Um número de telefone atribuído ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes em registros extraídos do celular do ex-controlador do Banco Master Daniel Vorcaro também aparece associado a contas digitais identificadas com o nome do ministro, segundo apurou a BBC News Brasil.
O relatório da PF, de mais de 200 páginas, não afirma explicitamente que o número pertencia a Moraes.
O material, tornado público na terça-feira (1/9) por decisão do ministro André Mendonça, indica que Vorcaro teria tratado com esse contato de informações relacionadas à Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas de fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master, além de medidas que poderiam afetar sua prisão preventiva.
Ao longo do documento da PF, o nome do ministro aparece entre aspas, em referência a como estava registrado na agenda de Vorcaro, e as conversas são descritas como "possíveis interações" entre os dois. No aparelho, segundo o relatório, Vorcaro mantinha quatro registros relacionados ao mesmo número: "Alexandre de Moraes BRASILIA", "Novo", "STF TSE NOVO" e "Eu STF".
Segundo a Polícia Federal, os contatos foram compartilhados pelo ex-ministro Fábio Faria em uma conversa no WhatsApp, em 26 de dezembro de 2023, e posteriormente armazenados por Vorcaro no celular.
A perícia, no entanto, recuperou apenas mensagens enviadas por Vorcaro. As respostas que teriam sido encaminhadas pela outra parte da conversa não foram obtidas (entenda melhor abaixo).
Contas associadas ao número
Para verificar as associações digitais, a BBC News Brasil submeteu o número que aparece ligado ao ministro no relatório à OSINT Industries, uma plataforma europeia usada em investigações digitais.
O serviço faz buscas em diferentes bases de dados para identificar vínculos entre números, contas, nomes de usuário e serviços online.
"Osint" é a sigla em inglês para inteligência de fontes abertas, método que consiste em reunir e analisar informações disponíveis publicamente, sem acessar dados privados ou invadir sistemas.
No caso analisado, foram encontradas quatro associações.
No TikTok, o número atribuído a Moraes aparece vinculado a um perfil identificado como "Xandao". A conta foi criada em 2024 e não registra atividade posterior ao cadastro, segundo a plataforma de verificação.
O perfil tem três seguidores e segue apenas uma conta, de uma filha do ministro. Em verificação feita diretamente no aplicativo, a BBC News Brasil constatou que Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, e a mesma filha estão entre os seguidores. O perfil permanecia no ar até a publicação desta reportagem.
A BBC News Brasil confirmou ainda que o perfil de Viviane Barci que segue a conta de Moraes também está associado ao número de telefone que aparece no relatório da PF como pertencente a ela. A associação foi identificada por meio de uma busca pelo número de Viviane no mesmo serviço.
A consulta também localizou o número atribuído a Moraes em três serviços de identificação e busca reversa de telefones: SimplerMe, Calling App e Truecaller. Nos três, o telefone apareceu associado ao nome "Min. Alexandre de Moraes". A mesma busca foi repetida em outro site semelhante, o que resultou nas mesmas informações.
Essas plataformas permitem pesquisar números para verificar possíveis vínculos com nomes, contas ou registros disponíveis em suas bases. O Truecaller, por exemplo, é um aplicativo de identificação de chamadas e diretório colaborativo (ou seja, outras pessoas associaram este número como sendo do ministro Alexandre de Moraes).
Segundo Nathaniel Fried, CEO da plataforma, as ferramentas da empresa "funcionam integralmente com dados de fontes abertas em tempo real", ou seja, informações que as pessoas decidiram compartilhar voluntariamente e de forma pública.
"Oferecemos acesso gratuito a jornalistas para apoiar o importante trabalho que realizam ao cobrar responsabilidade dos poderosos e fortalecer a democracia", afirma.
A BBC News Brasil procurou o gabinete do ministro para comentar as informações, mas não obteve resposta até o momento.
Por que mensagens atribuídas a Moraes não foram recuperadas?
Investigadores recuperaram mensagens apagadas do celular de Vorcaro e reconstruíram parte dos diálogos com base em capturas de tela enviadas pelo WhatsApp.
De acordo com a PF, ele redigia as mensagens em um aplicativo de notas do celular. Depois, fazia uma captura de tela e enviava a imagem pelo WhatsApp, usando o recurso de visualização única.
Nesse formato, o conteúdo não ficava registrado como uma mensagem de texto convencional e poderia desaparecer depois de visualizado.
A perícia encontrou, no entanto, arquivos no próprio celular correspondentes às capturas de tela.
Segundo o relatório da PF, cada imagem gerava um arquivo temporário em formato PDF, que podia ser checado com outras informações tiradas do celular.
