Publicado em 20 de março de 2025 às 08:44
Soldados ucranianos em combate na região russa de Kursk descreveram cenas "como de um filme de terror", enquanto recuavam da linha de frente.>
A BBC recebeu relatos detalhados de tropas ucranianas sobre uma retirada "catastrófica", frente a fogo pesado, colunas de equipamento militar destruído e constantes ataques de esquadrões de drones russos.>
Os soldados conversaram pelas redes sociais. Eles receberam pseudônimos para proteger sua identidade.>
Alguns relataram a ocorrência de um "colapso", quando a Ucrânia perdeu a cidade russa de Sudzha, a maior que estava em seu poder.>
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As restrições de viagens para o front impostas pela Ucrânia impossibilitaram a obtenção de um quadro completo da situação. Mas cinco soldados ucranianos descreveram para a BBC o que aconteceu.>
No dia 9 de março, "Volodymyr" (nome fictício) enviou para a BBC uma mensagem via Telegram. Ele contou que ainda estava em Sudzha, onde havia "pânico e colapso no front".>
As tropas ucranianas "estão tentando sair – colunas de tropas e equipamentos. Algumas são queimadas por drones russos na estrada. É impossível sair durante o dia.">
O movimento dos soldados, logística e equipamento dependia de um caminho principal entre Sudzha e a região de Sumy, em território ucraniano.>
Volodymyr contou que, um mês atrás, era possível viajar naquela estrada com relativa segurança. Mas, em 9 de março, "tudo estava sob o controle do fogo inimigo – drones 24 horas por dia. Em um minuto, você pode ver dois a três drones. É muito.">
"Temos toda a logística aqui na estrada entre Sudzha e Sumy", prossegue ele. "E todos sabiam que [os russos] tentariam interromper. Mas, novamente, foi uma surpresa para o nosso comando.">
Na época das mensagens, pouco antes da retomada de Sudzha pela Rússia, Volodymyr afirmava que as forças ucranianas estavam sendo pressionadas de três lados.>
No dia 11 de março, as forças ucranianas lutavam para evitar a interrupção da estrada, segundo as mensagens recebidas de "Maksym" no Telegram.>
"Alguns dias atrás, recebemos uma ordem para deixar as linhas de defesa em uma retirada organizada", contou ele. Maksym destacou que a Rússia havia reunido forças significativas para retomar a cidade, "incluindo grandes números de soldados norte-coreanos".>
Especialistas militares estimam que a Rússia tenha reunido até 70 mil soldados para retomar Kursk, incluindo cerca de 12 mil norte-coreanos.>
A Rússia também enviou suas melhores unidades de drones para o front e usava aparelhos kamikazes e variantes de visão em primeira pessoa (FPV, na sigla em inglês) para "assumir o controle das principais rotas logísticas".>
Eles incluíram drones guiados por fibra óptica, sem o uso de rádio. Interferir neles com aparelhos eletrônicos é impossível.>
Com isso, segundo Maksym, "o inimigo conseguiu destruir dezenas de equipamentos" e os destroços haviam "congestionado as rotas de abastecimento".>
No dia 11 de março, "Anton" descreveu a situação como "catastrófica".>
O terceiro soldado que conversou com a BBC estava destacado para o quartel-general do front em Kursk. Ele também salientou os danos causados pelos drones FPV russos.>
"Costumávamos ter vantagem em questão de drones, agora não temos mais", declarou ele.>
Segundo ele, a Rússia tinha vantagem com ataques aéreos mais precisos e maior número de soldados. E as rotas de abastecimento haviam sido cortadas.>
"A logística não funciona mais", segundo ele. "O abastecimento organizado de armas, munição, alimentos e água, agora, é impossível.">
Anton contou que conseguiu deixar Sudzha a pé, à noite. "Quase morremos em várias oportunidades. Os drones estão no céu a todo tempo.">
O soldado previa que toda a presença ucraniana em Kursk seria perdida, mas que, "do ponto de vista militar, a direção de Kursk se exauriu. Não há mais motivos para mantê-la.">
Autoridades ocidentais estimam que a ofensiva ucraniana em Kursk envolveu cerca de 12 mil soldados. Eram alguns dos seus oficiais mais bem treinados, equipados com armas fornecidas pelo Ocidente, incluindo tanques e veículos blindados.>
Blogueiros russos publicaram vídeos exibindo parte dos equipamentos sendo destruídos ou capturados. No dia 13 de março, a Rússia declarou que a situação em Kursk estava "totalmente sob controle" e que a Ucrânia havia "abandonado" grande parte do seu material.>
Em postagens nas redes sociais em 11 e 12 de março, o quarto soldado, "Dmytro", comparou a retirada do front a "uma cena de filme de terror".>
"As estradas estão tomadas por centenas de carros destruídos, veículos blindados e ATVs (veículos-todo-o-terreno). Existem muitos feridos e mortos", ele conta.>
Dmytro destaca que os veículos, muitas vezes, eram caçados por diversos drones.>
Ele contou que conseguiu fugir por pouco, pois o carro em que ele viajava ficou atolado. Dmytro e seus colegas tentaram empurrar o veículo para liberá-lo, quando foram atacados por outro drone FPV.>
O drone não atingiu o veículo, mas feriu um dos seus colegas. Eles precisaram se esconder na floresta por duas horas, até serem resgatados, segundo o relato.>
Dmytro afirma que muitos ucranianos se retiraram a pé, alguns "andando de 15 a 20 km". A situação havia mudado de "difícil e crítica para catastrófica".>
Em uma mensagem em 14 de março, ele informou que "tudo está acabado na região de Kursk... a operação não foi bem sucedida".>
Ele estimou que milhares de soldados ucranianos haviam morrido desde o primeiro cruzamento da fronteira com a Rússia, em agosto do ano passado.>
Um quinto soldado pareceu apresentar uma situação menos sombria.>
No dia 13 de março, "Artem" enviou uma mensagem pelo Telegram de um hospital militar, onde estava sendo tratado. Ele foi ferido por estilhaços em um ataque de drones.>
Artem contou que estava lutando mais a oeste, perto da aldeia de Loknya. Lá, forças ucranianas estabeleciam forte resistência, "lutando como leões".>
Ele acreditava que a operação tivesse alcançado algum sucesso.>
"É importante que, até o momento, as Forças Armadas da Ucrânia tenham criado [e mantido] esta zona-tampão", segundo ele. "Graças a ela, os russos não podem entrar em Sumy.">
O principal general ucraniano, Oleksandr Syrskyi, defende que as forças ucranianas se retiraram para "posições mais favoráveis". Ele afirma que elas permanecem em Kursk e lá ficarão "pelo tempo que for conveniente e necessário".>
Syrskyi declarou que a Rússia sofreu mais de 50 mil baixas durante a operação, incluindo os soldados mortos, feridos ou capturados.>
Mas, agora, a situação é muito diferente de agosto passado. Analistas militares estimam que já tenham sido perdidos dois terços dos 1 mil quilômetros quadrados conquistados no ataque.>
A eventual esperança de que a Ucrânia pudesse negociar Kursk em troca de parte do seu próprio território foi significativamente reduzida.>
Na semana passada, o presidente Volodymyr Zelensky declarou acreditar que a operação em Kursk havia "cumprido sua tarefa", forçando a Rússia a retirar as tropas do leste e reduzindo a pressão sobre a cidade ucraniana de Pokrovsk.>
Mas ainda não sabemos ao certo a que custo.>
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