Publicado em 19 de novembro de 2024 às 11:44
A Ucrânia foi autorizada pelos Estados Unidos a disparar mísseis de fabricação americana contra o território russo — uma decisão que pode fazer a guerra ganhar uma escala muito maior do que os limites atuais.>
O presidente dos EUA, Joe Biden — que está nos meses finais de seu mandato, antes da posse de Donald Trump —, permitiu que o líder ucraniano, Volodymir Zelensky, use esses armamentos não só para defender seu próprio território, como vinha acontecendo até agora, mas para atacar a Rússia.>
A Rússia reagiu dizendo que a decisão é uma provocação e que pode ser catastrófica — argumentando que isso equivaleria a uma participação direta dos EUA na guerra da Ucrânia.>
E nesta terça-feira (19/11), a Rússia disse que a Ucrânia já disparou mísseis americanos de longo alcance contra o país.>
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O ataque com mísseis americanos ATACMS (Army Tactical Missile System, ou sistema de mísseis táticos do exército) foi realizado pela Ucrânia na região de Bryansk nesta manhã, segundo Moscou.>
Cinco mísseis foram derrubados e um deles foi danificado, com seus fragmentos provocando um incêndio em uma instalação militar na região, segundo dados do governo russo. A nota afirma que o ataque provocou um incêndio, mas não houve fatalidades.>
Há mais de um ano, a Ucrânia vem usando mísseis ATACMS em territórios ucranianos ocupados pela Rússia. Mas essa é a primeira vez que os mísseis são usados contra a Rússia.>
Eles têm alcance de até 300km e são difíceis de serem interceptados.>
Com isso, Kiev ganhou a capacidade de atingir a Rússia em grandes distâncias dentro de seu território. A Ucrânia está ocupando mais de mil quilômetros quadrados do território russo. Autoridades americanas e ucranianas aguardam agora um contra-ataque russo.>
Na terça-feira, o presidente russo Vladimir Putin aprovou mudanças à doutrina nuclear russa, estabelecendo novas condições para que seu país considere usar seu arsenal. >
Qualquer ataque de um país não-nuclear apoiado por uma potência nuclear será considerado um ataque conjunto pela Rússia.>
A decisão dos EUA de aprovarem o uso de seus mísseis de longo alcance contra a Rússia vinha sendo debatida há meses.>
O presidente americano vinha sendo pressionado pela Ucrânia para permitir que mísseis ocidentais fossem usados para atacar a Rússia.>
Esses mísseis já são usados na guerra — mas, só para atacar posições russas dentro da Ucrânia ou na zona de fronteira. >
Os países ocidentais fornecedores desse tipo de armamento faziam essa restrição justamente para impedir que isso fosse visto como uma provocação direta ao presidente russo, Vladimir Putin.>
Só que Zelensky argumenta que, para continuar a se defender, é preciso atingir bases russas de onde são lançados ataques aéreos contra a Ucrânia.>
A imprensa americana noticiou que Biden resolveu acatar o pedido da Ucrânia e dar o aval para o uso de mísseis em alvos dentro da Rússia.>
Isso seria uma resposta ao fato de que a Rússia está recebendo batalhões de soldados norte-coreanos para fazer uma contraofensiva em Kursk, território russo que a Ucrânia conseguiu invadir em agosto.>
Ou seja: autorizar o uso desses mísseis seria uma forma de ajudar a Ucrânia a manter o controle desse pequeno território russo.>
Mísseis do tipo ATACMS estão entre as armas mais potentes que o Ocidente pode fornecer à Ucrânia — com a capacidade de atingir alvos difíceis, como bunkers e depósitos de munição, a cerca de 300 quilômetros de distância.>
Os mísseis custam caro: cada um vale cerca de US$ 1 milhão (R$ 5,5 milhões). Por isso, cada lançamento é feito após muito planejamento. Também por causa do alto custo, eles não são fornecidos em grande quantidade.>
O correspondente da BBC na Ucrânia, Paul Adams, diz que mísseis de longo alcance podem dar poder de reação a Kiev em um momento em que a Rússia amplia seus ataques.>
