Os israelenses estão indo às urnas nesta terça-feira (27/10) para o que muitos consideram uma das eleições mais cruciais da história do país.
Pesquisas divulgadas na semana passada sugerem que a disputa é apertada entre o atual primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, e o ex-chefe militar Gadi Eisenkot.
Mas nenhuma das duas bancadas políticas deve conquistar as 61 cadeiras necessárias para formar um governo majoritário, o que significa que semanas ou meses de disputas políticas podem estar por vir.
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A campanha foi moldada pela questão da segurança — com o bloco de oposição criticando duramente Netanyahu por falhas que teriam levado aos ataques liderados pelo Hamas contra Israel em 7 de outubro, nos quais quase 1,2 mil pessoas foram mortas e 251 feitas reféns em Gaza.
A oposição pede a criação de uma comissão independente de inquérito sobre os ataques — algo a que Netanyahu resiste há muito tempo, insistindo que seria tendenciosa contra ele.
Apesar das críticas da oposição, Netanyahu voltou a se apresentar como "Sr. Segurança", destacando o que considera vitórias estratégicas nas guerras de Israel no Oriente Médio e sua estreita relação com o presidente dos EUA, Donald Trump.
O sistema de representação proporcional de Israel significa que os governos sempre precisam formar coligações. A disputa pelo poder pode produzir — e já produziu — alianças inesperadas. Mas esta eleição parece particularmente acirrada — e as linhas divisórias já foram traçadas.
Eisenkot, que lidera o recém-formado Partido Yashar, é a figura principal do chamado "bloco da mudança", um conjunto de partidos que têm diferenças ideológicas, mas compartilham o objetivo de tirar Netanyahu do poder.
Outros líderes do bloco incluem o ex-primeiro-ministro Naftali Bennett e Avigdor Lieberman — ambos de direita e com posições intransigentes em matéria de segurança — e Yair Golan, um ex-general de esquerda.
Para Netanyahu, um titã da política israelense que serviu como primeiro-ministro pela primeira vez em 1996, a permanência no poder dependerá de uma nova aliança com os partidos de extrema-direita e ultraortodoxos que compõem sua atual coalizão governista — a mais à direita da história de Israel.
Há também dois blocos partidários árabes na disputa, já que cerca de um quinto da população de Israel é árabe — muitos dos quais se autodenominam cidadãos palestinos de Israel. Em teoria, eles poderiam ser decisivos para a escolha do próximo governo. Mas todos os principais partidos judaicos, com exceção de um, descartaram a possibilidade de trabalhar com eles.
O bloco de oposição também aponta para o que considera ameaças à democracia sob o governo de Netanyahu, que enfrenta um julgamento em andamento por acusações de corrupção — que ele nega — e continua a implementar planos controversos de reforma do sistema judicial, que levaram a protestos em massa antes dos ataques de 7 de outubro.
No domingo (25/10), o Canal 12 de Israel noticiou que Netanyahu pressionou por uma ação militar de última hora que poderia desencadear um confronto com o Irã antes das eleições, mas foi contestado por seu próprio chefe militar, Eyal Zamir. No dia seguinte, a CNN noticiou que ele também tentou persuadir o presidente americano a realizar novos ataques contra o Irã, mas que Donald Trump se recusou. Netanyahu negou ambas as reportagens.
O premiê israelense também foi notícia nos últimos dias de sua campanha por publicar uma imagem gerada por inteligência artificial de uma bomba nuclear atingindo Tel Aviv, alertando que ele é o único líder capaz de proteger Israel "caso os iranianos adquiram armas nucleares". Eisenkot o chamou de "histérico".
Outra questão dominante tem sido o recrutamento militar obrigatório, com o governo de Netanyahu falhando em implementar uma decisão da Suprema Corte que determinava que homens judeus ultraortodoxos em estudo religioso em tempo integral deveriam ser recrutados para o serviço militar — o que causou intenso debate e divisão no país, visto que milhares de não-ortodoxos foram recrutados para lutar em guerras recentes.
Eisenkot adota uma posição bastante semelhante à de Netanyahu em relação a Gaza e prometeu acabar com o domínio do Hamas no território em 18 meses, por meio de um plano de paz liderado pelos EUA ou, se necessário, por meios militares.
Desde o acordo de cessar-fogo no ano passado, Israel continua atacando Gaza quase diariamente, alegando que seu alvo são militantes do Hamas. O Exército israelense matou mais de 74 mil pessoas desde o início da guerra, segundo o Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, cujos dados são considerados confiáveis pela ONU.
Israel tem enfrentado crescente condenação internacional por sua conduta na guerra, e as relações com seus aliados ao redor do mundo se deterioraram.
Eisenkot apoia amplamente os assentamentos israelenses na Cisjordânia ocupada — que são ilegais segundo o direito internacional —, mas quer reprimir os colonos judeus extremistas, cujos ataques atingiram níveis recordes, de acordo com dados da ONU.
Ele também falou sobre a criação de condições para uma "autonomia ou um Estado-menos" para os palestinos — sob o controle final da segurança israelense. Um "Estado-menos" (state-minus) teria autonomia para determinadas ações, mas não uma soberania completa.
