Publicado em 22 de fevereiro de 2026 às 18:12
O neurocientista Tom Bellamy vivia em um casamento feliz, até desenvolver sentimentos por sua colega de trabalho.>
Ele amava sua esposa e não queria iniciar um relacionamento amoroso com a colega, nem expressou a ela seus sentimentos. Ainda assim, ele não conseguia parar de pensar nela.>
Pode parecer um crush, mas Bellamy usa outra palavra para definir a situação: limerência.>
Cunhada como termo da psicologia nos anos 1970, a limerência é uma conexão intensa, desgastante e, muitas vezes, obsessiva a outra pessoa, diferente de outros sentimentos amorosos, segundo Bellamy e outros pesquisadores.>
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"A limerência é mais bem descrita como um estado de espírito alterado", explica ele.>
No começo, parece fantástico, segundo o cientista. Bellamy descreve a limerência como uma euforia natural, que aumenta a energia e o otimismo.>
"Por isso você se vicia. Seus pensamentos voam e você simplesmente se sente mais otimista e eufórico", afirma ele. >
O Google Trends indica que o interesse mundial pela limerência na internet vem aumentando desde 2020.>
Houve também um aumento do material sobre a limerência disponível online, como discussões e blogs que lidam com a questão de quando e por que o amor pode se tornar obsessivo e o que as pessoas afetadas podem fazer a respeito.>
"A limerência é algo que acontece conosco", de forma que pode ser involuntária, afirma a psicóloga Dorothy Tennov (1928-2007). Ela cunhou o termo no seu livro de 1979, Love and Limerence: The Experience of Being in Love ("Amor e Limerência: A Experiência de Amar", em tradução livre).>
Depois de realizar mais de 300 entrevistas sobre o amor romântico, Tennov identificou um fenômeno que, até então, aparentemente não tinha denominação: um desejo involuntário, intrusivo e irresistível por outra pessoa.>
Nas pesquisas psicológicas, essa pessoa, a obsessão, é conhecida como objeto limerente.>
Ser limerente não significa, necessariamente, buscar a outra pessoa ou se sentir destinado a ter sua atenção. Mas as pesquisas indicam que, em alguns casos, a limerência tem potencial de se desenvolver até se tornar um comportamento prejudicial, como stalking.>
Tennov escreveu que uma experiência ou "episódio" de limerência pode acontecer apenas uma vez ou em diversas ocasiões ao longo da vida de uma pessoa. Calcula-se que um episódio médio dure entre 18 meses e três anos, mas alguns podem durar mais tempo.>
Mas o mais importante, segundo Tennov, é que, se a limerência não for controlada, ela pode trazer impactos devastadores para a pessoa envolvida.>
Bellamy descreve a limerência como uma experiência estressante.>
"Pude ver claramente", ele conta, sobre o seu episódio limerente.>
"Intelectualmente, não há uma boa conclusão e eu não quero que isso aconteça. Mas simplesmente não consigo controlar minhas emoções.">
Ele destaca que, ao chegar a este ponto, pode começar a parecer assustador, pois "você se sente impotente" e fora de controle.>
Como você sabe se é limerente e não está fascinado ou apaixonado de forma mais convencional por aquela pessoa?>
Um aspecto crucial da limerência é que ela alimenta uma sensação de incerteza, segundo Bellamy. Ele escreveu um livro sobre a limerência e sua experiência, intitulado Smitten: Romantic Obsession, the Neuroscience of Limerence, and How to Make Love Last ("Atraído: a obsessão romântica, a neurociência da limerência e como fazer o amor durar", em tradução livre). >
Em uma situação amorosa não limerente, a pessoa que está apaixonada por alguém, normalmente, vai além do estágio inicial de incerteza e se sente aliviada, feliz e segura, quando descobre que é correspondida (ou se sente triste, quando seus sentimentos não são recíprocos).>
Mas a pessoa limerente tende a ficar presa no estágio de incerteza, desejo e esperança, segundo os pesquisadores.>
