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Como medicina veterinária e ciência do comportamento animal ajudam consultora a entender 'enigmas felinos'

Brigas repentinas, agressividade e hábitos incomuns podem esconder problemas de saúde ou falhas no ambiente dos gatos, segundo especialistas em comportamento felino

Publicado em 08 de Junho de 2026 às 16:35

BBC News Brasil

Publicado em 

08 jun 2026 às 16:35
Imagem BBC Brasil
Crédito: Getty Images
Quatro gatos, três enigmas.
Dois gatinhos adotados juntos que se dão muito bem de repente começam a brigar.
Um casal, marido e mulher, se muda com seu gato do Rio de Janeiro para Belo Horizonte. De repente, o gato começa a agredir a mulher.
Uma gata deixa de usar a caixa de areia e começa a pegar peças de roupa suja de seu tutor para nelas "enterrar" suas fezes.
Os três comportamentos atípicos foram elucidados pela consultora em comportamento animal Letícia Orlandi.
Orlandi concluiu que, em dois dos casos, havia uma causa clínica para a alteração no comportamento dos animais. No terceiro, condições ambientais inadequadas estavam na origem do problema.
A ciência do comportamento animal vem se desenvolvendo, e o Brasil ocupa lugar de destaque nesse campo, diz Orlandi, que tem cursos de pós-graduação em comportamento animal pela Universidade Tuiuti do Paraná em parceria com o Instituto de Saúde e Psicologia Animal (INSPA) e pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Minas Gerais.
Em entrevista à BBC News Brasil, Orlandi conta como, com a ajuda de médicos veterinários e baseando-se em um número crescente de estudos sobre o comportamento felino, consegue compreender e reverter as estranhas condutas de seus idiossincráticos clientes.

Por que os gatos começaram a brigar?

Para saber se gatos estão brincando ou brigando, é preciso observarmos alguns sinais, diz a consultora.
"Gatinhos que estão brincando, brincam em silêncio, com as unhas recolhidas. Eles também exibem a barriga. Exibir a barriga um para o outro é um sinal de confiança", ela explica
As brigas, por outro lado, vêm acompanhadas de sons.
"Sons de dor, de defesa. Também chamamos de 'hissado', que vem do inglês (to hiss, sibilar), ou de 'som de cobrinha' ", diz.
Os gatos que haviam começado a brigar eram da mesma ninhada, um macho e uma fêmea, conta Letícia Orlandi.
Ela explica que adotar irmãos é uma ótima prática. Significa que os dois animais vão ter uma excelente convivência a vida inteira.
Os dois dormiam juntos, davam banho de lambida um no outro, brincavam juntos. Sinal de que tinham um bom relacionamento. Mas começaram a brigar.
Imagem BBC Brasil
Crédito: Getty Images
Além das brigas, o casal de irmãos passou a apresentar sinais físicos de agressões.
"Arranhões na orelha, no pescoço. Marcas de mordida. Quando a tutora começou a encontrar tufos de pelos pela casa, procurou a consultoria."
Parecia que, um belo dia, os dois animais tinham decidido que não gostavam mais um do outro. Orlandi explica que a mudança não é repentia, e que encontrar as causas dessa alteração de comportamento requer um minucioso trabalho de investigação.
"Fui conversando com essa tutora para saber tudo o que tinha acontecido na vida dela e dos gatos nos meses anteriores", prossegue a consultora.
Orlandi explica que se deu conta de que a gatinha tinha um vínculo forte com um homem com quem a tutora tinha tido um relacionamento. O namorado passava bastante tempo na casa dela e dormia lá com frequência. O relacionamento terminou, e o homem desapareceu da vida delas.
A gatinha então começou a manifestar algum desconforto quando ia à caixa de areia. Passou a miar no momento de urinar, algo que não fazia antes. Inicialmente, a dona da gata não mencionou o problema, que considerou uma questão menor.
Ela relatou apenas a questão das brigas entre os gatos. Os miados na caixa de areia tornaram-se mais frequentes. Quando a tutora finalmente falou deles a Orlandi, a consultora teve sua primeira pista.

