Publicado em 4 de março de 2026 às 16:08
"Cérebro de grávida" (baby brain, em inglês) é um clichê usado há muito tempo para descrever mulheres que se tornam mais esquecidas e se sentem menos capazes durante a gravidez.>
Mas um estudo recente, o maior já realizado sobre o tema, indica que a gravidez tem um impacto estrutural profundo no cérebro e oferece novas pistas sobre as mudanças neurológicas em gestantes.>
A pesquisa sugere que a massa cinzenta, a parte do cérebro rica em neurônios, responsável pelo processamento de informações, emoções e empatia, diminui em média quase 5% durante a gravidez.>
Mas, em vez de ser motivo de preocupação, essas mudanças podem ser benéficas quando se trata de cuidar de recém-nascidos, afirmam cientistas que trabalham no projeto na Espanha.>
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Uma das dezenas de mulheres que participaram do estudo, agora mãe de um bebê, disse que recebeu bem as conclusões e que estava "cansada de ver mulheres grávidas sendo infantilizadas".>
"Em vez de ficarmos mais burras, estamos nos tornando mais especializadas para a tarefa", afirma Tania Esparza.>
A BBC teve acesso exclusivo ao projeto Be Mother (Ser Mãe, em tradução livre) e a participantes da pesquisa.>
Os cérebros de 127 mulheres grávidas foram examinados — antes, durante e depois da gestação — e comparados a exames de um grupo menor de mulheres que não estavam grávidas.>
Os cientistas também observaram que quanto maiores eram as mudanças no cérebro, maior era a probabilidade de as mulheres dizerem que estavam criando vínculos fortes com os seus bebês.>
Segundo a professora Susana Carmona, diretora do laboratório NeuroMaternal do Instituto de Pesquisa em Saúde Gregorio Marañón, em Madri (Espanha), essas mudanças podem ser positivas quando se trata de cuidar de recém-nascidos. "Na biologia, como na vida, às vezes menos é mais".>
Isso pode representar uma "reconfiguração" do cérebro — ou uma remodelação de sua arquitetura — para "prepará-lo para a maternidade", afirma Carmona, que lidera o estudo ao lado do professor Oscar Vilarroya.>
"Gosto de usar a metáfora de podar uma árvore", diz ela. "Alguns galhos são cortados para que ela cresça de forma mais eficiente.">
A gravidez provoca mudanças em muitos órgãos do corpo — o coração da mãe pode aumentar de tamanho, a capacidade pulmonar pode crescer — e, por isso, faz sentido que a gestação também altere o cérebro, afirma Carmona. Segundo ela, não se deve focar apenas em possíveis déficits de memória. "Mães de primeira viagem aprendem todo um novo conjunto de habilidades.">
Estudos sobre o cérebro durante a gravidez ainda são raros, e é necessário ampliar as pesquisas sobre esse período decisivo da vida das mulheres, acrescenta.>
As gestantes em Madri e Barcelona realizaram cinco exames de ressonância magnética cada uma. Elas também fizeram testes hormonais e responderam questionários sobre como as suas emoções mudaram durante e depois da gravidez.>
Para efeito de comparação, a equipe também analisou o cérebro de 52 mulheres que nunca engravidaram. Entre elas estavam 20 parceiras de mulheres grávidas que já participavam da pesquisa.>
"Fizemos isso para tentar começar a entender se as mudanças observadas estavam relacionadas ao processo biológico da gravidez ou mais ao processo de se tornar mãe", diz Carmona.>
Ela acrescenta que a parentalidade vai além da gravidez: "Existem muitos tipos de pais, e não é preciso engravidar para ser um bom pai ou uma boa mãe.">
O estudo, publicado na revista científica Nature Communications, não foi projetado para analisar diretamente a antiga ideia do chamado "cérebro de grávida" — a confusão mental e os problemas de memória que algumas mulheres dizem sentir durante a gravidez. Ainda assim, ele oferece indícios de que o cérebro passa por mudanças estruturais.>
Embora as mulheres grávidas tenham perdido, em média, quase 5% de sua massa cinzenta, parte desse volume voltou – embora não completamente – até seis meses após o parto. Já entre as mulheres que não estavam grávidas, a quantidade de massa cinzenta permaneceu relativamente estável.>
Há sempre alguma variação no volume de massa cinzenta ao longo do tempo em qualquer pessoa, mas uma queda de quase 5% como a observada neste estudo é inesperada, diz Carmona.>
Uma das áreas de massa cinzenta com mudanças mais marcantes e duradouras foi a chamada default mode network (rede de modo padrão), que está ligada à percepção de si mesmo, à empatia e ao altruísmo.>
A transformação pode estar relacionada à poda de redes nervosas e a mudanças nos vasos sanguíneos e nas células que sustentam os nervos, diz Carmona, e pode representar uma reorganização positiva do cérebro.>
Segundo Carmona, há muito se argumenta que um fenômeno semelhante ocorre na adolescência, quando o cérebro amadurece da infância para a vida adulta.>
