Publicado em 10 de fevereiro de 2026 às 12:09
A 4ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu, por unanimidade, condenar a escola Waldorf Rudolf Steiner, em São Paulo, a pagar indenização de R$ 1 milhão para João Carlos Natalini, pai de Victoria Mafra Natalini, que morreu durante excursão pedagógica em 2015.>
A jovem tinha 17 anos quando desapareceu na fazenda Pereiras, em Itatiba, no interior de São Paulo, e foi encontrada sem vida no dia seguinte.>
A condenação, ocorrida na terça-feira passada (3/2), reverteu decisão do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP) que reduzia o valor da indenização para R$ 400 mil. Para o STJ, a decisão reconhece a gravidade do caso e o elevado grau de culpa da instituição.>
O pai da estudante afirmou à BBC News Brasil que a decisão é uma vitória, apesar de não trazer a filha de volta. >
>
"A decisão do STJ representa um marco jurídico de altíssima relevância, pois embora nenhum valor pague a vida de minha filha, essa vitória suplanta o aspecto financeiro. O STJ reconheceu, com fundamentos técnicos sólidos e elementos fáticos comprovados, a falha grave e a indesculpável omissão dos deveres da escola. O STJ confirmou o que sustento há mais de dez anos", disse.>
>
Natalini lembra a cruzada de onze anos que fez em busca de justiça com perícias independentes e especialistas no Brasil e no exterior. >
"Como pai, recebo essa decisão com a convicção de que a verdade técnica começou, enfim, a prevalecer; por isso espero a solução do caso com a responsabilização de quem falhou e pela punição dos prepostos da escola, na esfera criminal e também a responsabilização rigorosa e rápida de quem assassinou minha filha".>
A BBC News Brasil procurou a escola, que não se manifestou até o momento da publicação. >
Em 2023, a BBC News Brasil publicou reportagem contando em detalhes o ocorrido. Leia a seguir.>
Em 11 de setembro de 2015, um ônibus com estudantes da Escola Waldorf Rudolf Steiner, em São Paulo, seguiu em direção a uma fazenda no interior do Estado. Os jovens passariam uma semana na área rural. >
Entre os alunos estava Victoria Mafra Natalini, de 17 anos, descrita por familiares como estudiosa e apaixonada por arte. Na viagem escolar, a jovem contava os dias para um momento especial: quando voltasse para casa, ela iria a Porto Alegre (RS) para assistir ao show da sua banda preferida, o Queen.>
Mas aquela atividade escolar foi a última viagem da vida dela. A jovem nunca assistiu à apresentação musical que tanto esperava. >
Victoria foi encontrada morta dias depois de chegar à fazenda. O caso virou uma investigação policial que foi arquivada. É um mistério que dura quase uma década. >
A família da jovem cobra uma resposta e até contratou especialistas para uma investigação particular, o que foi fundamental para descobrir que ela não morreu por causas naturais. “Estou fazendo o papel de polícia e do Estado há oito anos”, afirma o pai de Victoria, o engenheiro mecânico João Carlos Natalini, de 58 anos.>
Recentemente, professores e gestores da escola se tornaram réus por abandono de incapaz, em razão da morte da jovem.>
A excursão que hoje é lembrada pela morte de Victoria tinha o objetivo de levar 34 alunos da escola particular para passar alguns dias na Fazenda Pereiras, em Itatiba, no interior de São Paulo.>
Era um passeio escolar tradicional na unidade de ensino. Os alunos, junto com dois professores e três técnicos de topografia, foram à propriedade rural para fazer estudos práticos sobre matemática e topografia. Eles fariam um mapeamento detalhado da propriedade rural.>
A escola não permitia que os alunos levassem celular à fazenda. “Eles não poderiam se comunicar com os pais. Ficamos confiando que a escola exerceria o seu dever”, diz João à BBC News Brasil.>
Tudo parecia bem até o quinto dia da excursão, quando os alunos foram divididos em grupos para mapear diferentes áreas da fazenda. >
Por volta das 14h30 daquele dia, Victoria avisou aos colegas de grupo que iria ao banheiro. Ela seguiu por uma trilha de terra em direção à sede do local, a cerca de 500 metros do ponto em que estava.>
Essa foi a última vez em que a jovem foi vista, segundo a investigação policial. Cerca de duas horas depois, os colegas de grupo estranharam que ela não havia retornado e procuraram os professores, para perguntar se eles sabiam o paradeiro da adolescente.>
E então teve início uma busca pela jovem na propriedade rural. “Os professores colocaram até os próprios alunos para procurarem a minha filha na mata. Só por volta das 18h que a cozinheira da fazenda tomou a iniciativa de chamar a Defesa Civil”, conta o pai da garota, com base nos relatos que ouviu na época.>
“Eu só fui comunicado sobre o desaparecimento da minha filha às 20h e só consegui chegar lá por volta das 23h”, diz João..>
Após o registro do desaparecimento, a polícia foi à fazenda. Por volta das 23h, as buscas foram suspensas e uma das possibilidades era de que a jovem tivesse sido sequestrada. >
As buscas foram retomadas na manhã seguinte. Por volta das 8h, o helicóptero da Polícia Militar de São Paulo encontrou o corpo de Victoria no entorno da fazenda. >
“Foi um baque muito grande quando me contaram que haviam encontrado o corpo dela. Eu estava em pé e tive que tomar fôlego para me reerguer. Foi tudo muito difícil. Precisei avisar aos familiares e ainda reconhecer o corpo da minha filha”, conta João. Ele define a descoberta sobre a morte da filha como o pior dia de sua vida. >
Não havia lesão aparente ou qualquer outro indício evidente de que Victoria havia sido vítima de um crime. No começo, a morte dela foi considerada como suspeita, mas a principal possibilidade cogitada era de que tivesse acontecido por causas naturais.>
Após viver os primeiros dias de luto intenso, João começou a questionar o que poderia ter acontecido com a filha. Na época, chegaram a noticiar que a garota tinha histórico de convulsões – o que foi negado pela família.>
João conta que a filha era saudável, se alimentava bem e praticava esportes. Em razão disso, ele achava pouco provável que Victoria tivesse morrido por problemas de saúde.>
“Já decorrido alguns dias ou semanas, a gente começou a pensar como havia coisa esquisita nisso tudo. O corpo dela foi encontrado em uma direção oposta à sede da fazenda, para onde ela queria ir quando desapareceu, e isso chamou a atenção. Pedimos insistentemente para a polícia local investigar, mas se negavam porque diziam que havia sido por causas naturais”, afirma João.>
Pouco após a morte da jovem, um laudo emitido pelo Instituto Médico Legal (IML) de Jundiaí (SP) apontou “causa indeterminada, sugestiva de morte natural” e descartou que ela tenha sido vítima de qualquer tipo de violência.>
Segundo os exames, Victoria não havia usado drogas nem ingerido bebida alcoólica. >
O laudo preocupou o pai da jovem, que acredita que depois disso a investigação do caso não recebeu a devida atenção das autoridades policiais.>
Para ele, não havia chance de a filha ter morrido de causa natural. Um fato que havia levantado desconfiança dele era a forma como o corpo dela foi encontrado: de bruços e com os braços entrelaçados. Para ele, isso representava que provavelmente alguém havia mexido no corpo.>
João decidiu investigar o caso por conta própria. Ele contratou peritos particulares que apontaram que apesar da falta de lesão aparente e de não ter ocorrido abuso sexual, a estudante foi assassinada e teve o corpo carregado até o local em que foi encontrada morta. >
“Esse laudo apontou uma série de incongruências do IML de Jundiaí, em razão da não investigação. Esses peritos que contratei pegaram todo o material a respeito da minha filha, avaliaram e desenharam toda a dinâmica, apontando que não tinha sido uma morte natural”, conta João.>
O pai da jovem apresentou o laudo particular à polícia. Diante disso, a apuração do caso foi reavaliada e encaminhada para o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de São Paulo.>
No começo de 2016, o DHPP pediu um novo laudo ao Centro de Perícias da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo. Essa nova análise confirmou que a aluna morreu por "asfixia mecânica, na modalidade de sufocação direta".>
O novo resultado apontou que a jovem pode ter sido assassinada. Isso porque esse tipo de sufocação direta, apontam especialistas, costuma ser feita pelas mãos, o que pode indicar que uma pessoa atacou a jovem. >
O pai acredita que Victoria foi morta em uma emboscada enquanto seguia para a sede da fazenda. >
“A pessoa tentou atacá-la, ela deve ter tentado se defender e a pessoa, com medo de que ela gritasse e denunciasse, acabou tentando calá-la, por isso tapou a boca e o nariz dela, o que acabou asfixiando a minha filha”, diz João. >
Em nota à reportagem, a Fazenda Pereiras, onde ocorreu a excursão, afirma que colaborou com a investigação e que permitiu a circulação de investigadores e peritos “que ouviram todos do staff que quiseram e quantas vezes consideraram necessárias, exibir qualquer documento que fosse solicitado.”>
“O trabalho policial sempre foi realizado com máxima liberdade e sempre seguimos à risca as determinações dos investigadores”, acrescenta o comunicado dos responsáveis pela fazenda.>
Mesmo no DHPP, o pai de Victoria avalia que a investigação avançou muito pouco.>
“Deixaram de fazer várias coisas, deixaram de colocar uma série de depoimentos no inquérito e tudo mais. Ao meu ver, foi uma investigação ruim e não foi bem conduzida”, declara João.>
O pai da garota afirma que um dos principais problemas foi o fato de que muitas provas foram deixadas de lado porque a apuração inicial, nos primeiros meses após o crime, seguiu a linha de que a jovem morreu de forma natural. >
Em nota à BBC News Brasil, a Polícia Civil de São Paulo nega que tenha havido falhas na investigação do caso e diz que “adotou todas as medidas de polícia judiciária cabíveis para esclarecer o caso.”>
Sem avanço ou qualquer suspeito, o inquérito foi encaminhado à Justiça e arquivado há cerca de um mês. A investigação só poderá ser reaberta se houver novas informações sobre o caso. >
Enquanto a investigação oficial segue arquivada, João assegura que não descansará até a prisão da pessoa que matou a sua filha.>
Nos últimos anos, ele teve algumas pequenas vitórias. Na área cível, a Justiça determinou que a escola pagasse uma indenização. No entanto, a unidade de ensino recorreu da decisão e pediu redução do valor. O caso segue em tramitação.>
Já no mês passado, a Justiça de São Paulo aceitou uma denúncia do Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP) e funcionários da Escola Waldorf Rudolf Steiner se tornaram réus por abandono de incapaz.>
Na denúncia, o MPSP apontou que os dois professores que estavam na excursão com Victoria "omitiram-se no seu dever legal, abandonando-a, deixando-a ir sozinha até a sede da fazenda, percurso longo e ermo.”>
Além dos dois, também se tornaram réus o gestor-executivo da escola, uma gestora pedagógica e a coordenadora do ensino médio.>
O MPSP apontou que eles “concordaram com a excursão com reduzido número de monitores e professores para monitorar e acompanhar os alunos de forma constante durante os dias na fazenda". O processo está em fase inicial. >
A reportagem procurou a escola, que disse, em nota, que adotou “todos os procedimentos de segurança necessários durante a viagem de estudo do meio e que, após a constatação da ausência de Victoria, as autoridades competentes foram contatadas.”>
“Esclarece, ainda, que em todas as atividades pedagógicas desenvolvidas – sejam na escola ou em ambiente externo - disponibiliza equipes de profissionais capacitados para acompanhamento de seus alunos”, acrescenta o comunicado da unidade de ensino.>
Na nota enviada, a escola não menciona especificamente sobre as questões judiciais do caso. Porém, lamenta a morte da jovem e afirma que “segue comprometida em contribuir com as autoridades e a justiça desde o primeiro dia das investigações.”>
A reportagem procurou a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo para saber se houve alguma punição do Estado à unidade de ensino. Em nota, a pasta afirma que chegou a apurar o funcionamento da escola na época, mas não constatou irregularidades no local. >
Para João, o caso da morte da filha é uma sequência de impunidades. Mas ele avalia que a recente implicação jurídica aos gestores e professores da escola traz “certo alívio”. Porém, ele reclama da demora. “Foram oito anos até que eles se tornassem réus”, pontua. >
Ele segue com iniciativas para buscar respostas sobre a morte da filha. Há três anos, João criou um abaixo-assinado online para cobrar que o caso seja solucionado. Ele já conseguiu quase 58 mil assinaturas. >
Nas redes sociais, João mantém páginas para divulgar novidades do caso da filha. No Instagram, ele tem perfil “Victoria Natalini vive”, em que compartilha as notícias sobre o crime.>
João ainda continua com uma investigação particular para tentar descobrir novidades e apresentar à polícia. Recentemente, anunciou uma recompensa de R$ 50 mil para quem fornecer informações.>
“Precisamos de qualquer informação que leve ao autor do crime. Não é possível que nenhuma pessoa tenha ouvido ou não saiba de qualquer coisa. Estou disposto a pagar e manter o sigilo dessa pessoa que nos passar uma pista que pode levar ao assassino”, conta.>
Em meio à incansável busca por justiça, João viveu anos de intenso desgaste emocional. Mas ele afirma que caso fosse preciso, faria tudo de novo. “É a minha filha, não me arrependo”, declara. >
Para ele, descobrir o que aconteceu com a adolescente é uma forma de honrar a memória de Victoria.>
* Com reportagem de Vitor Tavares>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta