> >
'Não aceitei sair com um lutador de MMA — e ele me deu um soco'

'Não aceitei sair com um lutador de MMA — e ele me deu um soco'

A escocesa Anne Marie Boyle teve lesão cerebral e passou a sofrer convulsões que a levaram a perder seu trabalho, sua carta de motorista e sua autoconfiança, após levar um soco de um lutador de muay thai.

Publicado em 30 de março de 2026 às 20:33

Imagem BBC Brasil
Anne Marie Boyle acabou com um osso malar quebrado, lesão cerebral e um trauma duradouro Crédito: Anne Marie Boyle

Importante: esta reportagem contém descrições de agressões que podem ser perturbadoras para alguns leitores.

Uma esteticista contou que um único soco de um lutador de MMA (artes marciais mistas, na sigla em inglês) em uma noite mudou a sua vida para sempre.

Anne Marie Boyle ficou inconsciente ao levar um soco depois de rejeitar os avanços de Sean McInnes em um bar na Escócia, em setembro de 2024.

Mãe de dois filhos, ela conta que tem "sorte por estar viva". Boyle teve uma fratura de órbita e do osso malar.

Mas ela conta que o ataque também a deixou com uma lesão cerebral e convulsões posteriores, que a levaram a perder seus negócios, sua licença para dirigir e sua autoconfiança.

McInnes havia participado de uma importante competição de muay thai, o boxe tailandês. Ele foi preso em março, por 21 meses.

Boyle é terapeuta de beleza, dona de sua própria empresa bem sucedida. Na noite do incidente, ela estava com seus primos em um bar em East Kilbride, na área de conselho de South Lanarkshire, na Escócia.

Ela contou à BBC que, normalmente, não costumava ir àquele bar, mas eles foram para assistir a uma apresentação.

Boyle tem 38 anos e conta que o que era, até então, uma noite calma acabou se transformando em um pesadelo que mudou a sua vida.

"Minha filha tinha futebol no dia seguinte", segundo ela. "Por isso, eu sabia que iria dirigir e, na verdade, não estava bebendo muito naquela noite."

"Aquele rapaz ficava se aproximando da mesa. Ele simplesmente não aceitava um não como resposta. Ele não nos deixava em paz."

Boyle afirma que nunca o tinha visto antes.

"Relembrando agora, certamente houve sinais de alerta, como ignorar limites", ela conta.

"Alguém me perguntou 'você acha que ele simplesmente não entende 'não'?' Na verdade, ele entendia 'não', só não era a resposta que ele queria."

Imagem BBC Brasil
Sean McInnes era lutador de MMA e havia competido no evento Lion Fight 68, uma importante competição de muay thai Crédito: BBC

Quando o bar fechou, Boyle e seus amigos saíram para ir a pé para casa.

Ela disse a McInnes: "Por favor, vá no caminho oposto." Mas ele continuou a importuná-las.

"Agressões verbais, gritos, berros no nosso rosto, ele crescia em cima de nós, não nos deixava ir embora", conta Boyle.

"Relembrando, aquilo só tinha dois desfechos. Ou ele seguiria seu caminho, ou aquilo iria acontecer. E tudo só se escalou."

McInnes participou da competição de muay thai Lion Fight 68. Ela conta que ele empurrou sua prima com tanta força que "ela estava gritando".

Segundos depois, ele socou Boyle no rosto.

"Fiquei inconsciente", segundo ela. "Imediatamente depois, ele socou outro menino e o deixou inconsciente."

Elas não sabiam que McIness era lutador de MMA.

Imagem BBC Brasil
Anne Marie Boyle sofreu fratura de órbita e do osso malar devido ao ataque Crédito: Anne Marie Boyle

"Nunca senti uma dor como aquela", prossegue Anne Marie Boyle. "Acho que ele sabia exatamente onde me atingir."

A dor no seu rosto e nos dentes era uma angústia.

"Lembro que um policial veio e me perguntou 'você está bem?' Ele disse que eu estava sangrando na parte de trás da cabeça."

Boyle ficou no hospital por três semanas e foi diagnosticada com transtorno neurológico funcional (TNF). Ela conta que esta condição faz com que o cérebro pare de enviar sinais para o corpo, causando suas convulsões.

Agora, ela também sofre de tremores involuntários e dores crônicas.

Todo este suplício trouxe imensas repercussões à sua vida. Incapaz de trabalhar, ela perdeu seu negócio e sua carteira de motorista foi revogada, pois não é seguro para ela ficar atrás do volante.

"Minha vida é completamente diferente", ela conta. "Não consigo sair sozinha. Minha ansiedade é muito forte e, agora, não sei quais são as intenções das pessoas."

Ela destaca que seus sintomas mentais, às vezes, são piores que os físicos. E também afirma que foi "horrível" passar pelo processo judicial e ver novamente o rosto de McInnes.

Tornar o mundo mais seguro para as mulheres

McInnes alegou inocência até o dia do julgamento, quando finalmente reconheceu o ataque. Boyle ficou decepcionada por ele não ter recebido uma sentença maior.

"Ele irá sair e voltar para sua família e seus filhos. Ele vai poder dirigir e voltar para o trabalho. E eu não posso trabalhar, pois posso cair a qualquer momento."

Ela deseja fazer com que as pessoas tenham consciência dos riscos representados por pessoas como McInnes. E quer tornar o mundo mais seguro para as mulheres, como suas duas filhas.

"Tenho duas filhas que precisam de mim e tenho muitas pessoas que me amam à minha volta", ela conta. "Esse amor é o que me ajuda a enfrentar isso."

"Estou contando esta história porque não quero que isso aconteça com outras pessoas que talvez não tenham o mesmo sistema de apoio, que podem não ser tão fortes, que podem não ter resistência."

Este vídeo pode te interessar

  • Viu algum erro?
  • Fale com a redação

A Gazeta integra o

The Trust Project
Saiba mais