A solução de dois Estados — a criação de um Estado palestino independente em coexistência pacífica com Israel — praticamente desapareceu da política israelense convencional.
Embora alguns tenham especulado que os partidos árabes possam acabar apoiando informalmente um governo minoritário liderado por Eisenkot, Lieberman, um membro potencial importante, descartou fazer parte de tal acordo.
Limites como esses indicam que o cálculo eleitoral é complexo, mas resta saber que tipo de concessões, acordos e reviravoltas poderão ser alcançados após a divulgação dos resultados.
Segundo relatos, um número sem precedentes de 70 mil pessoas regressaram do exterior para votar, enquanto meio milhão deverão votar pela primeira vez.
Às 22h (17h no horário de Brasília) de terça-feira, as emissoras israelenses divulgarão as pesquisas de boca de urna. Elas darão uma indicação sobre como os israelenses votaram, mas podem variar significativamente.
Netanyahu vai acompanhar a apuração dos votos com o Likud em Jerusalém. Eisenkot estará em Tel Aviv, com membros de seu partido, o Yashar.
Centenas de milhares de soldados e reservistas israelenses também votarão, mas muitos desses votos só começarão a ser contados na quarta-feira, o que significa que pode haver uma vantagem de última hora para os partidos de direita, que se acredita terem forte apoio desse grupo demográfico.
Embora frequentemente apresentada como uma disputa eleitoral entre Eisenkot e Netanyahu, é possível que outro líder assuma o poder, caso o partido vencedor não consiga formar coligação.
Um desfecho temido por muitos é o impasse político — onde nenhum bloco consegue formar maioria e um governo minoritário não pode ser construído. Nesse cenário, novas eleições seriam convocadas, com Netanyahu permanecendo como primeiro-ministro interino.
Entre 2019 e 2022, Israel realizou cinco eleições separadas, sem que os partidos conseguissem formar uma coalizão para governar.
Referendo sobre Netanyahu
Muitos analistas consideram que esta eleição pode ser uma espécie de referendo sobre Netanyahu — que tem em Israel a reputação de um sobrevivente político.
Reeleito em novembro de 2022 para o que foi seu sexto mandato como primeiro-ministro, ele lidera a coalizão mais à direita da história de Israel.
Seu retorno ao poder ocorreu após um período relativamente breve na oposição, depois de 12 anos consecutivos como primeiro-ministro. A volta reforçou, entre seus apoiadores, a crença de que "o rei Bibi" — como às vezes é chamado — era politicamente invencível.
Ele continua popular entre muitos eleitores de direita e religiosos, que o veem como um líder forte na área de segurança. Seu governo também ampliou as isenções do serviço militar obrigatório para judeus ultraortodoxos dedicados ao estudo religioso em tempo integral.
Mas sua aparente invencibilidade está agora sob ameaça, com a sombra dos ataques de 7 de outubro pairando sobre as eleições.
Netanyahu reconheceu certa responsabilidade por não ter evitado o que ocorreu em 7 de outubro de 2023.
Mas o premiê israelense afirma que muitos outros também são responsáveis, incluindo altos funcionários da área de segurança, pelas falhas que possibilitaram os ataques.
Ele os acusa de terem deliberadamente optado por não acordá-lo nas horas que antecederam os ataques, por receio de que ordenasse um grande deslocamento do Exército israelense e agravasse a situação.
As ações de Israel em Gaza provocaram ampla condenação da comunidade internacional.
Nos anos desde o ataque, aumentaram os relatos de que Netanyahu teria recebido alertas tanto de seu próprio chefe de segurança quanto de países vizinhos da região, algo que ele nega.
No mês passado, o jornal israelense Haaretz publicou trechos de um novo livro que alega que o líder dos Emirados Árabes Unidos telefonou para Netanyahu dez dias antes do ataque para alertá-lo sobre planos do Hamas para uma operação de grande escala.
O gabinete de Netanyahu rejeitou a informação, classificando-a como "uma mentira absoluta", e anunciou que processará o jornal.
Em novembro de 2024, Netanyahu tornou-se o quarto líder mundial a receber um mandado de prisão do Tribunal Penal Internacional, ao lado do russo Vladimir Putin, do sudanês Omar al-Bashir e do líbio Muammar Gaddafi.
Isso, somado ao mandado de prisão contra o ex-ministro da Defesa de Israel Yoav Gallant, provocou uma reação furiosa em todo o espectro político israelense.
As acusações dizem respeito às ações militares de Israel em Gaza após os ataques do Hamas de 7 de outubro e incluem acusações como o uso da "fome como método de guerra" e crimes contra a humanidade, incluindo assassinato, perseguição e outros atos desumanos.
Tanto Netanyahu quanto Gallant rejeitam as acusações.
- Usamos inteligência artificial para traduzir esta reportagem, originalmente escrita em inglês. O texto foi revisado por um jornalista da BBC antes da publicação. Saiba mais aqui sobre como a BBC está usando a inteligência artificial (link para texto em inglês).
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