Publicado em 20 de novembro de 2025 às 10:44
Machado de Assis, o maior escritor brasileiro de todos os tempos e idealizador da Academia Brasileira de Letras (ABL), não era branco — como muitas imagens em livros escolares o retratam. >
Assim como Chiquinha Gonzaga, um dos pilares mais importantes da música brasileira, que já foi interpretada por atrizes brancas.>
E talvez você não saiba, mas o Brasil já teve um presidente considerado negro: Nilo Peçanha governou o país de 1909 a 1910.>
"Toda pessoa afro que, ao longo da história, foi muito importante para a humanidade, acabou embranquecida ou neutralizada", diz à BBC News Brasil o filósofo e teólogo David Santos, frade franciscano e fundador da organização Educafro Brasil. >
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Para a pesquisadora em política públicas Roberta Basilio, a omissão da origem negra de personalidades históricas tem a ver com uma "necessidade de negar que uma pessoa negra possa ser tão genial".>
"O racismo precisa embranquecer as personalidades porque assim fica 'mais fácil' reconhecer a genialidade, o talento e a potência dessas pessoas", diz Basílio, professora na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).>
Especialistas entrevistados pela BBC News Brasil alertam para os limites de se usar termos e discussões contemporâneas sobre raça ao falar de histórias de outras épocas, quando muitos desses termos nem existiam.>
Mas eles também apontaram para a importância desse tipo de resgate por movimentos antirracistas atuais — até porque muitas dessas figuras sofreram racismo em vida.>
A seguir, confira histórias de personalidades famosas que foram "embranquecidas" ou tiveram sua origem negra pouco enfatizada ao longo do tempo.>
Quando Machado de Assis (1839-1908) morreu, sua certidão de óbito afirmava que sua cor era "branca". >
E foi com tons clareados que sua imagem povoou contracapas de suas obras e páginas de apostilas escolares durante todo o século 20.>
Sabe-se que ele era filho de pai pardo, alforriado, e mãe branca. >
Em vida, era considerado mulato. Ou "pessoa de cor", como se dizia comumente na época. >
Isso é possível de notar pelas poucas fotografias do escritor e também por cartas da época.>
Em 6 de junho de 1871, por exemplo, o poeta português Gonçalves Crespo (1846-1883) redigiu uma missiva ao brasileiro na qual afirmou que nutria "uma certa simpatia" por ele "quando me disseram que era… de cor como eu".>
No obituário publicado no Jornal do Commercio — escrito pelo jornalista e escritor José Veríssimo (1857-1916), que era seu amigo —, Assis foi definido como "mulato".>
Em conferências proferidas entre 1915 e 1917 sobre o legado de Machado, o jornalista, advogado e crítico Alfredo Pujol (1865-1930) pontuou que o escritor era filho "de um casal de gente de cor" e teria sofrido "agruras" por conta de "preconceitos de cor".>
E na biografia escrita por Lúcia Miguel Pereira (1901-1959), publicada em 1936, o escritor é chamado de "mulatinho", "mestiço" e "pardinho" pela autora.>
Gradualmente, contudo, Machado de Assis foi "embranquecido" em imagens reproduzidas em livros, inclusive os didáticos.>
Há, no entanto, esforços para tentar reverter esse processo. >
Em 2021, a Universidade Zumbi dos Palmares lançou uma campanha com um abaixo-assinado pressionando que as editoras deixassem de imprimir e comercializar livros em que o escritor aparecesse como branco.>
Outro exemplo importante é o escritor Lima Barreto (1881-1922). >
Filho de pais negros e neto de escravizados, ele sofreu preconceito ao longo da vida e parecia ter consciência racial — demonstrando isso em sua obra.>
O romance Recordações do Escrivão Isaías Caminha é considerado de teor autobiográfico por retratar preconceitos raciais e sociais.>
Conforme revelado em seu póstumo livro Diário Íntimo, quando tinha 23 anos, ele anotou que tinha a ideia de escrever um "romance em que se descrevam a vida e o trabalho dos negros numa fazenda". >
Barreto afirmou que pretendia fazer um "Germinal negro", aludindo ao clássico romance Germinal, do francês Émile Zola (1840-1902).>
Na biografia Lima Barreto: Triste Visionário, a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz destaca que os conflitos de cunho racial estavam sempre em evidência nos escritos de Barreto, seja nas tramas de seus livros, seja em suas anotações pessoais. >
A pesquisadora relata que quando o escritor, adolescente, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro e se viu como único afrodescendente em uma turma formada por brancos, filhos da elite, adquiriu consciência de sua negritude — e de como o racismo operava.>
Livros como o de Schwarcz têm contribuído para dar a devida contextualização racial a essas personalidades brasileiras. >
Para a pesquisadora Roberta Basilio, a mídia historicamente teve um papel nos "embranquecimentos" — como na escolha de atores e atrizes com peles mais claras que as pessoas reais retratadas nas novelas.>
Basílio cita como exemplo a minissérie da Globo que contou a história de Chiquinha Gonzaga (1847-1935) em 1999. >
Na trama, a musicista foi intepretada por duas atrizes brancas: Gabriela Duarte, quando jovem, e Regina Duarte, mais velha.>
Chiquinha era filha de uma negra liberta com um militar branco.>
Ela não só tinha consciência de sua origem racial como se envolveu intensamente na luta abolicionista durante a segunda metade do século 20. >
A musicista tinha muitos amigos negros e vendia partituras para comprar cartas de alforria — e, assim, libertar escravizados.>
Mas não há registros de que se via como negra. Em sua época, tinha a pele considerada morena.>
Até hoje, o Brasil só teve um presidente considerado negro: Nilo Peçanha (1867-1924).>
Vice de Afonso Pena (1847-1909), assumiu o cargo quando este morreu por pneumonia e presidiu o país entre 1909 e 1910.>
Fato é que, em seu tempo, oposicionistas classificavam o presidente como mulato como forma de desaboná-lo. >
Traços negros eram enfatizados em charges para atacá-lo. >
Na juventude, Nilo Peçanha participou da luta abolicionista e da campanha republicana.>
Senador de 1997 a 1999, o ator e intelectual negro Abdias do Nascimento (1914-2011), autor de obras como O Genocídio do Negro Brasileiro, enalteceu políticos afrodescendentes em seu discurso de posse e se lembrou da omissão da origem negra de Peçanha ao longo da história.>
Nascimento contou que, certa vez, chegou a aventar a possibilidade de escrever ele próprio um livro sobre "os grandes africanos que ajudaram a construir este país". Para tanto, procurou um descendente de Peçanha. >
"Resultado: fui repreendido por esse membro da família, que não admitia sequer a mestiçagem [dele], considerando tal versão uma infâmia", proferiu, em seu discurso.>
Na fala, Abdias do Nascimento não se limitou a abordar a negritude de Nilo Peçanha. >
Ele recordou outros políticos que, para ele, seriam considerados negros. E citou dois também ex-presidentes que, segundo suas pesquisas, teriam ancestralidade africana: Rodrigues Alves (1848-1919), que presidiu o país de 1902 a 1906; e Tancredo Neves (1910-1985), o primeiro civil escolhido para comandar o país após a ditadura, que morreu antes de tomar posse.>
Para Nascimento, os biógrafos de Rodrigues Alves se fixaram na nacionalidade portuguesa do pai do ex-presidente para ignorar a sua negritude, origem de sua mãe afro-brasileira, Isabel Perpétua.>
Sobre Tancredo Neves, Nascimento disse que não seria "leviano" afirmar que em suas "veias" corria "também o nobre sangue africano". >
Para tanto, dizia levar "em consideração seus traços fisionômicos, assim como de muitos de seus familiares".>
Abdias do Nascimento conhecia Tancredo Neves pessoalmente. Ele era deputado federal nos anos 1980 e integrou o colégio eleitoral que escolheu o mineiro para ser presidente na redemocratização.>
Um pouco depois da presidência de Nilo Peçanha, o Supremo Tribunal Federal (STF) teve seu primeiro membro afrodescendente, o jurista Pedro Lessa (1859-1921). >
Ele se considerava mulato e foi nomeado em 1907.>
No entanto, sua ascendência negra era tabu mesmo dentro da família. >
Em reportagem publicada em 2014 pela Folha de S. Paulo, uma de suas bisnetas, Lúcia Lessa, contou que só na adolescência soube que o ilustre antepassado tinha essa origem — e que, quando perguntada sobre, a mãe tentou desconversar.>
"Uma vez, minha irmã perguntou à minha mãe se ele era negro. Minha mãe tentou desconversar. Só com o tempo fomos entendendo isso", contou a bisneta ao jornal.>
Presidente do Brasil de 1919 a 1922, o jurista Epitácio Pessoa (1865-1942) era um dos muitos que debochavam das raízes africanas de Lessa com frases e termos racistas.>
Os irmãos André Rebouças (1838-1898) e Antônio Rebouças (1839-1874) são considerados os primeiros engenheiros negros do país e ganharam notoriedade profissional em vida. >
André Rebouças foi um ativo militante pelo fim do regime escravocrata, integrando a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão e a Confederação Abolicionista. >
Também foi um dos criadores dos estatutos da Associação Central de Emancipação dos Escravos. >
Nessa época, viajou aos Estados Unidos — onde, segundo relatos, sofreu preconceito racial. >
Mais tarde, nos anos 1890, trabalhou em Luanda, na Angola, por 15 meses. Também morou em Moçambique e na atual África do Sul. >
Só então passou a entender o continente africano como sua "terra de origem" e a se declarar como homem negro. >
