afirma Caryn James.>
Pecadores, dirigido por Ryan Coogler, estabeleceu um novo recorde e é o filme mais indicado da história do Oscar, com 16 indicações. Uma Batalha Após a Outra recebeu 13 indicações.>
Flávia Guerra concorda que a disputa na categoria é a mais difícil e lembra que a vitória do sul-coreano Parasita (2020) foi um ponto fora da curva na história da Academia. Segundo ela, o fato de a premiação ser majoritariamente americana pesa na corrida.>
"A festa é deles", afirma. "Quando a gente tem no cenário filmes como Pecadores, do Ryan Coogler, um diretor que está no auge, e também Paul Thomas Anderson, que está num momento de reconhecimento, fica difícil para a gente.">
As previsões de veículos como The New York Times e Variety apontam que as maiores chances do Brasil estão na categoria de Melhor Filme Internacional.>
Mas o principal obstáculo nessa corrida é o elogiado longa norueguês Valor Sentimental, cotado como favorito.>
Guerra destaca que os dois filmes tiveram trajetórias relativamente equilibradas ao longo da temporada.>
"A gente ganhou prêmios importantes, como o Satellite Awards, e muitos prêmios da crítica. Valor Sentimental ganhou outros.">
Ainda assim, a possibilidade de vitória brasileira não é simples. Guerra explica que fazer uma "dobradinha" brasileira — ou seja, vencer dois anos consecutivos na categoria de filme internacional — é uma tarefa "extremamente difícil".>
"A última vez que isso aconteceu foi nos anos 1990. Um bicampeonato não é fácil. E os países que conseguiram foram França, Itália, Suécia, com Bergman. São países de cinematografia muito respeitável. Seria maravilhoso se a gente conseguisse", diz. >
Caryn James diz que é significativo o fato de O Agente Secreto e Valor Sentimental estarem indicados simultaneamente a melhor filme e melhor filme internacional.>
"Isso mostra como o cinema hoje é verdadeiramente global — e como a composição mais internacional da Academia está tendo impacto", afirma.>
A indicação de Wagner Moura ao prêmio de Melhor Ator consolidou seu status internacional, junto com o prêmio no Globo de Ouro, mas a estatueta para Melhor Ator é uma disputa imprevisível.>
O americano Timothée Chalamet perdeu o favoritismo, principalmente por opiniões polêmicas sobre balé e ópera dadas em entrevistas. Ele disse recentemente que "ninguém mais liga" para essas artes. >
A controvérsia, que atingiu o auge depois do encerramento da votação do Oscar, pode não ter grande impacto no resultado. Ele também não venceu dois dos principais prêmios preparatórios recentes: o Bafta e o Actors Awards.>
Por outro lado, Michael B. Jordan ganhou tração ao vencer o prestigiado prêmio do Sindicato dos Atores (SAG).>
Caryn James descreve a atuação de Wagner Moura como fundamental para O Agente Secreto. >
"Ele é simplesmente uma presença carismática na tela", diz James. "Ao mesmo tempo em que mostra uma resistência feroz ao autoritarismo, algo com que espectadores de todo o mundo podem se identificar hoje, também cria uma relação muito terna com o filho.">
Outro marco histórico para o Brasil é a indicação de Gabriel Domingues na estreante categoria de Melhor Direção de Elenco. >
Guerra explica que este prêmio celebra o olhar visionário do profissional que lê o roteiro e identifica os rostos exatos para compor aquele universo.>
"Mas é uma categoria que não é exatamente para o elenco — e isso acho importante explicar. Ela também envolve o elenco, claro, porque o diretor de elenco é quem escolhe os atores. Mas não é "melhor elenco" no sentido de todo mundo subir ao palco. O prêmio é para esse profissional", explica. >
"Claro que existe todo um processo, com testes, e o diretor do filme tem a palavra final. Mas é esse profissional que consegue prever quem vai funcionar naquele universo.">
Aqui, ela pondera que as chances práticas de vitória são mínimas, uma vez que Hollywood é a "terra dos grandes elencos" e Domingues compete, em uma categoria recém-criada, com profissionais americanos que dominam a indústria há décadas.>
"É muito improvável que, logo no primeiro ano, o prêmio vá para um profissional estrangeiro. Não por predileção, mas por identificação mesmo. É algo natural.">
Em O Agente Secreto, o diretor Kléber Mendonça Filho passeia por diversos gêneros, do thriller e terror ao drama político, e insere diferentes de elementos de lendas urbanas nordestinas, como a "Perna Cabeluda". >
O que levantou o debate: as nuances da narrativa podem se perder na tradução?>
Para Guerra, Mendonça Filho fez um filme "extremamente brasileiro", sem concessões a um suposto "gosto internacional". Ela rejeita a premissa de que a obra seja excessivamente hermética ou difícil.>
A crítica argumenta que o público, especialmente o americano, está historicamente acostumado a ver sobretudo o próprio universo retratado na tela. >
"A força do filme está justamente em não fazer concessões. Está no fato de ele ser muito local, muito fiel ao seu próprio universo. Quem escreve roteiro fala isso o tempo inteiro: quanto mais local você é, mais universal você se torna", afirma.>
"Ao mesmo tempo, o Kleber também não esquece da linguagem do cinema. Ele trabalha essa identidade local sem abrir mão do repertório e da linguagem cinematográfica.">
Do ponto de vista da crítica estrangeira, Caryn James também vê a estratégia como eficaz. A jornalista britânica, como seria de esperar, nunca tinha ouvido falar da "Perna Cabeluda" antes de pesquisar sobre o filme, mas afirma que isso não foi uma barreira.>
"A paródia de gênero daquela sequência de terror funciona de qualquer maneira", avalia James. Segundo ela, Mendonça Filho fornece ao público as informações necessárias para compreender o absurdo da situação. >
"Podemos não entender as nuances das diferenças regionais no Brasil, por exemplo, mas captamos a ideia básica de que elas existem e influenciam a história.">
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