Donald Trump resumiu o jogo em um tuíte. "Tenho ouvido há muito tempo que a nomeação dos juízes da Suprema Corte é a decisão mais importante de um presidente. Totalmente verdadeiro."
A mensagem estampada em sua rede social na terça-feira (9) alerta para a preocupação do presidente americano com os movimentos da Justiça a um ano da eleição.
Moldada nos últimos anos pelo próprio Trump, que nomeou dois conservadores para o tribunal, a Suprema Corte vai se debruçar sobre temas controversos até o pleito de 2020.
Assim como o presidente, analistas e integrantes da oposição sabem que a escolha dos juízes é fundamental para o funcionamento de qualquer governo.
Muitas vezes é dos magistrados a palavra final sobre assuntos que ditam a bússola político ideológica que vai ser seguida pelo país nas próximas décadas.
Recentemente, Trump tem sofrido derrotas judiciais importantes. A Suprema Corte barrou, por exemplo, a inclusão de uma pergunta sobre cidadania no Censo de 2020.
O presidente esticou a batalha que travou na Justiça por mais de um ano, mas nesta semana acabou desistindo de tentar driblar o tribunal.
Apesar de insistir na proposta, ele não poderá questionar oficialmente se os residentes nos EUA são ou não cidadãos americanos, pergunta que, de acordo com o Judiciário, não tem justificativa plausível para ser feita pelo governo.
Mesmo em instâncias inferiores, Trump não tem tido sorte. Nesta semana, um tribunal de apelação --a última parada antes da Suprema Corte-- decidiu que o republicano não pode bloquear usuários que o criticam no Twitter.
Os magistrados entenderam que, uma vez que usa o perfil na rede social para tratar de discussões sobre o governo, Trump não pode impedir americanos de lerem suas publicações ou de participarem dos debates sobre suas postagens sob a justificativa de não gostar da opinião dessas pessoas.
Até junho do ano que vem, imigração, porte de armas, aborto e direitos de trabalhadores gays e transgêneros devem estar na pauta da corte que responde como a principal autoridade jurídica dos EUA.
Como foi em 2016, a questão da imigração é o ponto central da campanha à reeleição de Trump, e aborto e direitos civis despertam especialmente a ala mais progressista que ganhou força no Partido Democrata.
Em um dos julgamentos mais esperados, os nove juízes da Suprema Corte devem decidir se o presidente pode ou não acabar com o Daca.
O programa foi criado por Barack Obama para impedir a deportação de cerca de 700 mil jovens imigrantes que chegaram aos EUA de forma ilegal na infância.
Desde 2017, Trump tenta encerrar o projeto, mas foi questionado por pelo menos três cortes de primeira instância. Com a decisão suspensa, o governo recorreu à Suprema Corte e aguarda o resultado final para o caso.
Nos próximos meses, os juízes também devem bater o martelo sobre restrição ao porte de armas em Nova York, avaliar se a lei federal dos direitos civis proíbe empregadores de demitir funcionários por serem gays ou transexuais e travar ou não o avanço de estados que têm aprovado leis para proibir o aborto.
Nos EUA, o direito ao procedimento é garantido por decisão federal desde 1973, mas alguns estados têm chancelado leis que vetam ou restringem a prática.
A apreciação desses temas será o termômetro para a eficácia do projeto judicial de Trump.
Diante da hostilidade dos tribunais com sua agenda anti-imigração, principalmente, o presidente investiu na nomeação de conservadores para tentar imprimir seu perfil no sistema Judiciário.
Em dois anos e meio de mandato, Trump escolheu Neil Gorsuch e Brett Kavanaugh para a Suprema Corte e mais de 30 juízes para tribunais federais e de apelação.
A indicação de Kavanaugh, em outubro do ano passado, alterou o equilíbrio político do tribunal, possibilitando a formação de uma maioria anti-aborto --o magistrado tem passagem por organizações conservadoras ligadas ao Partido Republicano.
Segundo dados do governo, Trump indicou 17 juízes federais e 16 para cortes de apelação. Desses últimos, seis ocuparam os lugares de nomes escolhidos por governos democratas.
Ainda há 140 vagas para serem preenchidas, e o presidente já apresentou candidatos para ao menos metade dessas posições.
Seguidor declarado de Trump, o presidente Jair Bolsonaro deu mostras de que também entendeu a importância para seu governo de acenar à base e impedir o avanço liberal nos costumes quando se trata da Justiça.
Em cerimônia na Câmara dos Deputados na quarta (10), ele afirmou que indicará um nome "terrivelmente evangélico" para o STF (Supremo Tribunal Federal).
"O Estado é laico, mas somos cristãos e, entre as duas vagas que terei direito a indicar para o STF, um será terrivelmente evangélico."
As regras para a aprovação dos indicados é a mesma no Brasil e nos EUA: precisam passar pelo aval do Senado.
Com mandatos vitalícios na Suprema Corte, Trump já conseguiu fazer indicações de juízes em número quase recorde. Foram dois nomes em dois anos e meio de mandato.
Obama, por exemplo, indicou dois juízes em oito anos de governo, assim como o republicano George W. Bush.
Além das vagas nas instâncias inferiores, Trump ainda pode substituir outros dois progressistas na Corte, ambos com mais de 80 anos e que podem resolver se aposentar --Ruth Ginsburg e Stephen Breyer.
As mudanças realizadas pelo republicano dão mostras de que sua digital pode ficar no sistema judiciário americano por décadas, mesmo que ele não seja reeleito no próximo ano.