Essa experiência é contada no livro Cartas da África - Registro de Correspondência 1891-1893, organizado pela historiadora Hebe Mattos, professora na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).>
Nessas cartas, Rebouças refere-se a si próprio como "africano" e como "Negro André", como constatou a historiadora.>
Já Antônio especializou-se em construção de portos marítimos e estradas de ferro na Europa, para onde foi em 1858 — ficaria quatro anos aprendendo técnicas inovadoras no velho continente. >
Voltou ao Brasil e planejou obras importantes, como a ferrovia que liga Curitiba a Paranaguá. Mas morreu cedo, aos 35 anos, vítima de malária — antes, inclusive, do auge da luta abolicionista.>
De acordo com Hebe Mattos, a questão racial permeou a trajetória da família Rebouças — que, apesar de ter circulado na elite da época, sofria preconceito, com comentários racistas e xingamentos evocando sua cor da pele.>
A mãe dos irmãos Rebouças era branca, mas o pai deles era filho de um alfaiate com uma mulher que algumas fontes acadêmicas dizem ter sido uma escravizada alforriada, outras nascida livre. >
O político e advogado Antônio Pereira Rebouças (1798-1880) pisava em ovos ao se posicionar na alta sociedade soteropolitana, que frequentava.>
Defendia medidas que diminuíssem a escravidão do Brasil, como o fim do tráfico negreiro, mas tomava cuidado em seus posicionamentos porque temia ser visto como radical.>
Ele se definia como "liberal moderado" e afirmava acreditar na igualdade dos direitos civis para todos os brasileiros — deixando implícito que a cor da pele não deveria ser empecilho. Mas era contra revoltas e motins, argumentando que as mudanças deveriam vir pela política.>
André Rebouças, que viu o Brasil pós-abolição, teve um fim de vida melancólico, decepcionado. Ele argumentava que sem a democratização no acesso a terras e propriedades, o problema racial do país não seria resolvido.>
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Em outras partes do mundo, a origem negra de personalidades notáveis também vem sendo resgatada.>
Autor de O Conde de Monte Cristo e de Os Três Mosqueteiros, o francês Alexandre Dumas (1802-1870) era neto de uma ex-escravizada e, nos últimos anos, tem tido sua negritude destacada por movimentos antirracistas.>
O poeta, escritor e dramaturgo russo Alexandre Pushkin (1799-1837) é outro exemplo. >
Seu bisavô materno era um africano que foi sequestrado de sua terra natal e acabou criado na corte como afilhado da então imperatriz.>
Mas faz sentido colocar a questão da negritude olhando para personagens que talvez não questionassem isso — ou, se o faziam, era com outros critérios que não os atuais?>
Para David Santos, sim. >
"Todos eles são vítimas de uma sociedade que nunca trabalhou o letramento racial como proposta do reino de Deus. Eles não escolheram negar sua identidade afro", diz o frade franciscano e teólogo. >
"A sociedade de seu tempo impôs a eles essa postura. Resgatá-los, hoje, é nossa missão.">
O historiador Philippe Arthur dos Reis, professor na Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), faz uma ressalva: ele considera a palavra "embranquecimento" inadequada nesta discussão. >
"Por causa da própria concepção de negritude e de branquitude, que se diferencia com o passar do tempo", aponta.>
A questão do racismo, lembra ele, é um problema da modernidade.>
A linguista Ana Azevedo Bezerra Felicio, pesquisadora, ativista e autora do livro O amor não está à venda, ratifica isso. Ela aponta que "negro" é uma categoria surgida com os movimentos antiescravagistas.>
"É muito importante olharmos para a diversidade no passado para refletirmos como a nossa sociedade veio a ficar dividida deste jeito, mesmo que essas divisões [étnicas] não fossem tão relevantes no passado", diz ela.>
Para Roberta Basílio, o resgate da negritude de personalidades já consagradas, como Machado de Assis, tem um efeito importante porque as pessoas já reconhecem "o talento e a inteligência" dessas figuras.>
Em outras palavras, parte-se da obra já celebrada para acrescentar o lembrete: foi uma pessoa negra quem fez.>
"Mostramos que somos potência. E eu digo nós porque sou uma mulher negra. E isso tem um peso muito grande para nós, como representatividade", frisa ela, lembrando que, em seus tempos de escola, os protagonistas da história eram sempre brancos e os negros, inferiorizados.>
Para Reis, trazer à tona a identidade negra de tais figuras importantes tem um impacto "simbólico" e "afetivo". >
"Mas a simples menção a isso não resolve o problema. Tem de ter a efetiva transformação dos espaços", cobra o professor.>
Arte por Caroline Souza, da Equipe de Jornalismo visual da BBC News Brasil>
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