Publicado em 11 de dezembro de 2025 às 15:44
O que está em jogo no futebol vai muito além do que se passa no campo. E a história de Cliver Huamán Sánchez, de 16 anos, conhecido como "Pol Deportes", demonstra muito bem isso.>
Um vídeo viral fez com que centenas de milhares de pessoas de todo o mundo passassem a seguir o adolescente peruano nas redes sociais.>
Cliver viajou mais de 16 horas de ônibus com seu irmão Kenny e seu pai, Simeón.>
Ele saiu da sua província natal, Andahuaylas, no sul do Peru, para realizar um sonho: narrar a final da Copa Libertadores da América, disputada em 29/11 no Estádio Monumental de Lima, a capital peruana, quando o Flamengo se sagrou campeão ao vencer o Palmeiras por 1 a 0. >
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O jovem não conseguiu entrar no estádio, mas não se deu por vencido. Ele subiu em um morro com vista para o Monumental e, dali, seu relato ao vivo pelo TikTok, filmado pelo seu irmão, enlouqueceu as redes sociais.>
Agora, ele realiza outro sonho. O apoio de muitas pessoas e especialmente do "tio Santi" — como ele chama o apresentador de TV espanhol radicado no Peru, Santi Lesmes — levou Cliver e seu irmão para Madri, na Espanha. E, desta vez, ele não ficou fora do campo.>
No lendário Estádio Santiago Bernabéu, do Real Madrid, Cliver narrou na quarta-feira (10/12) a partida do clube espanhol contra o Manchester City, pela Champions League. >
O jogo terminou com a vitória dos ingleses por 2 a 1 — e a conta de Pol Deportes no TikTok atingiu a marca de dois milhões de seguidores.>
Transbordando de emoção, o jovem contou à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC, sua história repleta de paixão, perseverança e marcada pelo amor de sua família e de toda uma comunidade.>
"Tudo começou na minha cidade, quando eu tinha três anos de idade", conta Cliver à BBC.>
"Meu pai me levava para a rádio para poder falar, para narrar contos. E, quando eu tinha sete ou oito anos, trabalhava na chácara com meus tios, que me faziam narrar em quéchua [família de línguas indígenas dos Andes com cerca de 10 milhões de falantes atualmente].">
O menino começou a narrar jogos de futebol com 11 anos, mas se deparou com um fantasma poderoso: o medo. Isso porque algumas poucas pessoas zombaram das suas narrações.>
"Então, como qualquer criança de 11 anos, me calo e fico desligado por um ano e meio. Eu meio que tive um trauma depois que riram de mim no estádio e tinha medo de que isso voltasse a acontecer.">
"Quando meu irmão me gravava, eu não queria que gravasse o meu rosto e dizia para ele: 'filme a parede e eu vou falar'.">
Mas, pouco a pouco, o menino ganhou confiança e se animou a mostrar o rosto.>
"Na primeira vez em que narrei ao vivo, estava duro como uma estátua", ele conta.>
Aos 13 anos, ele começou a narrar para um meio de comunicação local, chamado Pasión Deportiva Apurímac. Foi seu irmão Kenny quem o convenceu a criar suas próprias plataformas, com o nome Pol Deportes.>
O apelido "Pol" surgiu porque, quando era menor, Cliver queria ser policial.>
Seu caminho também foi marcado por dificuldades econômicas, mas houve algo que nunca lhe faltou: o apoio incondicional da sua família.>
"Meu irmão influenciou tudo isso, meu irmão que sempre esteve comigo", conta Cliver à BBC.>
Seu irmão Kenny, hoje com 19 anos, foi trabalhar em Lima, para ganhar dinheiro e apoiar o sonho do irmão menor.>
"Meu irmão precisou trabalhar para poder pagar a internet para fazer nossos vídeos. Ele teve que deixar de estudar.">
Chegar a narrar futebol com confiança "não foi da noite para o dia", garante ele, mas "um processo bastante longo, de três a quatro anos".>
Kenny voltou de Lima para Andahuaylas e passou a ser o cinegrafista do seu irmão menor. Eles fizeram um vídeo de uma partida local que chegou a seis milhões de visualizações. Muitas pessoas em Andahuaylas começaram a incentivá-los.>