"Nenhum desses mísseis, isoladamente, pode ser capaz de mudar os rumos do conflito", diz Adams.>
"Embora eles não necessariamente vão mudar o curso da guerra de um jeito enfático, eu acho que oficiais ucranianos acreditam que seja um passo necessário para de alguma forma reequilibrar o poder militar, num momento em que eles sentem que estão sendo alvo de um avanço russo lento, intenso e permanente no Leste. Existe o sentimento de que a Ucrânia está muito na defensiva nos últimos meses.">
E o aval dos Estados Unidos pode levar outros países, como Reino Unido e França, a também autorizar o uso de mísseis de longo alcance, os Storm Shadows, dentro da Rússia.>
O Storm Shadow, de fabricação franco-britânica, tem capacidade parecida com a dos mísseis americanos.>
Mas as consequências do uso desses mísseis podem ser grandes.>
Mesmo antes de qualquer anúncio formal da Casa Branca, um porta-voz do Kremlin afirmou: “se essa decisão for de fato formulada e implementada pelo regime de Kiev, será uma nova rodada de tensões e uma nova situação do ponto de vista do envolvimento dos EUA no conflito”.>
O governo russo já havia dito em ocasiões anteriores que a permissão para que mísseis ocidentais fossem disparados no território russo colocaria Moscou em rota direta de confronto com a Otan, a aliança militar ocidental liderada pelos EUA.>
O estatuto da Otan determina que a agressão contra um Estado-membro da aliança equivale a uma agressão contra todos os membros da aliança.>
Ou seja, qualquer retaliação da Rússia contra um país da Otan seria uma escalada grande da guerra, envolvendo países que têm arsenal nuclear.>
Um senador russo chegou a descrever a medida americana como "um passo sem precedentes em direção à Terceira Guerra Mundial".>
Vladimir Putin ainda não se pronunciou sobre a decisão de Biden. Em setembro, ele havia dito: "Se essa decisão for tomada, significará nada menos que a participação direta de países da Otan – os EUA e a Europa – na guerra da Ucrânia".>
"Isso seria a participação direta deles e, é claro, muda significativamente a essência, a natureza do conflito", afirmou Putin na ocasião.>
Analistas não sabem dizer, no entanto, se a decisão de Biden será mantida depois que Donald Trump assumir o governo americano em janeiro.>
Trump tem sido crítico da política de Biden na Ucrânia e disse que acabaria com a guerra em apenas um dia – dando indícios de que ele talvez não queira ampliar o arsenal militar da Ucrânia, mas sim pressionar o país a sentar na mesa de negociações e ceder parte do seu território pra Rússia.>
Até agora, Zelensky tem resistido a essa ideia.>
"É claro que Vladimir Putin sabe que Donald Trump tem sido muito mais cético publicamente a oferecer assistência militar à Ucrânia", diz o editor da BBC em Moscou, Steve Rosenberg.>
"Então a que ponto isso vai afetar o cálculo dele a respeito? É uma questão interessante. Um dos jornais russos, ultra-alinhado ao Kremlin, sugere que, quando assumir o poder, Donald Trump pode ‘revisar’ essa decisão de Joe Biden. Teremos de esperar para ver.">
E no caso de uma retaliação russa?>
Não é fácil prever os próximos passos de Vladimir Putin, mas ele deu alguns sinais recentemente, dizendo que aumentaria os sistemas de defesa da Rússia pra destruir os mísseis ocidentais.>
E disse que forneceria armas russas para grupos e países adversários do Ocidente – potencialmente, ampliando as chances de alvos ocidentais pelo mundo serem atacados.>
Um dos grupos que poderia, em tese, ter acesso a armas russas são os houthis – grupo iemenita que atacou navios mercantes de bandeiras ocidentais em retaliação à ofensiva de Israel na Faixa de Gaza.>
É mais um sinal de como o conflito ganha contornos globais, para além das fronteiras de Rússia e Ucrânia.>
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