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Irã usa crianças em trabalhos de segurança na guerra, indicam testemunhas e relatos à imprensa

Um menino de 11 anos teria sido morto em um ataque aéreo enquanto atuava em um posto de controle em Teerã. Moradores dizem ver crianças armadas no patrulhamento das ruas
BBC News Brasil

Publicado em 

01 abr 2026 às 13:33

Publicado em 01 de Abril de 2026 às 13:33

Imagem BBC Brasil
Um integrante da milícia voluntária iraniana Basij participa de uma marcha em Teerã em janeiro de 2025, antes da atual guerra Crédito: Majid Asgaripour/WANA/Reuters
A morte de um menino iraniano de 11 anos, que teria sido atingido em um ataque aéreo enquanto trabalhava em um posto de controle ao lado do pai em Teerã, capital do Irã, trouxe à tona uma nova iniciativa para recrutar crianças para os serviços de segurança do país.
A mãe de Alireza Jafari, Sadaf Monfared, disse ao jornal municipal Hamshahri que o marido e o filho auxiliavam patrulhas e postos de controle da milícia Basij (uma organização paramilitar voluntária) para "manter a segurança de Teerã e de seu povo" quando foram mortos, em 11 de março.
Na semana passada, um integrante do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, em Teerã, afirmou à agência Fars News, ligada ao grupo, que a organização passaria a recrutar "voluntários" com 12 anos ou mais.
Testemunhas disseram à BBC ter visto crianças, algumas inclusive armadas, atuando em funções de segurança na capital e em outras cidades.
Organizações de direitos humanos com sede fora do Irã também relataram a morte de Alireza.
O grupo curdo Hengaw afirmou que ele era um "aluno do quinto ano" que morreu enquanto estava em um posto de controle em Teerã.
Segundo a mãe dele, seu marido havia dito que não havia pessoal suficiente no posto, com "apenas quatro pessoas" no local. Ela afirmou que o marido levou o filho e disse que o menino precisava estar "preparado para os dias que viriam".
Ela relatou que o filho disse: "Mãe, ou vencemos esta guerra ou nos tornamos mártires. Se Deus quiser, vamos vencer, mas eu gostaria de me tornar um mártir."
O jornal Hamshahri informou que eles foram atingidos por um "ataque de drone israelense".
As Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) disseram à BBC que não foram capazes de verificar o caso sem receber as coordenadas do suposto ataque.
Rahim Nadali, do Corpo Muhammad Rasulollah da Guarda Revolucionária Islâmica, afirmou que o novo programa, conhecido como "Combatentes Defensores da Pátria do Irã", colocaria crianças em diversas funções, incluindo patrulhas e atuação em postos de controle.
O recrutamento, acrescentou, poderia ocorrer em mesquitas vinculadas à milícia Basij em Teerã e em praças da cidade onde foram realizados atos pró-governo.
A Basij é uma milícia voluntária controlada pelo Guarda Revolucionária Islâmica, com cerca de um milhão de integrantes. Ela costuma ser mobilizada nas ruas para reprimir dissidências. Israel afirmou ter atingido recentemente vários postos de controle da Basij.

'Apontando arma para os carros'

Apesar do bloqueio de internet imposto pelo governo iraniano, a BBC conversou com quatro testemunhas que disseram ter visto crianças menores de 18 anos em postos de controle em Teerã, na cidade vizinha de Karaj e na cidade de Rasht, no norte do país.
Os nomes foram alterados por razões de segurança.
Golnaz, na casa dos 20 anos e moradora do leste de Teerã, disse à BBC que viu adolescentes armados participando das forças da Basij quando saiu de casa após um ataque aéreo em 9 de março para ver o que estava acontecendo.
Sara, também na casa dos 20 anos e moradora da zona oeste de Teerã, disse à BBC que viu um adolescente em um posto de controle em 25 de março.
"Ele estava apontando uma arma para os carros. Ele e os outros estavam parando veículos e fazendo buscas. Era baixo e franzino."
Em fevereiro, cidadãos iranianos disseram à BBC que havia postos de controle de segurança ao redor da capital, onde, segundo eles, moradores eram parados e revistados.
Aqueles que conseguiram se conectar à internet disseram à BBC que a prática continua e que algumas patrulhas circulam à noite com bandeiras da República Islâmica e alto-falantes.
Algumas pessoas disseram à BBC que também viram adolescentes em postos de controle em cidades além de Teerã.
Peyman, na casa dos 20 anos e morador de Karaj, disse que viu o que descreveu como um "garoto adolescente" com um fuzil Kalashnikov em um posto de controle em 30 de março. "Seu bigode ainda não tinha crescido completamente", disse.
Tina, também na casa dos 20 anos e moradora de Rasht, contou que viu jovens em serviço em uma praça da cidade em 14 de março.
"Eles estavam usando máscaras, então seus rostos estavam cobertos. Mas é óbvio que são crianças; dá para ver pelos olhos. Eles também são baixos. Ficam à frente dessas forças adultas. Sinto pena deles e, ao mesmo tempo, fico com medo."
Em um relatório sobre a campanha de recrutamento, a organização Human Rights Watch (HRW) afirmou que se trata de uma "grave violação dos direitos das crianças e um crime de guerra quando os menores têm menos de 15 anos".
"Não há desculpa para uma campanha de recrutamento militar que mira crianças, muito menos jovens de 12 anos", disse Bill Van Esveld, da HRW.
"No fim das contas, isso mostra que as autoridades iranianas aparentemente estão dispostas a colocar em risco a vida de crianças para obter mais mão de obra."
Pegah Banihashemi, especialista em direito constitucional e direitos humanos da Faculdade de Direito da Universidade de Chicago, nos EUA, disse à BBC: "Pelo direito internacional, o uso de crianças em funções de segurança ou militares é fortemente restrito e, em muitos contextos, ilegal."
Ela também afirmou que a atuação desses menores "introduz riscos mais amplos à sociedade: menores sem treinamento operando sob pressão, muitas vezes com estrutura de comando limitada e compreensão insuficiente do uso da força, podem intensificar a violência de forma não intencional e colocar civis em perigo".
Holly Dagres, especialista em Irã do think tank (centro de pesquisa e debates) The Washington Institute, nos EUA, disse que o uso de crianças em postos de controle de segurança "evidencia o desespero da República Islâmica".
Segundo ela, isso mostra "o quanto o regime é impopular entre sua própria população, a ponto de ter dificuldade para recrutar adultos para atuar em postos de controle e recorrer ao uso de crianças em funções de apoio durante a guerra".
*A BBC News Persa é o serviço de notícias da BBC em língua persa, utilizado por 24 milhões de pessoas ao redor do mundo — a maioria no Irã — apesar de ser bloqueado e rotineiramente alvo de interferência pelas autoridades iranianas

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