A incerteza é "realmente uma das principais forças que a levam a se desenvolver até se tornar o que eu chamaria de 'dependência', em que você literalmente fica em um estado de desejo constante", explica Bellamy.>
Ele chama esta sensação de incerteza de "lampejo". Basicamente, é um lampejo de esperança de possível reciprocidade ou conexão com a pessoa desejada, embora não necessariamente na forma de um relacionamento.>
"Algumas dessas pessoas nem mesmo querem, necessariamente, um relacionamento sexual ou amoroso com a outra pessoa. Eles querem apenas que seus sentimentos sejam recíprocos", explica o psicólogo cognitivo-comportamental Ian Tyndall, da Universidade de Chichester, no Reino Unido.>
Quanto mais alto o grau de incerteza, mais a pessoa limerente irá desejar a reciprocidade, ainda que também receando a rejeição.>
Sabe-se que a limerência causa sofrimento e prejudica a produtividade das pessoas afetadas, a ponto de que os limerentes podem começar a se negligenciar, segundo Tyndall.>
Eles podem começar a descuidar da alimentação, do sono e da higiene pessoal, não conseguir se manter no emprego e negligenciar os outros relacionamentos com a família, amigos ou irmãos.>
"Eles tendem a ficar presos no passado, pensando nas suas interações anteriores com aquela pessoa, tentando ruminar e pensar no significado daquela interação", explica ele.>
"Seu pensamento fica total e absolutamente preso com a pessoa, que domina tanto a sua vida que não sobra espaço para mais nada.">
É isso que diferencia a limerência do fascínio, que é outro componente do amor romântico, caracterizado pela natureza irresistível e pela intensidade dos estágios iniciais de um relacionamento amoroso.>
O fascínio ocorre no início de muitos relacionamentos amorosos e, normalmente, dura cerca de três a seis meses, às vezes até um ano, segundo Tyndall.>
Mas "normalmente, ele traz muito menos consequências negativas para a saúde física e mental das pessoas", segundo ele, enquanto a limerência é muito mais intensa.>
"Quando você está fascinado por alguém, você não pensa obsessivamente em cada sinal de emoção, quando há contato visual ou uma sobrancelha levantada... Você não tende a analisar a linguagem corporal da pessoa no mesmo nível de alguém que é limerente.">
A limerência também é um pouco diferente da paixão romântica, segundo os pesquisadores.>
A paixão romântica envolve um desejo de intimidade e proximidade com outra pessoa, não apenas a intimidade física, mas conexão e intimidade emocional. "Conhecer e ser conhecido por aquela pessoa", segundo a professora Kathleen Carswell, do Departamento de Psicologia da Universidade de Durham, no Reino Unido.>
Mas "uma pessoa limerente não sente apenas forte desejo de ter intimidade com aquela pessoa. Ela também ficará ruminando obsessivamente sobre aquele indivíduo", explica ela.>
Carswell indica que pode haver certas coincidências entre a paixão romântica e a limerência. Afinal, a paixão romântica também pode ter um componente ruminante e obsessivo, similar à dependência.>
"Já se descobriu que a paixão romântica influencia o sistema dopaminérgico, ou de recompensas do cérebro", explica Carswell, "e alguém com alta limerência ou altos níveis do componente obsessivo pode ser considerado alguém com dependência.">
Nem todos concordam com esta visão de que a limerência apresenta certas similaridades com outras formas de amor e romance.>
Dois pesquisadores propuseram seu próprio modelo de limerência em 2008. Eles defendem que ela não é intercambiável com o amor e que ambos existem de forma independente.>
Para eles, a limerência é "negativa, problemática e prejudicial".>
Ainda sabemos pouco sobre a limerência.>
Não sabemos ao certo nem mesmo quantas pessoas têm essa experiência, já que as amostras dos estudos são pequenas. E ela não é formalmente reconhecida como uma condição psicológica para a qual se possa buscar tratamento.>