O estresse e a saúde dos gatos

Muitos estudos relacionam o estresse à saúde física dos gatos.
Mas o estresse em gatos tem algumas particularidades.
Em um artigo intitulado Stress and Feline Health (em inglês, Estresse e Saúde Felina), publicado na revista científica Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, os veterinários Tony Buffington e Melissa Bain, da UC Davis School of Veterinary Medicine, relatam que as causas do estresse em gatos são eventos interpretados pelo animal como ameaças à sua percepção de controle.
Orlandi explica:
"Por exemplo, quando os gatos têm uma rotina muito imprevisível, eles perdem a sensação de controle sobre o território, sobre a própria vida. Isso produz estresse."
No mesmo artigo, os autores listam algumas das possíveis consequências clínicas do estresse em gatos:
"Além de infecção e inflamação, respostas ao estresse também podem ativar o trato urinário inferior (dos gatos domésticos)".
No entanto, os mecanismos que conectam o estresse psicossocial a transtornos físicos em felinos ainda não estão claros, acrescentam os autores.
E de volta à questão, o que estaria por trás da mudança no comportamento dos dois irmãos? Letícia Orlandi faz a seguinte análise:
"Em função da quebra de rotina (causada pelo desaparecimento do namorado da tutora), essa gatinha, que tinha um vinculo maior com ele, e que, provavelmente, é um animal mais sensível, teve um quadro relacionado ao estresse e desenvolveu uma infecção urinária."
Orlandi sugeriu que a gata fosse levada ao veterinário para exames e os testes confirmaram suas suspeitas.
Mas o que explica as brigas entre a gata e seu irmão?
A resposta, diz Orlandi, está em um comportamento muito comum em grupos de animais, entre eles, cães e gatos.
"Quando um dos animais está doente, os outros podem praticar agressão. Não é uma coisa anormal. Existe uma tentativa de afastamento daquele indivíduo que é considerado um possível transmissor de vulnerabilidade."
Provavelmente, o irmão havia percebido alterações sutis no comportamento da gata, um possível aumento discreto de temperatura, os miados ao urinar. E tinha começado a atacá-la.
"Então, houve esse conflito relacionado à 'agressão de enfermidade', como a gente chama."
Após ser avaliada pelo veterinário, a gata recebeu tratamento e curou-se da infecção.
"Ela teve uma recuperação rápida e em algumas semanas o comportamento dos irmãos já estava começando a voltar ao normal - dormirem juntinhos, um dar banho no outro."
Imagem BBC Brasil
Crédito: Getty Images

Por que o gato passou a agredir a tutora?

Outro caso de comportamento felino enigmático que Orlandi solucionou a partir de conversas detalhadas com tutores e investigações em parceria com uma equipe veterinária foi o do gato que passou a agredir a tutora.
"Às vezes, o tutor chega para nós com queixa de agressões e isso pode estar relacionado a algum incômodo físico, alguma dor que não foi identificada", diz.
Orlandi relembra o caso de dois clientes, marido e mulher, que a procuraram porque seu gato tinha começado a atacar a tutora.
"Identificamos que as agressões aconteciam no tempo mais frio. E que tinham passado a acontecer após esse gatinho se mudar do Rio de Janeiro, uma cidade mais quente, para Belo Horizonte, uma cidade menos quente."
O fato de que as agressões aconteciam em dias mais frios despertou em Orlandi a suspeita de que o gato estivesse sofrendo de dores ortopédicas. A associação entre dor em gatos com artrose e baixas temperaturas já foi bastante estudada, diz a consultora.
Os exames confirmaram que o gato tinha osteoartrite, mas o diagnóstico não explicava por que o gato agredia a tutora.
Para encaixar mais essa peça do quebra-cabeças, Orlandi lança mão de pesquisas que investigam a relação entre dor e comportamento agressivo em gatos.
Ela cita, por exemplo, um estudo intitulado Behavioural Signs of Pain in Cats: An Expert Consensus, (Sinais Comportamentais da Dor em Gatos: Um Consenso Entre Especialistas), publicado pela revista científica de livre acesso PLOS One (sigla para Public Library of Science).
"Este estudo tem um quadro muito interessante que mostra que alguns gatos com alto nível de dor apresentam comportamento frequente de tentar morder e arranhar."
Os autores enfatizam, no entanto, que o comportamento agressivo em si não é suficiente como indicativo de dor em gatos.

Dor e susto, receita para um trauma

Ainda não sabemos por que o gato agredia apenas a esposa e não seu marido. A explicação de Orlandi revela aspectos fascinantes do comportamento felino.
Segundo a consultora, o gato passou a agredir a tutora após viver um episódio traumático em que ela estava presente.
O cenário da primeira agressão, relatado pela tutora à consultora, é o seguinte:
Fazia frio e a mulher estava sozinha em casa. Agachada no banheiro, um espaço pequeno, ela limpava a caixa de areia do gato. Nesse momento, o animal entrou no recinto.
"Por conta da baixa temperatura, é muito provável que a dor do gato estivesse mais intensa. Para ele, aquela devia ser uma situação estressante. Talvez ele tenha se sentido encurralado, vulnerável, naquele lugar pequeno. Isso, somado à dor, fez com que ele se assustasse e a atacasse."
"Foi um arranhão significativo, ela precisou de cuidados médicos."
Imagem BBC Brasil
Crédito: Getty Images
"Quando o gato atacou, a mulher gritou, chorou e se levantou repentinamente".
Isso, prossegue Orlandi, assustou ainda mais o animal, aprofundando o trauma.
"E o que isso significa? Aquele gato associou aquele momento, aquela pessoa, aquele cheiro, aquela dor, a uma situação que para ele foi muito assustadora."
"E por fazer essa associação com essa pessoa, houve, sim, outros episódios de agressão. Então, os tutores procuraram a consultoria."
Orlandi conta que, feito o diagnóstico de osteoartrite, o gato recebeu medicação para dor, foi submetido a sessões de acupuntura e passou a se deitar sobre cobertores elétricos colocados em lugares estratégicos da casa.
Após o tratamento, "ele passou a ficar bem mais tranquilo, mais confortável, e a agressão deixou de existir", diz.
Mas a relação entre a tutora e o gato havia ficado abalada, ela conta.
"Fizemos um trabalho para que eles voltassem a ficar juntos, dormir juntos, ter uma relação saudável."
"Tem alguns comportamentos em gatos que parecem muito misteriosos, e são de difícil identificação. Na minha experiência, são aqueles ligados à agressão."

Terceiro enigma - Por que a gata estava enterrando suas fezes nas cuecas sujas do tutor?

Nem sempre, no entanto, comportamentos enigmáticos de gatos têm causas ligadas à saúde, explica Orlandi.
"Tive um caso, era um cliente com duas gatinhas. E uma das gatinhas passou a pegar as meias, as roupas, as cuecas que estavam no cesto de roupa suja dele para enterrar suas necessidades."
"Por que ela estava fazendo isso? Só faltou ela escrever uma carta para ele, ela estava demonstrando claramente qual era o problema", comenta a consultora.
O tutor tinha várias caixas de areia, todas instaladas em um mesmo cômodo, "aquele famoso quartinho que temos aqui no Brasil", ela diz.
"Para os gatos, isso significa uma caixa de areia só, ou um único ponto de eliminação, como a gente chama."
Na cabeça do ecliente, prossegue Orlandi, enquanto uma das caixas estivesse limpa, não era preciso limpar as outras.
"Por isso ele tinha várias. Ele limpava as caixas uma vez por semana."
Mas para um gato, isso significa que aquele ambiente está sujo, explica Orlandi.
"Então, para não enterrar as necessidades dela com aquele substrato sujo, a gata pegava a roupa - que na visão dela estava muito mais limpa - e cobria as necessidades."
Orlandi conta que, para solucionar o problema, o tutor passou a limpar as caixas de areia pelo menos uma vez por dia e também instalou mais um ponto de eliminação na casa.
"Ele nunca mais teve problemas."
"O comportamento felino precisa ser mais divulgado, sabe?", reflete a consultora.

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