Sair
Assine
Sair
Entrar

Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

  • Início
  • Mundo
  • 'Fui deportado para o México por erro e, depois de 3 meses, levado de volta aos EUA'
Mundo

'Fui deportado para o México por erro e, depois de 3 meses, levado de volta aos EUA'

Cidadão cubano Lázaro Romero León foi levado dos EUA para o México, mesmo com a ordem de juiz federal americano proibindo sua deportação. Para regressar, ele precisou enfrentar uma verdadeira odisseia.

Publicado em 21 de Julho de 2026 às 07:35

BBC News Brasil

Publicado em 

21 jul 2026 às 07:35
Imagem BBC Brasil
Uma pessoa viu Lázaro Romero León vivendo na rua em Tapachula, no México, e passou a alimentá-lo, permitindo que ele dormisse no seu quintal Crédito: Gentileza Lázaro Romero León
Cidadão cubano de 59 anos de idade, Lázaro Romero León foi deportado dos Estados Unidos para o México, mesmo contando com uma ordem de um juiz federal americano proibindo sua extradição.
Foram necessários quase três meses e várias tentativas fracassadas para que ele pudesse regressar.
Romero León foi detido em Porto Rico, território americano não incorporado. Ele se instalou na ilha depois de deixar seu país natal nos anos 1990, após passagens por Miami, pelo Tennessee e por Los Angeles, nos Estados Unidos.
Havia sobre ele uma ordem de expulsão não executada desde 2002. E, como não existe acordo de deportação entre os Estados Unidos e Cuba, Romero León foi autorizado a prosseguir com sua vida no país, como ocorre com dezenas de milhares de outros imigrantes cubanos em território americano.
Ele cumpriu a determinação, mediante uma ordem de supervisão que o obrigava a se apresentar periodicamente ao Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês).
"Eu assinava há 28 anos, sem faltar a nenhuma reunião", conta Romero León à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
"Até que, no dia 20 de maio de 2025, seis agentes me capturaram no lado de fora da minha casa em Aguadilla [Porto Rico] e me levaram, sem maiores explicações", ele conta. O ICE confirma o seu relato.
Romero León foi levado primeiramente para o centro de detenção do ICE em Adelanto, na Califórnia. Dali, ele seguiu para o centro de Florence, no Estado americano do Arizona.
O ICE afirma ter solicitado às autoridades cubanas, em junho de 2025, documentos para que Romero León pudesse viajar para o país. O pedido segue pendente de atendimento até hoje.
Em setembro do ano passado, o organismo notificou as autoridades de Cuba que ele seria expulso para um terceiro país. Romero León também recebeu este aviso, mas, segundo o ICE, ele se negou a assinar a notificação.
Em dezembro, Romero León entrou com um pedido de habeas corpus junto a um tribunal federal e de revisão da legalidade da sua detenção, sem resultados. Ele afirmou que seria pouco provável que Cuba o aceitasse de volta.
O juiz federal Hernán Diego Vera, do Distrito Central da Califórnia, emitiu uma ordem para que o governo americano não o deportasse antes da decisão sobre o processo legal.
"Para ser extremamente claro, esta ordem significa que fica proibido [...] transportar o peticionário dos Estados Unidos para o México [...] até que este tribunal tenha solucionado o pedido por completo", diz a ordem judicial a que a BBC News Mundo teve acesso.
Mas, por "aparente erro de comunicação", segundo admitiu o governo posteriormente, Romero León foi levado para a fronteira no dia 16 de fevereiro deste ano. E, dali, foi transportado para o sul do México.
Depois disso, foram quase três meses "de pura agonia", segundo ele.
Romero León conta que, naquele período, ele perdeu a conta dos dias, enquanto sua advogada lutava nos tribunais pelo seu regresso para os Estados Unidos e o ICE tentava cumprir a ordem judicial para que ele retornasse, sem sucesso.
Imagem BBC Brasil
Lázaro Romero León foi detido em Porto Rico, onde morava havia 28 anos, trabalhando na construção civil Crédito: Gentileza Lázaro Romero León
Naquelas semanas sem documentos no sul do México, agentes migratórios mexicanos o interceptaram.
Romero León foi levado para outro centro de detenção e deixado na fronteira com a Guatemala. Ele conta que acabou morando na rua em Tapachula, no Estado mexicano de Chiapas. Ele continuava com a mesma roupa que usava quando foi deportado e se alimentava de doações.
"Vi muitos outros como eu", relembra Romero León.
"Aquilo está repleto de cubanos idosos, até avós, outros enfermos, sem dinheiro nem documentos, condenados à indigência."
"Parece que eles quiseram nos mandar para morrer ali", lamenta ele, já de regresso aos Estados Unidos, na cidade californiana de Palmdale.
Consultado sobre o caso pela BBC News Mundo, o Departamento de Segurança Nacional dos Estados Unidos (DHS, na sigla em inglês) destacou que se trata do caso de um "imigrante ilegal criminoso com extenso histórico de delitos" e ordem de expulsão desde 2002.
Há alguns anos, Romero León cumpriu pena por vários delitos: em 1997, por agressão física à sua cônjuge; em 2000, por tentar transportar maconha para venda; e, em 2001, por falsificação da carteira de motorista e apresentação de informações falsas.
"Lázaro Romero León recebeu o devido processo completo, incluindo uma ordem final de deportação de um juiz", afirma um porta-voz do DHS.
"Este governo não irá ignorar o Estado de direito. O ICE cumpre com as ordens judiciais."
"Imigrantes ilegais criminosos não são bem-vindos nos Estados Unidos. Estamos aplicando o que dispõe a lei", prosseguiu o organismo.
"Se um juiz determinar que um imigrante legal não tem direito de estar neste país, iremos deportá-lo."

Terceiro país para os cubanos

Os imigrantes cubanos não eram prioridade da política de deportação dos Estados Unidos há anos.
Esta situação se deveu, em parte, pela falta de acordos e porque Cuba se negava a aceitar determinadas pessoas de volta, como as que haviam cumprido sentenças condenatórias.
Por isso, muitos imigrantes receberam ordens de expulsão que não chegaram a ser cumpridas. Um deles era Romero León.
Eles permaneceram por décadas nos Estados Unidos, onde trabalharam e formaram família, muitas vezes com cônjuges naturalizados e filhos com cidadania por nascimento.
Mas tudo isso mudou drasticamente no segundo mandato do presidente americano Donald Trump. Desde sua posse, em janeiro de 2025, e seguindo suas promessas de campanha, seu governo ordenou operações antimigratórias em massa.
O objetivo é deportar pessoas sem documentos. Para isso, o governo tomou medidas para ampliar tanto as vias de expulsão, quanto os convênios com países dispostos a receber pessoas deportadas de outras nacionalidades.
Cuba enfrenta uma das suas maiores crises das últimas décadas e uma campanha de pressão máxima de Washington. E seus cidadãos também foram afetados.
Segundo um relatório publicado em abril pelo Instituto Cato, um centro de estudos apartidário de tendência conservadora com sede em Washington, nos Estados Unidos, as prisões realizadas pelo ICE de pessoas nascidas na ilha dispararam de menos de 200 por mês, no final de 2024, para mais de 1 mil mensais, um ano depois.
E, embora as deportações enfrentem litígios nos tribunais federais, a lista de nações dispostas a serem "terceiros países" vem se ampliando.
A Costa Rica é o mais recente a se somar ao grupo que já inclui Camarões, Equador, El Salvador, Essuatíni (antiga Suazilândia), Gana, Honduras e Panamá.
Imagem BBC Brasil
Lázaro Romero León ficou detido nos centros do ICE em Adelanto, na Califórnia (foto), e em Florence, no Arizona Crédito: AFP via Getty Images
Não existe um contrato público deste tipo com o México e a presidente do país, Claudia Sheinbaum, descartou esta possibilidade.
Ainda assim, o país também recebeu milhares de cidadãos de outras nacionalidades deportados pelos Estados Unidos, principalmente cubanos, haitianos e venezuelanos, desde o retorno de Trump à Casa Branca.
O México recebe migrantes dos Estados Unidos há anos, em virtude de um compromisso assumido junto ao governo americano anterior, do ex-presidente democrata Joe Biden (2009-2017).
Mas, na época, tratava-se de migrantes que haviam acabado de cruzar irregularmente a fronteira e eram devolvidos de imediato, em uma situação muito diferente das deportações sendo observadas atualmente.
As autoridades dos dois países não forneceram números oficiais sobre as novas expulsões. Mas, pouco a pouco, vêm surgindo alguns dados.
Sheinbaum declarou em dezembro que seu país havia recebido 11.886 estrangeiros até então.
Em março, uma resolução do juiz federal americano William G. Young destacou que o DHS havia indicado que, com base em um "acordo informal", os Estados Unidos teriam deportado 6 mil cubanos para o México no último ano.
E um relatório da organização Human Rights Watch, publicado em maio passado, indica que, entre 20 de janeiro de 2025 e 9 de março de 2026, o governo Trump enviou ao país vizinho quase 13 mil estrangeiros. Destes, os cubanos representam o grupo mais numeroso, com 4.353 pessoas deportadas.

Sem documentos, nem dinheiro

Para elaborar o relatório, a Human Rights Watch entrevistou mais de 50 pessoas em Tapachula, no Estado mexicano de Chiapas, e em Villahermosa, em Tabasco. As duas cidades ficam no sul do México e recebem pessoas deportadas.
Com exceção de apenas um deles, todos os cubanos pesquisados declararam que já tiveram residência permanente nos Estados Unidos. A maioria admitiu ter perdido a residência por motivo de condenação judicial.
Em grande parte dos casos, foram delitos menores, como dirigir alcoolizado, falsificação de documentos ou acusações relacionadas a drogas, segundo a investigação da organização, com base nos dados disponíveis. Alguns foram condenados por faltas mais graves, como agressão ou delitos relacionados a armas.
"Eu já paguei", declarou Romero León à BBC News Mundo, sobre as sentenças que ele cumpriu por seus delitos, 25 anos atrás.
Mas, como ele, muitos cidadãos cubanos acabaram em um país estranho, sem documentos, nem dinheiro, nem pertencimento.
Imagem BBC Brasil
O México recebeu milhares de cidadãos de outras nacionalidades, deportados dos Estados Unidos, principalmente cubanos, haitianos e venezuelanos, desde a volta de Trump ao poder Crédito: Anadolu via Getty Images
O governo mexicano não garante serviços aos deportados originários de outros países, segundo a Human Rights Watch, e os obriga a enfrentar um sistema complicado para pedir asilo.
A organização afirma que todos os entrevistados declararam que, antes da liberação, as autoridades mexicanas os notificaram que eles tinham permissão limitada para permanecer no país — na maioria dos casos, por um período de 10 dias. E os instruíram a iniciar um processo junto à Comissão Mexicana de Ajuda aos Refugiados (Comar).
Romero León também recebeu esta mesma recomendação, segundo confirma sua advogada, a defensora pública Margaret Farrand.
A legislação mexicana determina que os migrantes que iniciarem o processo devem permanecer no Estado onde apresentaram a solicitação durante seu trâmite.
A BBC News Mundo tentou entrar em contato com a Comar, sem sucesso. E também consultou o Instituto Nacional de Migração do México (INM) para saber quantos estrangeiros deportados pelos Estados Unidos solicitaram refúgio no México, desde a posse de Donald Trump, e quantos tiveram resposta positiva.
O INM respondeu que todas as informações relacionadas a números são gerenciadas pela Unidade de Política Migratória. E, como muitos casos se referem a "processos administrativos migratórios pessoais que estão em andamento", não é possível fornecer os dados.
Questionado se existe um acordo ou algum tipo de coordenação entre as autoridades migratórias americanas e mexicanas para a deportação de pessoas de outras nacionalidades, o INM respondeu que "não temos informação a respeito".
"Se você vier ao nosso país ilegalmente, poderá terminar no Cecot [o Centro de Confinamento do Terrorismo, a infame prisão de segurança máxima de El Salvador] ou em qualquer outro país", respondeu à mesma questão um porta-voz do DHS americano.
"Estamos aplicando o que dispõe a lei. Se um juiz determinar que um imigrante legal não tem direito de estar neste país, iremos deportá-lo. Ponto final", destacou o organismo, em mensagem por correio eletrônico.
"Estes acordos com terceiros países, que garantem o processo devido conforme a Constituição dos Estados Unidos, são essenciais para a segurança do nosso país e do povo americano."

