Publicado em 12 de fevereiro de 2026 às 05:09
O Ministério Público Federal (MPF) instaurou um procedimento sigiloso na terça-feira (10/2) para investigar possíveis tentativas de aliciamento de mulheres no Brasil relacionadas ao criminoso sexual Jeffrey Epstein.>
A procuradora da República Cinthia Gabriela Borges disse, em entrevista exclusiva à BBC News Brasil, que a intenção é analisar todas as situações em que mulheres brasileiras possam ter sido aliciadas e tentar identificar se havia redes de aliciamento no país.>
Conforme mostrou a BBC News Brasil, o MPF recebeu uma denúncia na última semana sobre uma troca de emails entre uma brasileira e Epstein, ocorrida em 2010, em que eles tratavam de uma viagem de uma mulher de Natal, descrita como alguém de "família simples", aos Estados Unidos. >
Na troca de mensagens, Epstein pediu fotos da brasileira de biquíni ou sutiã. Não é possível saber, pelas mensagens, o objetivo da viagem ou se ela ocorreu, de fato.>
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Essa denúncia resultou em um procedimento formal, agora instaurado na Unidade Nacional de Enfrentamento ao Tráfico Internacional de Pessoas e ao Contrabando de Migrantes. O órgão é uma estrutura especializada no MPF que centraliza todas as investigações e ações judiciais do país nessa área. >
O caso em Natal, foco da denúncia feita ao MPF, não será o único analisado. >
Na segunda-feira (9/2), a BBC News Brasil revelou que Epstein manteve relações pessoais com modelos brasileiras, ajudou-as financeiramente e até pode tê-las empregado em algum momento como assistentes. >
O órgão disse, em resposta à reportagem sobre essas novas conversas, que vai acompanhar a divulgação dos arquivos do caso publicados pelo governo americano e buscar outras menções a brasileiros.>
"O MPF está atento a essa situação de mulheres que estavam no Brasil e que foram levadas para os EUA com alguma intenção de exploração sexual, porque isso pode vir a caracterizar o crime de tráfico internacional de pessoas", disse Borges.>
Diversas mensagens demonstram dependência financeira delas em relação ao bilionário, como pagamento de procedimentos estéticos, cortes de cabelo, viagens e até compra de celulares. Em troca, ele receberia fotos e contatos de outras mulheres, de idade não divulgada nos documentos.>
Não há, nas mensagens, informação sobre a idade das pessoas envolvidas.>
A reportagem identificou conversas por email datadas pelo menos desde 2006, antes de Epstein ter sido preso pela primeira vez.>
Nessas conversas, ele é convidado para festas, fala de visitas a São Paulo, diz que vai mandar dinheiro, pede para que apresentem outras mulheres a ele, recebe fotos dessas mulheres (suas idades não são mencionadas) e até mesmo avisa a uma delas que seria preso pela primeira vez poucos dias antes de isso ocorrer, em 2008.>
A BBC News Brasil mostrou, na última semana, que um parceiro de Epstein conversou com ele sobre a intenção de comprar uma revista de moda no Brasil e que teriam um contato direto no país para conseguir garotas, inclusive com menores de idade. >
Revelou também, por meio de entrevista com uma vítima, que diversas brasileiras estiveram em sua mansão nos EUA.>
Na última semana, sites de notícias do Rio Grande do Norte divulgaram que havia citações a uma mulher de Natal nos arquivos de Epstein divulgados pelo governo americano.>
Datadas de 2011, as mensagens, obtidas pela BBC News Brasil, não confirmam se houve aliciamento nem revelam a idade da pessoa citada. Mas mostram o interesse de Epstein por uma brasileira após ela ser apresentada por uma conhecida. >
Mostram ainda que esta pessoa no Brasil também tentou apresentá-lo a outras amigas e fez diversos pedidos de ajuda financeira, embora não seja possível identificar qual era a relação deles pelas mensagens.>
Os diálogos detalham a organização para a emissão de um passaporte, o plano de levá-la aos Estados Unidos e pedidos explícitos de Epstein por fotos em trajes de banho e lingerie. >
O procurador-chefe Gilberto Barroso de Carvalho Júnior, de Natal (RN), comunicou ter recebido informações "dando conta do aliciamento e envio de mulher residente nos arredores de Natal/RN possivelmente para a prática de atos sexuais com a pessoa de Jeffrey Epstein, nos EUA".>
A procuradora Cinthia Gabriela Borges, da Unidade Nacional de Enfrentamento ao Tráfico Internacional de Pessoas e ao Contrabando de Migrantes, diz à BBC News Brasil que a data das mensagens pode ser um desafio na investigação, já que muitas delas são de mais de 10 anos atrás e podem ter ocorrido fora do Brasil.>
"Embora sejam fatos de grande magnitude e muito interesse mundial, esses fatos remontam a mais ou menos 2011, 2012.">
Ela avalia que o caso "envolve uma complexidade probatória muito acentuada não só pelo decurso do tempo como também de extraterritorialidade, já que boa parte dos fatos envolvendo mulheres brasileiras aconteceram em território americano.">
Borges ressalta que os casos serão analisados individualmente, buscando entender o relacionamento das pessoas com Epstein e se havia uma rede especializada no aliciamento de mulheres e se elas eram maiores ou menores de idade.>
A procuradora destaca também a importância de que vítimas ajudem na investigação.>
"É uma situação bastante embrionária, uma investigação que está no seu início. É fundamental nesses casos a participação das vítimas na investigação, para que possam trazer à luz os elementos de como foi o recrutamento.">
Outro desafio que ela cita é uma mudança legislativa que houve no Brasil em 2016, em relação ao tráfico internacional de pessoas. Antes, o crime se configurava apenas pelo fato de a vítima ser aliciada e levada para o exterior. >
Com a nova regra, isso não é mais suficiente: tornou-se fundamental provar que houve algum vício de consentimento, ou seja, que a vítima sofreu fraude, coação, violência ou abuso de sua vulnerabilidade.>
A procuradora da República reforça que as mulheres que mantiveram contato com Epstein não estão sendo investigadas no processo.>
"As vítimas, em regra, não são consideradas responsáveis por eventuais atos que elas venham a praticar, na situação de vítima de tráfico de pessoas.">
Ela diz que a investigação vai se concentrar em entender se havia pessoas especializadas em aliciar e recrutar mulheres para fins sexuais. "As vítimas não podem ser consideradas culpadas neste caso.">
Conversas entre uma brasileira e Epstein entre 2009 e 2013 deram origem à denúncia.>
As mensagens mostram que ela não apenas solicitava recursos para despesas pessoais e procedimentos estéticos, mas também apresentava outras mulheres ao bilionário. As idades dessas mulheres não são mencionadas nas conversas. >
Em 2009, as trocas de mensagens detalham pedidos de dinheiro para uma cirurgia de implante de silicone; a mulher adiou o procedimento enquanto aguardava o pagamento, afirmando que pretendia "se exibir em Palm Beach [cidade da Flórida, nos Estados Unidos]" após o resultado. >
Para viabilizar o pedido, Epstein instruiu funcionários a realizarem transferências bancárias, inclusive em moeda brasileira. >
O suporte financeiro estendia-se a outros pedidos: uma funcionária de Epstein relatou que a brasileira esteve em seu escritório solicitando US$ 450 para a compra de um celular, e, em outro momento, registros mostram assistentes coordenando pagamentos para serviços de beleza de luxo tanto para a jovem quanto para sua mãe.>
O papel da brasileira na intermediação de contatos consta em registros de janeiro de 2011, quando ela tratou da ida de uma jovem de Natal para os Estados Unidos — é esse o caso que trata o MPF no procedimento aberto.>
Em uma mensagem, ela descreveu que a moça não falava inglês, nunca havia viajado e vinha de uma família simples, sugerindo que ela viajasse no mesmo voo para facilitar o trajeto. A idade da jovem não é mencionada nos registros. >
Acompanhando o relato, a brasileira enviou fotos da jovem e afirmou que Epstein iria "adorá-la". A resposta de Epstein foi um pedido por mais imagens, especificando que deveriam ser de "lingerie ou biquíni". >
Embora o bilionário tenha escrito posteriormente que a ajuda poderia ser "mal interpretada", a brasileira continuou a sugerir o encontro, propondo que ocorresse em Paris, na França, e reforçando que a jovem era o "tipo" dele. >
Natal é mencionada também em outro contexto, quando o agente de modelos Jean-Luc Brunel diz a Epstein que esteve na cidade, em 2010. Brunel era um conhecido parceiro de Epstein.>
Brunel foi encontrado morto na prisão em Paris, em 2022. Estava detido desde o início de uma investigação formal, após ser acusado de assédio sexual e estupro contra jovens com idades entre 15 e 18 anos na França. Ele negava as acusações. >
As vindas de Brunel ao Brasil em busca de modelos são conhecidas, e há até uma foto dele em Brasília e vídeos em uma agência de recrutamento.>
Em uma mensagem em 2013, da mesma brasileira, ela pede ajuda a Epstein. Diz que está com ordem de despejo, não tem recursos para pagar um advogado e pede um lugar para ficar. >
No mesmo texto, ela mencionou uma nova amiga recém-chegada do Brasil que teria interesse em conhecê-lo.>
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