Alguns pesquisadores especulam que ela possa estar relacionada a transtornos de apego ou outras condições de saúde mental como TOC, TDAH ou TEPT. Mas existem poucas pesquisas sobre essas possíveis relações.>
Por outro lado, Tyndall acredita que este tema vem ganhando proeminência no campo da psicologia.>
Ele e seus colegas desenvolveram um questionário sobre limerência. Mais de 600 pessoas que já tiveram ou vivenciam a limerência responderam às questões.>
As respostas indicaram que, embora a limerência seja associada a um estilo de apego ansioso, não houve grande correlação.>
A limerência é "uma condição debilitante muito mais profunda" que o apego ansioso, explica Tyndall.>
Alguns participantes afirmaram que a limerência "veio do nada", segundo o pesquisador. Eles não relataram baixa autoestima ou amor-próprio anteriormente.>
Da mesma forma, os resultados do estudo indicam que as pessoas com limerência, normalmente, não são socialmente ansiosas, mas sentem muita ansiedade em relação à pessoa objeto da limerência.>
Apesar de serem obsessivos sobre qualquer interação e desejarem interagir novamente com a outra pessoa, quando ficam frente a frente com ela, a intensidade pode ser tão grande que eles podem até sair correndo.>
Um dos possíveis impactos negativos da limerência, destacado por Dorothy Tennov no seu segundo livro, de 2005, é que ela pode levar as pessoas a outros comportamentos antissociais obsessivos, como stalking.>
Mas a limerência por si só não é uma patologia, nem foi associada a transtornos de personalidade, segundo a professora de ciberpsicologia Emma Short, da Universidade Metropolitana de Londres.>
"A limerência, aparentemente, é uma conexão excepcional, relacionada àquele indivíduo específico e o que ele significa para você, emocionalmente falando", explica ela. "Parece ser um estado de dependência daquela pessoa que, de alguma forma, despertou aquilo em você.">
Já o stalking é diferente, segundo Short. É como se você começasse a projetar seus sentimentos sobre a outra pessoa, imaginando que você tem direito a ela ou que ela sente o mesmo que você.>
Um estudo indica que até 72% dos stalkers têm algum tipo de diagnóstico psicopatológico.>
"A maioria das pessoas é protegida por sentimentos de empatia pelos demais e por limites claros sobre o que é sua experiência emocional e o que é a realidade", explica Short.>
"Existe uma integridade pessoal em relação à limerência. Ela fica contida e se sabe ao certo que ela só vem de dentro.">
No seu estudo, Short e seus colegas concluíram que, embora a limerência possa ter traços comuns com o stalking, os indivíduos limerentes ainda não progrediram — e, talvez, nunca progridam — para manter comportamentos prejudiciais em relação à outra pessoa.>
Considerando sua natureza potencialmente perturbadora e obsessiva, a limerência pode levar a um relacionamento mútuo saudável?>
No caso de Tom Bellamy, foi o que aconteceu entre ele e sua esposa — que, na verdade, também é limerente.>
A BBC entrou em contato com a esposa de Bellamy para esta reportagem. Ela concordou com o relato do marido e aceitou sua publicação.>
"Este relacionamento funcionou", ele conta. "Nós nos apaixonamos, por assim dizer, de forma adequada — um amor clássico, baseado no respeito mútuo, afeição mútua, cuidado mútuo e desejo, o que é importante.">
Bellamy nunca contou à sua colega sobre seus sentimentos limerentes, mas ele os confidenciou à sua esposa — o que ele considera ter sido decisivo.>
Mas como ele se livrou da limerência pela sua colega de trabalho?>
"Basicamente, eliminei pela raiz", segundo ele.>
Sua experiência demonstrou que evitar o contato com a pessoa pode ajudar a reduzir gradualmente o estado de dependência.>
Tennov também conta no seu livro que a limerência pode desaparecer aos poucos se o contato for cortado ou se houver rejeição pura e simples.>
Afinal, sem um lampejo de esperança, a limerência não tem onde se escorar.>
Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Health.>
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