Publicado em 22 de outubro de 2025 às 14:32
O Brasil nunca vendeu tanto para a China — e talvez nunca tenha dependido tanto de um só parceiro. >
A potência asiática se tornou o destino de quase um terço das exportações brasileiras e o principal motor do superávit comercial do país. Mas, por trás dos números recordes, cresce entre alguns analistas a preocupação de que essa parceria possar estar custando caro à indústria nacional.>
Entre 2013 e 2023, o Brasil exportou US$ 838,8 bilhões para a China. Do total vendido, mais de 60% foi de soja e minérios.>
No mesmo período, segundo a professora de Relações Internacionais da PUC-Rio, Ana Elisa Saggioro Garcia, o país asiático consolidou sua posição como centro manufatureiro e tecnológico. Já a indústria brasileira aumentou seu foco em exportações menos complexas.>
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"Há um processo combinado desde os anos 90, mas que se reforça a partir de 2009, em que enquanto no Brasil se desmantelou as instalações para moer grãos de soja ou beneficiar o minério e passou a se investir nas exportações em natura, a China instalou grandes moedores e beneficiamentos nos seus próprios portos", aponta a pesquisadora e autora de um estudo sobre os padrões comerciais do Brics.>
Segundo Garcia e outros especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, o processo pode se aprofundar ainda mais nos próximos anos, se não houver mudança na estratégia econômica nacional.>
Os analistas advertem, porém, que o cenário pode se tornar realidade independentemente do estreitamento ou não da relação comercial entre o Brasil e a China — já que se trata mais de uma questão de estratégia doméstica do que de uma consequência dos negócios com o gigante asiático.>
A aproximação comercial entre Brasil e China vem se consolidando ao longo de mais de três décadas. A partir de 2004, porém, a relação se tornou mais sólida e intensa.>
Naquele ano, ainda em seu primeiro mandato como presidente, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reconheceu o país asiático como uma economia de mercado. >
À época, a China ainda era criticada por parte da comunidade internacional por usar práticas anti-mercado para exportar seus produtos a preços baixos e o reconhecimento era uma espécie de "selo" de que o país se submeteria às regras internacionais do comércio global.>
Nos cinco anos que se seguiram, o fluxo comercial (exportações mais importações) entre os dois países mais que triplicou — saiu de US$ 9,1 bilhões ao final de 2004 para US$ 35 bilhões em 2009. >
Naquele ano, a China ultrapassou os Estados Unidos como principal comprador de produtos brasileiros.>
Impulsionada pelo apetite por commodities agrícolas, minerais e petróleo, a China se consolidou como principal parceiro comercial do Brasil e, em 2024, ela foi responsável por receber 28% de todas as exportações brasileiras. Em 2023, esse percentual chegou a 30%.>
Os Estados Unidos, segundo maior comprador, ficaram com pouco mais de 12% no ano passado. >
Sozinha, a China comprou mais produtos brasileiros que a soma dos seis outros maiores importadores, grupo que inclui, além dos Estados Unidos, a Argentina, Países Baixos, Espanha, Singapura, e México.>
Entre 2004 e 2024, o saldo da balança comercial entre Brasil e China foi amplamente favorável (US$ 315 bilhões) e ajudou o país a compor suas reservas internacionais.>
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Mas há quem argumente que essa parceria econômica colaborou para que a pauta exportadora brasileira permanecesse concentrada em produtos de baixo valor agregado, com foco em commodities agrícolas e minerais.>
Em 2023, 74% das importações brasileiras de produtos industriais da China foram de bens de alta e média-alta intensidade tecnológica, enquanto apenas 5% das exportações do Brasil para o mercado chinês correspondiam a estes produtos.>
Atualmente, o Brasil exporta uma variedade de bens primários para a China, como soja, minério de ferro, petróleo, e outros com baixo processamento industrial (carnes, milho, celulose e algodão) e não apenas café como um século atrás. >
Ou seja, o país foi bem-sucedido em diversificar a pauta, mas o foco seguem sendo os produtos pouco ou nada processados industrialmente, dizem especialistas.>
Segundo análise do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), a demanda chinesa alterou diretamente a pauta exportadora brasileira. >
Além disso, a concorrência dos produtos do gigante asiático em outros mercados deslocou as exportações brasileiras dos bens industriais, ao mesmo tempo em que os embarques chineses para o Brasil ampliaram o déficit comercial da indústria de transformação.>
"Praticamente tudo o que exportamos para a China é produto básico (90,7% em 2023) e isso tem influenciado o perfil do total da pauta exportadora do Brasil. Estes bens representam hoje 58,9% de nossa pauta ante 48,6% dez anos atrás. Quase metade do que exportamos de produtos básicos tem a China como destino", afirma um estudo publicado pelo centro de pesquisa em agosto do ano passado.>
Ainda segundo o IEDI, o ganho de participação da China no comércio exterior brasileiro foi acompanhado por um expressivo declínio do Índice de Complexidade Econômica (ICE) do país.>
No ranking mundial que mede a complexidade do comércio de 137 países, o Brasil foi da 23ª posição em 1998 para a 49ª em 2023 (último dado disponível).>
A chamada Lei Kandir também teve um impacto grande nesse processo, afirma Ana Garcia. A legislação isentou do ICMS (imposto estadual sobre circulação) as exportações, inclusive das commodities em estado bruto.>
A medida visava tornar os produtos brasileiros mais competitivos externamente, mas segundo a especialista também pode ter incentivado que se exportasse matérias-primas não processadas.>
"O Brasil abriu o seu mercado à entrada dos produtos muito mais competitivos do que os brasileiros, vindos da China e de outros países. Isso, combinado com mudanças legislativas para apoiar a exportação, gerou um desmantelamento forte da indústria nacional", afirma Ana Garcia.>
"A Lei Kandir isenta de imposto a exportação de produtos manufaturados, com algum tipo de beneficiamento, ou simplesmente in natura. E claro que a exportação do produto in natura é muito mais barata para o produtor brasileiro.">
Garcia chama a atenção para o caso da soja e dos minérios. Segundo a professora da PUC-Rio, o Brasil deixou passar excelentes oportunidades de usar o superávit econômico com a China para investir em uma maior capacidade de processamento de grãos e beneficiamento mineral.>
O Brasil é o maior produtor e exportador de soja do mundo, mas apenas o terceiro maior processador da oleaginosa, atrás da China e dos Estados Unidos, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).>
Dados da Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais) mostram ainda que enquanto a produção de soja se expandiu em cerca de 79% no país entre 2014 e 2024, o processamento dos grãos cresceu apenas 48% no mesmo período.>
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A China, por outro lado, vêm expandindo sua capacidade de processamento e construindo instalações para produção de óleo, farelo e ração de soja em seus próprios portos e zonas econômicas especiais, diz Garcia.>
De acordo com um relatório do Serviço Agrícola Estrangeiro (FAS) do Departamento de Agricultura dos EUA, a China processou em torno de 99 milhões de toneladas de grãos de soja em 2024 – quase o dobro do Brasil>
Ainda segundo a especialista, algo similar acontece com a exportação de minérios, com a China comprando grandes quantidades de insumos básicos do Brasil para beneficiá-los posteriormente em suas próprias indústrias. >
Em 2024, o Brasil vendeu mais de 280 milhões de toneladas de minerais à China, segundo dados do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). >
Entre os produtos vendidos estão alumínio, caulim, cobre, ferro, manganês, nióbio, ouro, zinco, pedras naturais, pentóxico de vanádio, zinco e outros. >
O minério de ferro é atualmente o terceiro produto mais exportado pelo Brasil para a China, atrás apenas da soja e do petróleo bruto. >
Entre os produtos monitorados pelo Ibram, somente as rochas ornamentais, o ouro e o nióbio estão na fase de indústria de transformação. Todos os demais são minérios básicos. >
Segundo a própria organização, isso não quer dizer que todos são classificados como commodities, já que muitos são insumos industriais para outras indústrias.>
Ainda assim, aponta Ana Garcia, há muito espaço para investimentos em plantas brasileiras de processamento. >
Dados do Conselho Internacional de Mineração e Metais (ICMM) colocam o Brasil entre os cinco principais países em número de instalações de processamento de minerais em larga escala. >
A nação, porém, aparece atrás de Estados Unidos, China e Rússia em termos de beneficiamento de minerais. >
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Segundo o próprio ICMM, os dados globais existentes sobre o setor de mineração são por vezes incompletos, podendo haver inconsistências. O banco de dados do conselho, porém, é considerado o mais completo já desenvolvido. >
Na visão da professora da PUC-Rio, o governo brasileiro vem trabalhando nos últimos anos para reverter o cenário em relação à sua pauta exportadora e a baixa complexidade dos produtos, com investimentos em industrialização.>
"Não vejo o processo de desindustrialização se acelerando, pois há uma atenção maior para essa área tanto da parte do Brasil quanto da própria China", diz Ana Elisa Garcia, que cita especificamente o plano Nova Indústria Brasil (NIB), lançado em janeiro de 2024, e que prevê investimentos de R$300 bilhões até 2026 para impulsionar o desenvolvimento da indústria nacional.>
Mas segundo a pesquisadora, é possível aproveitar mais a intensa cooperação com a China para diversificar a pauta exportadora brasileira e investir em ciência e tecnologia.>
Nos últimos meses, duas montadoras chinesas de veículos elétricos inauguraram instalações no país, em um movimento que é visto por economistas como uma oportunidade de desenvolvimento conjunto.>
"O Brasil precisa cobrar da China mais pesquisa e desenvolvimento conjunto, senão vamos apenas criar um novo pátio de montadoras, como aconteceu nos anos 60 e 70 com as montadoras europeias", aponta a professora da PUC-Rio.>
Garcia vê ainda espaço para a exploração da cooperação em busca de mais investimentos na indústria energética, especialmente de energia solar e eólica, e na indústria química.>
Os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil também são categóricos em afirmar que a relação comercial com a China não é a causa do processo de desindustrialização brasileira.>
"Não é a China que desindustrializa o Brasil. O problema está nas políticas nacionais. Nós não aproveitamos o superávit comercial para investir em setores estratégicos, em inovação e tecnologia", diz Evandro Carvalho, professor da FGV Direito Rio e especialista em economia e governança chinesa.>
"Não podemos culpar a China pela desindustrialização quando não estamos fazendo a lição de casa há 20 anos", avalia ainda Roberto Dumas, professor de Economia Internacional do Insper.>
Segundo ele, o caminho para um maior desenvolvimento da indústria nacional passa pelos investimentos no setor, mas também em áreas básicas, como educação, saneamento básico e saúde.>
Dumas afirma, porém, que o Brasil está traçando um caminho perigoso ao se apoiar demais na relação comercial com a China.>
"Ter 30% de suas exportações concentradas em apenas um país, não importa qual seja, é perigoso", diz o professor do Insper.>
"Qualquer diretor financeiro de uma empresa sabe que não se deve deixar 30% do seu negócio nas mãos de um único comprador.">
No caso do comércio entre nações, afirma, questões internas e externas, como crises financeiras e políticas, agitações sociais, mudanças de governo ou pandemias, podem influenciar a capacidade de importação.>
O especialista diz ainda se preocupar com a força do "sharp power" chinês. "A China usa seus investimentos e o comércio para trazer seus parceiros para sua zona de influência", diz.>
"Veja, a China não é a União Soviética, que buscava impor o comunismo nos outros países. Mas há uma busca por expandir a zona de influência a fim de buscar aliados, por exemplo, em votações na ONU.">
Outros especialistas consultados pela BBC Brasil, porém, discordam que existam riscos em ampliar as relações comerciais com o país asiático.>
Segundo Marcos Caramuru, ex-embaixador em Pequim e Kuala Lumpur (Malásia), a parceria está bastante consolidada e deve continuar assim se não houver grandes perturbações.>
De acordo com o diplomata, há uma tendência de aproximação com a China em todo o mundo, diante da política externa adotado pelo atual governo de Donald Trump nos Estados Unidos.>
"Todos os países estão em busca de uma liderança mundial que coincida com as suas visões de mundo sobre multilateralismo, organização das relações internacionais, sobrevivência da OMC, etc", diz. >
"E a China, por meio de muitas declarações públicas, está mostrando que se identifica com essas ideias.">
Já Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Londres e Washington D.C., afirma que uma relação comercial crescente com a China não significa necessariamente uma aproximação em termos estratégicos ou políticos.>
O diplomata cita como exemplo da independência brasileira o fato do país ter rejeitado as investidas de Pequim para se juntar ao projeto Cinturão e Rota, também conhecido como Nova Rota da Seda.>
Trata-se de um programa trilionário chinês iniciado em 2013 que prevê a realização de obras e investimentos para ampliar mercados para a China e a presença do país no mundo.>
Nos bastidores, os chineses vêm cortejando o Brasil a aderir ao projeto há anos.>
Havia até a expectativa de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pudesse anunciar uma adesão em 2023, quando fez uma visita oficial à China. >
Isto, porém, não se concretizou e governo brasileiro vem mantendo a política de seguir perto o suficiente dos chineses sem aderir ao projeto do país asiático.>
"O Brasil tem uma relação muito boa com a China, mas tem uma posição de não alinhamento, nem com os Estados Unidos, nem com a China, nem com o Brics, nem com ninguém", diz Barbosa.>
Desde o dia 6 de agosto, os Estados Unidos vêm aplicando uma tarifa de 50% sobre os produtos importados do Brasil.>
Antes mesmo das taxas começarem a valer, o governo chinês afirmou estar disposto a trabalhar com o Brasil para "defender conjuntamente o sistema multilateral de comércio centrado na OMC e proteger a justiça e a equidade internacional", em uma referência indireta ao tarifaço americano.>
E Pequim parece estar adotando uma estratégia similar, de reforçar as relações com seus parceiros comerciais, com o mundo todo, dizem economistas.>
Apesar disso, não há grandes expectativas de que o Brasil possa redirecionar as exportações antes destinadas ao mercado americano para o gigante asiático.>
Isso porque, apesar de serem os dois maiores parceiros comerciais brasileiros, China e Estados Unidos compram produtos bastante diferentes das empresas brasileiras.>
Enquanto a pauta de exportações para a China está bastante concentrada em poucos produtos básicos, a lista do que é vendido para os EUA é diversificada, mas com muitos produtos manufaturados.>
"Alguns produtos agrícolas, como café, manga, suco, podem ser redirecionados [para a China], mas os produtos industriais será bastante difícil, pois a indústria nacional não é competitiva", diz Rubens Barbosa.>
"É muito difícil competir na China com produtos industriais. Fazer negócios lá requer quantidades enormes, preços razoáveis e compromissos de longo prazo", afirma ainda o ex-embaixador Marcos Caramuru.>
Por tudo isso, os analistas não preveem grandes mudanças no futuro da relação com a China.>
"As relações do ponto de vista econômico-comercial vão muito bem. Uma mudança no governo brasileiro para a direita pode levar a um esfriamento, mas não acredito que com uma perda de qualidade ao ponto de ter um impacto direto sobre os investimentos ou comércio", afirma Caramuru.>
Os especialistas alertam, porém, para o risco do saldo comercial favorável para o Brasil na relação se tornar um déficit no futuro, diante do movimento de Pequim para alcançar a autossuficiência.>
"A China tem investido muito e desenvolvido tecnologia para aumentar a sua segurança alimentar – ou seja, reduzir sua dependência das importações", diz Evandro Carvalho, da FGV.>
Ao mesmo tempo, apontam, existe também o risco da China ampliar as importações de produtos agrícolas dos EUA — e em especial de soja —, diante da pressão de Donald Trump por um acordo comercial.>
A Casa Branca negocia atualmente um acordo com Pequim, em troca de tarifas mais baixas para os produtos chineses em território americano. Trump já defendeu que a China quadruplique as compras de soja americana, como forma de normalizar as relações.>
Desde a posse de Trump e o tarifaço, Pequim reduziu drasticamente a importação do grão americano. Em 2024, os chineses compraram mais de US$ 12 bilhões de soja. Mas, em setembro, as compras foram a zero. >
No mesmo mês, o Brasil enviou quase 11 milhões de toneladas do grão para a China. Cerca de 30% a mais que no mesmo período de 2024.>
Xi Jinping já sinalizou que a China poderia voltar a comprar soja desde que Trump remova as tarifas impostas contra o país. Os dois presidentes devem se encontrar nos próximos dias na Coreia do Sul e é esperado que o tema seja central nas negociações.>
"O Brasil e os produtores de soja brasileiros vão ser impactados diretamente se a China fechar um acordo e aceitar as demandas dos EUA", diz Carvalho.>
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