Publicado em 5 de março de 2026 às 16:08
Os Estados Unidos e Israel afirmam que seus ataques aéreos conjuntos já causaram danos significativos às instalações militares do Irã.>
"Suas defesas aéreas, sua força aérea, marinha e liderança se foram", postou o presidente americano, Donald Trump, na sua plataforma Truth Social na terça-feira (3/3). "Eles querem conversar. Eu disse: 'Tarde demais!'">
O Irã reagiu lançando ataques contra Israel e os países do Oriente Médio que abrigam bases militares dos Estados Unidos, afirmando estar agindo em autodefesa.>
Mas, com Israel e os Estados Unidos considerados militarmente superiores, quais opções teria o Irã nesta guerra? E qual estratégia o país está buscando seguir?>
>
O especialista em segurança do Oriente Médio, H. A. Hellyer, do centro de estudos britânico Instituto Real de Serviços Unidos de Estudos de Defesa e Segurança (Rusi, na sigla em inglês), afirma que o atual objetivo militar do Irã não é vencer os Estados Unidos ou Israel "em uma guerra convencional", mas sim transformar o conflito em um evento "prolongado, regionalmente disperso e economicamente caro".>
"O Irã não pode vencer convencionalmente", explica ele, "mas sua estratégia é garantir que a vitória dos demais permaneça cara e incerta.">
A professora Nicole Grajewski, do Centro de Estudos Internacionais (Ceri, na sigla em francês) da Universidade Sciences Po, na França, é da mesma opinião.>
Ela descreve a estratégia do Irã como "uma guerra de atrito", projetada para desgastar o oponente, drenando seus recursos e infligindo perdas sustentadas, até enfraquecer sua capacidade de luta.>
Existe também uma dimensão psicológica.>
"Durante a Guerra dos 12 Dias [contra Israel, no ano passado], o Irã se dirigiu muito mais a áreas civis", explica Grajewski.>
"A precisão não foi grande preocupação. Isso instila temor psicológico e trauma entre a população.">
Acredita-se que os mísseis e drones formem a principal estrutura do arsenal defensivo iraniano.>
O inventário de mísseis balísticos do Irã teria sido seriamente afetado durante a Guerra dos 12 Dias, mas "os números exatos permanecem incertos, devido ao armazenamento subterrâneo e aos esforços contínuos de reposição", segundo Grajewski.>
Israel calcula que o Irã tivesse cerca de 2,5 mil mísseis em fevereiro de 2026, de curto (até 1 mil km) e médio alcance (1 mil a 3 mil km).>
Autoridades iranianas afirmam terem usado sistemas como os mísseis Sejjil, descrito como tendo alcance de cerca de 2 mil km, e Fattah, caracterizado por Teerã como hipersônico, ou seja, muito mais rápido que a velocidade do som.>
As autoridades e a imprensa iraniana fazem frequentes referências a instalações de mísseis subterrâneas, conhecidas como "cidades de mísseis". Mas os detalhes da sua escala e inventário permanecem sem verificação.>
O principal comandante americano, o general Dan Caine, afirma que os lançamentos de mísseis balísticos pelo Irã caíram em 86% desde o primeiro dia de combate, o sábado (28/2). E o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) informa uma queda de mais 23% na terça (3/3).>
Ainda assim, Hellyer afirma que o Irã detém capacidade de ataque significativa para atingir "infraestrutura israelense, bases regionais americanas e aliados do Golfo, além de ameaçar os fluxos globais de energia através do Estreito de Ormuz".>
"Mesmo uma paralisação limitada do Estreito pode trazer graves consequências para a economia global", destaca ele.>
Cerca de 20% do petróleo do mundo passa através do Estreito. Agora, ele está efetivamente fechado pelo Irã, que prometeu atacar qualquer navio que tente transitar por ali.>
O Irã pode enfrentar escassez de mísseis avançados e propelentes sólidos, mas Grajewski afirma que sua capacidade de lançar drones ainda é significativa.>
Acredita-se que o país tenha produzido dezenas de milhares de drones de ataque Shahed kamikazes antes da guerra. Seu projeto foi exportado para a Rússia e até os Estados Unidos reproduziram alguns aspectos da sua tecnologia.>
Eles também atendem a um objetivo estratégico além dos danos diretos. Eles "desgastam os sistemas de defesa aérea ao longo do tempo", forçando os adversários a gastar mísseis interceptadores de alto custo.>
"Parte disso pretende exaurir as capacidades de interceptação", explica Grajewski.>
"O Irã vem fazendo isso com UAVs [veículos aéreos não tripulados, na sigla em inglês] e drones. É algo que os russos também têm feito na Ucrânia.">
Mas os Estados Unidos afirmam que os lançamentos de drones pelo Irã caíram em 73% desde o primeiro dia do conflito.>
O Instituto de Estudos de Segurança Nacional (INSS, na sigla em inglês), sediado em Tel Aviv (Israel), declarou que os Estados Unidos e Israel já realizaram mais de 2 mil ataques com múltiplas munições, enquanto o Irã lançou 571 mísseis e 1.391 drones, muitos dos quais foram interceptados.>
Manter este nível de combate se tornará cada vez mais difícil para os dois lados, à medida que a guerra continua, defendem os especialistas.>
O Irã também mantém uma das maiores forças armadas do Oriente Médio.>
São cerca de 610 mil militares na ativa, segundo estimativa do relatório Balanço Militar de 2025, publicado pelo Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS, na sigla em inglês). Eles incluem:>
O Irã também conta com uma rede de aliados regionais. Eles incluem os rebeldes houthis, no Iêmen, grupos armados do Iraque, o Hezbollah, no Líbano, e o Hamas, nos territórios ocupados.>
Mas seu autodenominado Eixo da Resistência sofreu fortes baixas durante os combates que se espalharam pela região, após o ataque do Hamas a Israel em outubro de 2023.>
Apesar das restrições atuais, o Irã tem experiência em suportar conflitos prolongados, segundo Grajewski. Sua resiliência data da Guerra Irã-Iraque (1980-1988), quando as cidades iranianas foram repetidamente atacadas, apesar da inferioridade convencional.>
Mas a continuidade da estratégia iraniana pode depender da sua coesão interna.>
"Realmente depende de como a elite política e de segurança permanece unida e se existem cismas", explica Grajewski. "Isso pode causar maior desarticulação, em termos de estratégia militar.">
"Parece que os operadores de mísseis estão sob muita tensão e exaustão, o que causa imprecisões ou disparos acidentais contra alvos errados. Muitas operações são mais desorganizadas e existe um nível de exaustão.">
E isso, combinado com os contínuos ataques às forças e estoques de mísseis do Irã, "poderá gerar uma escalada inadvertida".>
Nicole Grajewski destaca a Turquia, que declarou que as defesas aéreas da Otan destruíram um míssil balístico iraniano que se dirigia para o espaço aéreo turco na quarta-feira (4/3).>
Vizinha do Irã, a Turquia buscou mediar as negociações entre o Irã e os Estados Unidos antes do início da guerra aérea no final de semana (28/2-1/3). O país alertou para que "todas as partes evitem tomar ações que gerem escaladas maiores".>
Mas o objetivo principal do Irã é tornar as condições "tão intoleráveis" para os países vizinhos, que "possam potencialmente pressionar os Estados Unidos ou, pelo menos, tentar levar os EUA para um acordo mais negociado ou para o fim das hostilidades", explica Grajewski.>
"Até aqui, não acho que isso terá sucesso, mas parece ser a aposta que o Irã tem no momento", destaca ela.>
Mas esta aposta pode simplesmente sair pela culatra.>
H. A. Hellyer afirma que os países do Golfo "podem decidir que, embora se oponham em princípio à guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, sua própria segurança, agora, está em risco, devido às represálias iranianas contra eles. E que, por isso, faz mais sentido apoiar a campanha americana, para pôr fim à ameaça imediata do Irã.">
"Não acho que os países do Golfo já tenham chegado a este ponto, mas o tempo, neste particular, está acabando", conclui ele.>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta