Publicado em 26 de novembro de 2024 às 12:44
A Black Friday está chegando e, com ela, as aglomerações de consumidores dispostos a lutar para conseguir os melhores descontos e ofertas. >
Neste ano, as ofertas incluem até novos produtos e serviços de clínicas de reprodução humana. Como explicar esses níveis de consumo? Somos viciados em comprar? Nesse artigo questionamos essa ideia e revisamos a importância do contexto social nos nossos hábitos de consumo: quanto, o que e quando consumimos.>
O problema de comprar em excesso não é novo e as tentativas de explicar o fenômeno como resultado de um transtorno também não. Em 1915, o psiquiatra Emil Kraepelin o definiu como "mania por compras" ou "oniomania".>
Em 1924, Eugen Bleuler definiu comprar em excesso como um "impulso incontrolável por compras" ou "loucura impulsiva", juntamente com a cleptomania ou a piromania.>
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Recentemente, foi redefinido como transtorno aditivo ou obsessivo-compulsivo, apesar de não ter sido incluído nos manuais de diagnóstico de referência em saúde mental.>
Sem dúvida, a perda de controle nas compras, que persiste apesar das suas sérias consequências para o consumidor, é real. No entanto, os limites que separam os consumidores comuns daqueles que compram de maneira "patológica" não estão claros, e sua delimitação arbitrária de diagnóstico perpetua o mito de que a cura será mais fácil com tratamentos psicofarmacológicos.>
Ou seja, contribui para medicalizar mais um aspecto da vida cotidiana, apesar de não existir nenhum tratamento psicofarmacológico específico e eficaz para esse problema. Além disso, desvia a atenção do contexto social em que ocorre.>
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Para muitos consumidores com ou sem problemas, ir às compras funciona como ir à farmácia, como uma estratégia de enfrentamento para regular nosso humor. Portanto, as diferenças entre um consumidor e um consumidor com dependência parecem ser mais quantitativas que qualitativas.>
A perda de controle nas compras pode ser considerada não apenas um problema individual, mas um sintoma de um problema social. A expressão do consumismo, que se caracteriza pela compra ou acumulação de bens e serviços não essenciais, constitui o objetivo final da economia para garantir o crescimento constante.>
As marcas competem para vender mais e os consumidores por comprar mais. Segundo o economista Victor Lebow, o consumismo se converteu em um estilo de vida. Alguns dos fatores contextuais que contribuem para explicar a crescente perda de controle sobre as compras são:>
1) Aumento da facilidade em comprar pela internet e com cartões de crédito. Isso reduz o intervalo entre o impulso ou desejo de comprar e a finalização da compra. Atualmente, é possível comprar com um só clique.>
2) Os descontos, as ofertas e promoções limitados por tempo ou unidades favorecem a urgência da compra, porque supervalorizamos produtos difíceis de conseguir e supostamente escassos.>
3) Os meios de comunicação em massa e as redes sociais multiplicam as oportunidades de nos compararmos com pessoas de fora da nossa esfera de contato e classe social, aumentando, com isso, nossos desejos.>
4) A publicidade favorece compras que supervalorizam bens materiais desnecessários e gera novas necessidades que se satisfazem mediante o consumo materialista.>
5) As modas favorecem o consumo, desvalorizando rapidamente o valor do que é comprado e reforçando o desejo de comprar novos produtos.>
6) O narcisismo converte o consumo compulsivo em um ritual de autocomplacência voltado a satisfazer nossos egos.>
7) Os hábitos de consumo são indicadores de nosso status, aceitação e prestígio social. As compras constituem um meio para manter e alcançar o status desejado. Mesmo que isso signifique economizar menos ou se endividar, porque a impossibilidade de consumir afetaria nossa estima e reconhecimento social.>
Isso é importante porque, paradoxalmente, se incentiva o consumo em um contexto de poder aquisitivo cada vez mais desigual: oito pessoas ganham mais que a metade da população mundial.>
Além disso, os custos derivados da maximização das margens de lucro — produzindo mais, mais rápido e mais barato — estão se tornando cada vez mais evidentes, tanto em termos de precárias condições de trabalho, quanto em termos de grave deterioração ambiental.>
Assim, embora os níveis de consumo tenham atingido níveis recordes após a pandemia, os problemas de saúde mental também registram números recordes.>
O sucesso da Black Friday é um símbolo do êxito do consumismo como forma de vida na sociedade atual, onde consumimos, substituímos e descartamos num ritmo cada vez maior e, portanto, insustentável.>
A natureza irracional e compulsiva das compras, especialmente durante a Black Friday, seria o resultado esperável dentro do contexto disfuncional da nossa sociedade de consumo, enquanto um diagnóstico simplesmente rotula esse padrão de consumo irracional sem explicar por que ocorre.>
Como consequência, a redução das taxas de compras compulsivas não pode se limitar ao diagnóstico e tratamento de casos individuais, mas também atuar nos determinantes sociais do consumo. Não apenas adotando hábitos de consumo éticos, socialmente responsáveis e sustentáveis, mas também padrões de produção que vão além da busca pela maximização dos lucros para empresas privadas.>
Precisamos de mais cidadãos informados e participativos na tomada de decisões que os afetam e menos consumidores passivos, vulneráveis às estratégias de marketing e sem controle sobre o que, quanto e como consome e produz.>
*Pablo Ruisoto é professor de Psicologia da Universidade de Navarra>
Este artigo foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado aqui sob uma licença Creative Commons. Leia aqui a versão original (em espanhol).>
Esta reportagem foi publicada originalmente em 24 de novembro de 2021.>
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