A sala de controle de missões original da Nasa ficava no Edifício 1385 em Cabo Canaveral, no Estado americano da Flórida.
O Centro de Controle Mercury foi projetado para supervisionar os voos tripulados do Projeto Mercury (1958-1963), que transportava apenas um astronauta de cada vez, e as primeiras missões Gemini (1961-1966), com dois tripulantes. Ele foi o modelo de todas as salas de controle de missões até hoje.
Cada console era responsável por um sistema diferente da espaçonave. Todas as decisões eram supervisionadas por um diretor de voo sentado ao fundo e todas as comunicações com os astronautas eram feitas por um comunicador de cápsula (abreviado em inglês como "capcom").
A tela principal mostrava uma cápsula mecânica, suspensa sobre fios, que imitava o voo da aeronave. Os círculos na tela representavam as estações de comunicação em terra e em navios espalhados pelo mundo.
Chris Kraft
Chris Kraft (1924-2019) desenvolveu o conceito de controle da missão quando trabalhava como engenheiro de teste de aeronaves militares. Ele foi um dos primeiros funcionários da Nasa, em 1958, quando ainda não havia foguetes, espaçonaves, nem astronautas.
Dez anos depois, Kraft supervisionaria o primeiro voo tripulado ao redor da Lua e grande parte do sucesso se deve aos sistemas e procedimentos criados por ele.
O reconhecimento ao trabalho de Kraft é merecido, mas desagradá-lo poderia trazer graves consequências.
Quando o astronauta Scott Carpenter (1925-2013), da missão Mercury, se distraiu durante o voo em 1962, sua missão quase terminou em desastre. Atrasado nos seus procedimentos, ele correu o risco de despencar em direção à Terra, fora de controle.
O comportamento do astronauta deixou Kraft furioso, a ponto de jurar que Carpenter nunca mais voaria para o espaço outra vez. E foi o que aconteceu.
O controle da missão Apollo
Duas novas salas de controle de missões foram construídas para as missões Apollo no novo Centro Espacial Tripulado (posteriormente rebatizado como Centro Espacial Lyndon B. Johnson), na periferia de Houston, no Estado americano do Texas, com tecnologia de ponta para a época.
A espaçonave mecânica da tela frontal foi substituída pela retroprojeção de uma representação do voo gerada digitalmente e os vários consoles exibiam inúmeros dados, ao lado das fileiras de botões com cores brilhantes.
Por trás de tudo isso, ficava um sistema avançado de comunicações globais, além de cinco dos mais recentes computadores IBM 360 para analisar, em tempo real, todos os aspectos da velocidade, trajetória e condições da espaçonave.
Glynn Lunney
Na imagem acima, Glynn Lunney (1936-2021) aparece sentado junto ao seu novo e cintilante console, durante um exercício de simulação, pouco depois da abertura do novo centro de controle de missões, em 1965.
Cada estação de trabalho era responsável por um sistema diferente da espaçonave.
As alças instaladas nos dois lados dos monitores permitiam a fácil substituição dos aparelhos em caso de mau funcionamento, o que acontecia com razoável frequência com tubos de raios catódicos. Antes da tecnologia de tela plana, o conserto de aparelhos de TV era um negócio lucrativo.
Muitas das chaves se destinam a comunicações e os controladores podiam conversar com suas próprias equipes em outros locais, falar diretamente com o diretor de voo ou com qualquer outra pessoa no salão.
Lunney se tornaria diretor de voo e, por fim, supervisionaria o programa de ônibus espaciais (1981-2011).
O pouso na Lua
Os comunicadores de cápsulas são a única ligação entre a terra e o espaço. Isso faz com que sempre haja uma única voz falando para os astronautas, evitando mensagens confusas ou conflitantes.
Nos anos 1960, os próprios capcoms eram astronautas conhecidos, de confiança dos seus colegas e familiares com a espaçonave.
A foto acima da posição de capcom na sala de controle foi tirada durante o primeiro pouso na Lua, da Apollo 11, em 1969.
Da esquerda para a direita, ela mostra os astronautas Charlie Duke, que caminharia na Lua na Apollo 16, Jim Lovell (1928-2025), da Apollo 8 e 13, e Fred Haise, da Apollo 13.
Quando Neil Armstrong (1930-2012) informou que "a Águia pousou", durante a missão Apollo 11, a resposta de Duke no controle da missão se tornou quase tão famosa quanto aquela:
"Você tinha um bando de caras quase ficando azuis, aqui. Estamos respirando de novo!"
Comemoração
Esta é a imagem do sucesso americano em 1969, quando os controladores da missão se reuniram para comemorar o fim da Apollo 11.
Muitos desses jovens brancos foram recrutados na faculdade e ainda estavam na casa dos 20 anos de idade, com os mais velhos na casa dos 30.
A maioria deles se veste de forma idêntica, com camisas brancas de mangas curtas, gravatas e canetas nos bolsos.
Eles usavam "protetores de bolsos", pequenas capas de plástico projetadas para evitar que as canetas vazassem no tecido. Elas existem até hoje.
A primeira mulher a trabalhar no controle de missões foi Poppy Northcutt, em meados dos anos 1960.
O fracasso não é uma opção
Você quase consegue sentir a tensão.
A imagem acima mostra os controladores da missão Apollo 13, estudando um mapa climático do local proposto para o pouso da espaçonave no Pacífico Sul.
A Apollo 13 sofreu uma explosão no tanque de oxigênio a caminho da Lua, que colocou em risco a vida dos três astronautas a bordo e levou seu diretor de voo Gene Kranz a cunhar a frase "o fracasso não é uma opção".
Quando a foto foi tirada, os controladores da missão já haviam conseguido salvar a espaçonave e mantido os três astronautas vivos para retornar à Terra. Agora, aparentemente, o clima poderia ser perigoso demais para o pouso na água.
Lunney, agora um dos diretores de voo, aparece sentado no centro da foto. Um dos observadores é Kraft, que parece segurar um charuto.
No fim, o clima permitiu o pouso e os astronautas foram resgatados sem novos incidentes.
Ônibus espaciais
Pouco parece ter mudado nesta imagem de 1984.
Camisas, gravatas, canetas no bolso e fumaça parecem ainda estar na moda, no controle da missão. O relógio digital e os cortes de cabelo são as únicas indicações daquela época.
O homem de cachimbo é Jay Greene (1942-2017), um dos diretores de voo do ônibus espacial STS 51-A. Sua ambiciosa missão era recuperar da órbita dois satélites em mau funcionamento.
Esta imagem mostra apenas homens, mas Anna Fisher, uma das primeiras mulheres astronautas da Nasa, foi a responsável por operar o braço robótico da nave.
O controle da missão também havia passado por uma série de atualizações tecnológicas naquela época, com novos computadores, monitores coloridos e avanços nas comunicações.
Orion
O controle das missões avançou muito nos últimos 60 anos, mas seus conceitos essenciais e o layout criado por Kraft permanecem até hoje.
Esta foto de 2022 mostra a controladora de voo Julie Reed no console de dinâmica de voo durante a missão Artemis 1, um voo de teste não tripulado da cápsula Orion.
A nova sala de controle de missões conta com telas sensíveis ao toque, monitores coloridos e laptops. Seus ocupantes apresentam mais diversidade e o fumo é proibido.
Mas a sala ainda é dominada pelas telas à frente e o diretor de voo ocupa uma mesa que supervisiona a equipe.
Sala de avaliação da missão (Mer)
Desde os primeiros foguetes, todos os controladores de missões contaram com o auxílio de uma equipe de especialistas — os engenheiros que compreendem os detalhes do software ou de sistemas que podem ajudar a missão quando algo não sai conforme o planejado.
Durante o programa Apollo, a equipe Mer enfrentou desde pequenas falhas de computador até o salvamento dos astronautas da Apollo 13.
A Nasa montou recentemente a nova Mer da Artemis, reunindo os responsáveis por toda a espaçonave em uma mesma sala. Eles incluem uma equipe europeia responsável por supervisionar o módulo de serviço, que compõe a metade da espaçonave.
Enquanto isso, no Alabama…
A iluminação hexagonal também está presente nas salas de controle do Centro Marshall de Voos Espaciais em Huntsville, no Estado americano do Alabama.
O centro já abriga a sala de controle científico da Estação Espacial Internacional e irá receber as operações científicas durante as missões lunares.
Seus controladores trabalharão com os astronautas que realizarem experimentos científicos na Lua e poderão eventualmente supervisionar as operações de uma futura base lunar.
Restauração da sala de controle
Atualmente, Houston mantém duas salas de controle operacionais principais, uma para a Estação Espacial Internacional e outra para a Artemis.
Das duas salas de controle originais do programa Apollo, a Sala de Controle de Operações de Missões 2 (MOCR-2, na sigla em inglês) foi preservada como Marco Histórico Nacional dos Estados Unidos em 1985. Os visitantes podem entrar e até se sentar no console do diretor de voo.
Mas, ao longo dos anos, a sala ficou cada vez mais surrada e desgastada.
Em 2019, a Nasa deu início a um projeto para restaurar a MOCR-2 para os seus dias de glória da era Apollo. Atualmente, ela é quase idêntica à época em que os primeiros homens pousaram na Lua, como se pode observar nas imagens abaixo.
Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Technology.
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