Esses arquivos foram localizados em uma pasta interna do sistema identificada como "tmp", abreviação de temporary, ou temporário. Trata-se de uma área usada pelo iPhone para armazenar arquivos provisórios gerados automaticamente.
Parte dos documentos havia sido apagada poucos minutos depois da criação, mas foi recuperada durante a extração forense.
"Após elaborar o texto das notas ora tratadas e realizar um screenshot do conteúdo, DANIEL VORCARO efetua, poucos segundos depois e como primeira interação no Whatsapp após o screenshot, a remessa de mensagem ao terminal", afirma o relatório da PF.
Mas somente o celular de Vorcaro foi apreendido, não o de seu interlocutor. Por isso, não foi possível recuperar esses mesmos arquivos temporários do outro lado da conversa.
Os investigadores cruzaram os horários de criação e alteração das notas, produção das capturas de tela, geração dos arquivos PDF e envio das imagens pelo WhatsApp. Também verificaram a conversa à qual cada arquivo estava associado.
Em nota divulgada na terça-feira, o escritório Barci de Moraes afirmou que seu setor de compliance consultou Alexandre de Moraes sobre a existência de possíveis impedimentos legais para a contratação de serviços pelo Banco Master.
Segundo o escritório de advocacia, a consulta ocorreu porque o ministro é marido de Viviane Barci de Moraes, sócia-diretora da banca. O objetivo seria verificar eventuais restrições, como processos sob relatoria de Moraes no STF ou julgamentos de interesse do banco.
O escritório afirma que não havia previsão de atuação perante o Supremo nem impedimento legal para a contratação. Também diz que Alexandre de Moraes "jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master".
"Diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o Ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados", afirma a nota.
O que dizem as mensagens?
Os diálogos mostram que o banqueiro cobrava atenção especial aos pagamentos do contrato de R$ 131 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro.
No início da noite da terça-feira, a PGR se manifestou contra os procedimentos adotados por Mendonça e pedindo a nulidade do inquérito.
Em um dos episódios revelados pela PF, Vorcaro trata diretamente da execução do contrato firmado com o escritório Barci de Moraes. Em 8 de fevereiro de 2024, ele pediu ao cunhado, Fabiano Zettel, que enviasse o contrato assinado e questionou o vencimento da primeira parcela:
"Me manda Barci de Moraes assinado? Quando era o primeiro pgto?"
No mesmo dia, Ângelo Silva, tesoureiro do Master e também investigado pela Polícia Federal, enviou a Vorcaro o comprovante de uma transferência do Banco Master para a conta do escritório Barci de Moraes Sociedade de Advocacia no Banco Itaú, no valor de R$ 3.422.268,14.
Logo após a cobrança, Vorcaro passou a pressionar integrantes do banco sobre os pagamentos ao escritório. Em mensagem a Silva, escreveu: "Angelo. Pqp. Não pagaram Barci de Moraes. Não to entendendo isso. Contrato mais importante que temos te pedi pra não falhar. Surreal. Vamos ter problemas."
Minutos depois, em conversa com a funcionária Romy Goerck Gentina Klenquen, identificada nos registros como "Romy Banco Master", Vorcaro determinou que os pagamentos ao escritório não sofressem qualquer atraso:
"Romy esse Barci de Moraes por favor não deixe atrasar um dia, coloca no seu controle. É o pgto mais importante que temos."
Na sequência, reforçou a orientação: "Pode pagar sempre, sem nota."
E acrescentou: "Do jeito que for."
Ainda na conversa, Romy encaminhou o registro de uma transferência do Banco Master para o escritório de Viviane Barci de Moraes no valor de R$ 3.422.268,14.
A partir da análise dos metadados do arquivo do contrato com o Master, as investigações também apontaram que o documento foi editado por Moraes.
Em nota divulgada nesta terça-feira, o escritório Barci de Moraes afirmou que, diante da abrangência do pedido de contratação de serviços advocatícios feito pelo Banco Master, seu setor de compliance consultou o ministro Alexandre de Moraes sobre a eventual existência de impedimentos legais para a celebração do contrato.
Segundo o escritório, a consulta foi realizada porque Moraes é marido de Viviane Barci de Moraes, sócia-diretora da banca. O objetivo, de acordo com a nota, era verificar a existência de possíveis restrições, como ações sob relatoria do ministro no Supremo Tribunal Federal (STF) ou participação em julgamentos de interesse do potencial cliente.
O escritório sustenta que não foi identificada previsão de atuação no STF nem qualquer impedimento legal para a contratação. A nota afirma ainda que Alexandre de Moraes "jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master".
"Diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o Ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados", diz a nota.