Na quarta tentativa, a vitória

Quando a BBC News Mundo conversou com Romero León pela primeira vez, ele estava havia dois meses na cidade de Tapachula, em Chiapas, o Estado mais pobre do México. A cidade fica a poucos quilômetros da fronteira com a Guatemala e está acostumada a receber caravanas de migrantes.
"Aqui, estou passando um sufoco tremendo", contou ele, durante aquela conversa telefônica no dia 5 de maio.
"Um rapaz me viu na rua e me acolheu, me deu de comer... Mas continuo com esta roupa, ando com ela desde o ano passado."
Na época, ele havia feito contato com seu conterrâneo Arody Tomé, que conheceu durante sua detenção antes de ser deportado. Romero León cuidou de Tomé quando ele contraiu pneumonia.
Libertado com uma tornozeleira com GPS para monitorá-lo, Tomé prometeu ajudá-lo e serviu de ponte com a advogada Margaret Farrand.
Com os recursos apresentados por ela e a pressão do juiz da Califórnia, o ICE tentou fazer com que Romero León pegasse um avião com destino a Tijuana.
Este procedimento se mostrou inviável com a cópia da sua identidade de Porto Rico, o único documento com que foi deportado, e a cópia da certidão de nascimento cubana obtida pela advogada.
Depois, eles tentaram fazer com que ele viajasse de ônibus até a fronteira com os Estados Unidos. A advogada comprou do próprio bolso uma passagem para o dia 11 de abril.
"Mas, pouco depois de sair, antes de chegar a Tuxtla Gutiérrez [a capital de Chiapas], havia uma barreira. Eles me fizeram descer e me levaram ao posto de migração" da cidade de Tapachula, ele conta.
"Depois de me manterem preso por alguns dias, eles me deixaram na fronteira com a Guatemala."
A BBC consultou o INM a este respeito, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem.
Imagem BBC Brasil
Lázaro Romero Torres levou quase três meses para voltar aos Estados Unidos, de onde havia sido deportado Crédito: Gentileza Lázaro Romero León
Apesar de sua reticência em tentar novamente sem o acompanhamento de um funcionário americano, que declarasse aos agentes mexicanos que ele estava a caminho dos Estados Unidos por solicitação do governo do país, a história se repetiu.
Ele voltou a pegar um ônibus e voltaram a fazê-lo descer na barreira, segundo conta. Acabou novamente detido e posteriormente libertado.
"Como é possível que exista um mecanismo para deportar alguém para um país que não é o seu, mas não haja nenhum para trazê-lo de volta?", questionou a advogada à BBC News Mundo, em um contato para conferir com ela o relato do seu cliente.
O pesadelo começou a chegar ao fim no dia 8 de maio. Com um salvo-conduto em mãos e graças à coordenação entre as autoridades dos dois países, Romero León conseguiu pegar um avião com destino a Tijuana.
Daquela cidade, na fronteira entre o México e os Estados Unidos, ele cruzou a passagem de San Ysidro até chegar ao território americano. E, depois de passar novamente por um centro de detenção, ficou em liberdade sob supervisão.
Agora, ele precisa comparecer a um escritório do ICE no centro de Los Angeles, como um deportado que eles precisaram trazer de volta.

Este vídeo pode te interessar

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Joaquim Cruz
Confira dez dicas do campeão olímpico Joaquim Cruz para correr bem a Dez Milhas Garoto
Richarlison constrói mansão no ES com campo de futebol, lago e cinema
Richarlison constrói mansão no ES com campo de futebol, lago e cinema, diz portal
Marcelo Sangalo e a mãe Ivete
Marcelo Sangalo impressiona com físico musculoso e Ivete Sangalo reage: 'Meu gigante'

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados