Publicado em 1 de abril de 2025 às 09:38
Na véspera do esperado anúncio do presidente americano Donald Trump de uma série de novas tarifas contra diversos países do mundo, o governo dos EUA divulgou um relatório detalhado no qual analisa as práticas comerciais de diversos países do mundo — inclusive o Brasil, que é acusado de "falta de previsibilidade" no documento.>
O presidente americano se prepara para revelar uma enorme lista de impostos de importação nesta quarta-feira (2/4) para todos os países, não só aqueles com desequilíbrio comercial com os EUA.>
Trump está chamando esse dia de "Dia da Libertação da América".>
O departamento de comércio do governo americano (USTR, na sigla em inglês) publicou na terça-feira (31/3) seu relatório anual Estimativa Nacional de Comércio, no qual detalha as barreiras comerciais enfrentadas pelos exportadores americanos.>
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O relatório é usado para ajudar o governo americano a determinar sua política comercial com outros países.>
"Nenhum presidente americano na história moderna reconheceu as barreiras comerciais externas abrangentes e prejudiciais que os exportadores americanos enfrentam mais do que o presidente Trump", disse diretor do USTR, Jamieson Greer, ao divulgar o relatório. >
"Sob sua liderança, esta administração está trabalhando com diligência para abordar essas práticas injustas e não recíprocas, ajudando a restaurar a justiça e a colocar as empresas e os trabalhadores americanos em primeiro lugar no mercado global.">
Os EUA já haviam anunciado nas últimas semanas tarifas de importação sobre alumínio e aço que tiveram impacto direto na indústria brasileira.>
A postura mais dura de Trump aumentou o nervosismo sobre uma guerra comercial atingindo a economia global. Mercados de ações tiveram forte queda esta semana.>
O Brasil é destacado em seis das 397 páginas do relatório do governo americano.>
"O Brasil impõe tarifas relativamente altas sobre importações em uma ampla gama de setores, incluindo automóveis, peças automotivas, tecnologia da informação e eletrônicos, produtos químicos, plásticos, máquinas industriais, aço e têxteis e vestuário", afirma o documento americano.>
"Os exportadores dos EUA enfrentam incertezas significativas no mercado brasileiro porque o governo frequentemente modifica as taxas tarifárias dentro das flexibilidades do Mercosul.">
"A falta de previsibilidade com relação às taxas tarifárias torna difícil para os exportadores dos EUA preverem os custos de fazer negócios no Brasil.">
Há uma série de reivindicações específicas sobre os problemas da relação comercial entre EUA e Brasil, do ponto de vista de produtores americanos e do governo.>
É o caso do etanol, por exemplo. O relatório Estimativa Nacional de Comércio diz que entre 2011 e 2017, o comércio do produto entre EUA e Brasil era praticamente livre de tarifas. Em setembro de 2017, o Brasil começou a impor tarifas. Desde 2024, o Brasil impõe tarifa de 18% sobre o etanol americano, segundo o relatório.>
"Os Estados Unidos continuam se engajando com o Brasil para reduzir sua tarifa de etanol para fornecer tratamento recíproco ao comércio de etanol entre os EUA e o Brasil.">
O relatório destaca alguns impostos do Brasil que têm impacto sobre produtos americanos:>
O governo americano também registra a reclamação de alguns setores americanos a regras de licenciamento de importação — produtos e serviços que precisam de uma autorização específica de ministérios e agências para poderem ser importados.>
É o caso, por exemplo, de bebidas e farmacêuticos, que precisam de liberação do ministério da Agricultura e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), respectivamente.>
"Uma lista de produtos sujeitos a procedimentos de licenciamento de importação não automáticos está disponível no sistema de documentação informatizada da Secretaria de Comércio Exterior, mas informações específicas relacionadas a requisitos de licenciamento de importação não automático e explicações para rejeições de pedidos de licença de importação não automáticos não estão disponíveis", diz o governo americano.>
"A falta de transparência em torno desses procedimentos é um impedimento para as exportações dos EUA.">
O governo americano cita que há reclamações de exportadores americanos de calçados e vestuário e do setor automotivo.>
"Para automóveis, atrasos na emissão de licenças de importação não automáticas afetam negativamente as exportações de automóveis e peças automotivas dos EUA para o Brasil.">
"As empresas dos EUA continuam reclamando de requisitos de documentação inconsistentes para a importação de certos tipos de bens, como equipamentos pesados. Esses requisitos de documentação se aplicam mesmo se as importações forem temporárias e destinadas ao uso em outros países.">
Na parte de tecnologia, os americanos reclamam da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) do Brasil, que restringe a transferência de dados pessoais para fora do Brasil.>
"Os regulamentos que implementam essas restrições foram publicados em agosto de 2024, com um período de transição de 12 meses para as empresas. A implementação tardia de mecanismos aprovados para transferências internacionais de dados (por exemplo, certificações, códigos de conduta e cláusulas contratuais) criou incerteza para as empresas e obstáculos ao processamento e compartilhamento rotineiros de dados para fins comerciais", diz o governo americano.>
"Os EUA incentivaram o Brasil a trabalhar em estreita colaboração com empresas e organizações afetadas pela LGPD para resolver problemas de implementação e execução de forma razoável e consistente.">
Sobre o programa RenovaBio, de promoção de energia renovável, o governo americano reclama que as empresas americanas não podem participar do mercado de créditos de carbono — um pleito dos EUA junto ao governo brasileiro.>
Na agropecuária, os produtores americanos de carne suína pedem acesso ao mercado brasileiro.>
"O mercado do Brasil ainda está fechado para carne suína fresca e congelada dos EUA devido às preocupações do Brasil de que os produtos de carne suína importados para os EUA da União Europeia aumentam os riscos associados à Peste Suína Africana", afirma o relatório.>
"O Brasil não forneceu evidências científicas que apoiem a proibição e a ela parece ser inconsistente com os padrões internacionais da Organização Mundial de Saúde Animal. As discussões entre o departamento de Agricultura dos EUA e o ministério da Agricultura do Brasil estão em andamento, mas ainda precisam estabelecer acesso para exportações de carne suína dos EUA para o Brasil.">
O governo americano reclama também:>
O Brasil prepara uma resposta à guerra comercial de Trump.>
Uma comissão do Senado deve votar nesta terça-feira (1/4) um projeto que cria a Lei da Reciprocidade. >
O texto prevê que o Conselho Estratégico da Câmara de Comércio Exterior (Camex) seja o órgão responsável por medidas de retaliação a "ataques à soberania do Brasil".>
O projeto de lei afirma que "as contramedidas previstas deverão ser, na medida do possível, proporcionais ao impacto econômico causado pelas ações, políticas ou práticas".>
A Lei da Reciprocidade prevê que a Camex realize consultas públicas com partes interessadas, determine prazos para análise de reclamações e sugira contramedidas.>
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