"Eles nos apoiavam e diziam 'Pol, você precisa continuar'; 'Pol, você é o futuro do jornalismo peruano'.">
"E comecei a dizer que há muitas pessoas que confiam em mim. Acredito que preciso atendê-los e também ao meu irmão, meu pai e minha mãe que estava sempre comigo.">
Cliver recorda com frequência as palavras que sua mãe Lida costumava dizer em quéchua.>
"Você precisa ir atrás dos seus sonhos. Precisa persegui-los. Nós estaremos aqui para apoiar você.">
"E é aqui que minha mentalidade mudou e me decidi finalmente seguir por este mundo do jornalismo e da narração.">
Quando Cliver e Kenny viajaram para Lima, para transmitir a final da Copa Libertadores, a prefeitura da cidade pagou a passagem de ônibus.>
Antes de ir para a capital, quando um telão gigante transmitia uma partida de futebol local na praça central da cidade, Cliver se animou a pegar o microfone e pedir apoio para seu sonho de narrar a final da Libertadores.>
"Agarrei o microfone e disse: 'Vejam, sou Pol Deportes. Vou para a final da Copa Libertadores. Não sei se poderiam me apoiar curtindo os vídeos.' E narrei um pouquinho.">
"As pessoas se emocionaram, me abraçaram e me disseram 'você tem que ir, tem que colocar Andahuaylas no alto'. E tudo isso eu tinha em mente, que não poderia decepcionar a todos eles.">
"Algumas poucas empresas, com seu grãozinho de areia, também confiaram em nós.">
Ao chegar a Lima, Cliver conseguiu gravar entrevistas com torcedores dos dois clubes brasileiros. Mas a polícia não permitiu que ele chegasse até o Estádio Monumental.>
"Fiquei triste", relembra ele. "E disse ao meu irmão que voltaríamos naquela tarde para Andahuaylas. Mas ele respondeu 'você não vai voltar decepcionado'.">
Enquanto pensavam no que iriam fazer, eles foram ao aviário de um vizinho da província que morava em Lima, que sugeriu aos meninos que subissem o morro.>
"Ele nos contou 'uma vez, gravei no morro um vídeo levando frango e chegou a um milhão de visualizações. E acredito que podemos ir até lá'.">
O resto é história.>
"No morro, armei meu tripé, criei coragem, com meu pai de comentarista e meu irmão filmando.">
No segundo tempo, mais de 10 mil pessoas acompanhavam a transmissão ao vivo no TikTok. A gravação posterior superou rapidamente um milhão de visualizações.>
Tudo isso com um microfone que ele recebeu de presente do seu tio, preso em um cubo caseiro montado pelo próprio Cliver.>
"Fiz esse cubinho por necessidade porque ninguém o vendia em Andahuaylas. Fiz de papelão e esponja de lavar louça e ele me acompanha até agora.">
Sua experiência ao chegar à Espanha foi "super incrível", conta Cliver.>
"Agradeço primeiramente a Deus, agradeço a todas as pessoas que estão me apoiando para que eu possa chegar aqui em Madri", exclama ele.>
"Foi super incrível o carinho das pessoas aqui na Espanha. Também fizemos uma transmissão ao vivo para o Peru e havia muitos compatriotas peruanos. Estou orgulhoso de ser peruano e feliz por estar aqui.">
Enquanto se preparava para a partida da Champions, Cliver ofereceu suas previsões para a Copa do Mundo.>
"Acredito que, para o Mundial 2026, os favoritos são Espanha e Portugal.">
Quando voltar para o Peru, o jovem quer terminar o ensino médio e estudar comunicações.>
"Existem universidades que querem me apoiar e o governo quer me dar uma bolsa de estudos", ele conta.>
Seja qual for o seu caminho e graças, em grande parte, aos valores que recebeu dos seus pais, o adolescente tem um ponto muito claro.>
"Uma última pergunta", propõe a reportagem da BBC News Mundo. "Como você acredita que irá conquistar seu sonho de se tornar jornalista?">
"Com fé, persistência, trabalho e humildade", responde Cliver.>
Cliver Huamán Sánchez foi entrevistado por Agustina Latourrette, da equipe de vídeo da BBC News Mundo.>
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