Diversos estudos com adolescentes sugerem um padrão de afinamento da massa cinzenta ao longo da adolescência, com um processo de "refinamento ou poda" das redes nervosas à medida que o cérebro amadurece.>
O estudo, publicado na revista científica Nature Communications, não foi projetado para analisar diretamente a antiga ideia do chamado "cérebro de grávida" — a confusão mental e os problemas de memória que algumas mulheres dizem sentir durante a gravidez. Ainda assim, ele oferece indícios de que o cérebro passa por mudanças estruturais.>
Embora as mulheres grávidas tenham perdido, em média, quase 5% de sua massa cinzenta, parte desse volume voltou – embora não completamente – até seis meses após o parto. Já entre as mulheres que não estavam grávidas, a quantidade de massa cinzenta permaneceu relativamente estável.>
Há sempre alguma variação no volume de massa cinzenta ao longo do tempo em qualquer pessoa, mas uma queda de quase 5% como a observada neste estudo é inesperada, diz Carmona.>
Uma das áreas de massa cinzenta com mudanças mais marcantes e duradouras foi a chamada default mode network (rede de modo padrão), que está ligada à percepção de si mesmo, à empatia e ao altruísmo.>
A transformação pode estar relacionada à poda de redes nervosas e a mudanças nos vasos sanguíneos e nas células que sustentam os nervos, diz Carmona, e pode representar uma reorganização positiva do cérebro.>
Segundo Carmona, há muito se argumenta que um fenômeno semelhante ocorre na adolescência, quando o cérebro amadurece da infância para a vida adulta.>
Diversos estudos com adolescentes sugerem um padrão de afinamento da massa cinzenta ao longo da adolescência, com um processo de "refinamento ou poda" das redes nervosas à medida que o cérebro amadurece.>
Há também décadas de pesquisas com animais que mostram que a gravidez é um período de profundas alterações cerebrais em vários mamíferos, acrescenta Carmona.>
Alguns estudos com camundongos indicam que os hormônios da gravidez atuam sobre grupos específicos de células nervosas no cérebro para ajudar a "ativar" o comportamento parental. Sem esses hormônios, os camundongos praticamente ignoram os seus filhotes recém-nascidos.>
A equipe de Carmona constatou que os hormônios podem ser uma parte central desse processo em humanos.>
Os cientistas coletaram amostras de urina e saliva das participantes em cinco ocasiões e descobriram que, em alguns casos, o aumento dos níveis de estrogênio acompanhava de perto a redução da massa cinzenta.>
Segundo Carmona — cujo estudo é financiado pelo Conselho Europeu de Pesquisa —, ainda é necessário muito mais trabalho para construir um mapa neurológico detalhado do cérebro durante a gravidez e entender como ele se transforma na transição para a maternidade.>
Isso pode ajudar não apenas a compreender melhor a gravidez em geral, mas também situações em que algo não corre bem, incluindo a depressão pós-parto, afirma.>
A professora Liz Chrastil, da Universidade da Califórnia (EUA), concorda e diz que o trabalho de Carmona é importante porque também pode "ajudar a entender o vínculo entre cuidadores e bebês e a encontrar melhores formas de oferecer apoio e recuperação para mães de recém-nascidos".>
Este estudo não analisou especificamente as mudanças na memória das mulheres durante a gravidez. No entanto, em 2016, a equipe de Carmona realizou um pequeno estudo com 25 gestantes e não encontrou alterações significativas, embora as evidências de outras pesquisas sejam divergentes.>
Ela acrescenta que algumas mulheres realmente se sentem mais esquecidas e que não quer minimizar as diferentes experiências das gestantes.>
"A gravidez impõe uma enorme carga metabólica ao corpo", afirma. "Por isso, você pode ter menos energia, dormir menos e se sentir menos alerta e mais esquecida.">
Ana Mudrinic, mãe recente em Londres (Reino Unido), disse que em alguns momentos da gravidez se sentiu mais esquecida. "Eu queria enviar um e-mail para minha chefe e, naquele momento, simplesmente não conseguia lembrar o nome dela.">
Por outro lado, ela diz que agora se sente mais resiliente no trabalho: "Não sou mais tão afetada emocionalmente pelo estresse como antes, porque, de repente, algumas coisas deixam de ser tão importantes quanto eram.">
"Posso esquecer de fazer coisas que não têm relação com [minha filha], mas aprendi a priorizá-la", afirma.>
De volta à Espanha, Tania Esparza diz que os trabalhos anteriores de Carmona nessa área influenciaram a sua decisão de ter um filho.>
"Fiquei animada com a ideia de poder conhecer uma nova e diferente versão de mim mesma.">
Ela afirma que é hora de repensar a forma como tratamos as mães.>
"Elas passam por uma transformação enorme, e precisamos encará-las como alguém que está saindo de um casulo e se tornando algo diferente.">
Reportagem adicional de Catherine Snowdon.>
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