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Ofensas

Após ser chamado de fraco, papa reage e diz que não tem medo de Donald Trump

Esse é o mais explícito confronto entre os dois desde que Robert Prevost foi eleito papa, em maio do ano passado, o primeiro americano da história a liderar a Igreja Católica.
Agência FolhaPress

Publicado em 

13 abr 2026 às 19:18

Publicado em 13 de Abril de 2026 às 19:18

MILÃO, ITÁLIA (FOLHAPRESS) - Depois de semanas de crescente tensão entre o papa Leão 14 e Donald Trump, as críticas de um para o outro deixaram o campo das indiretas e se tornaram um bate-boca à distância.
O cardeal americano Robert Prevost, de 69 anos, recém-eleito Papa Leão XIV, aparece na sacada da Basílica de São Pedro, no Vaticano
O cardeal americano Robert Prevost, de 69 anos, recém-eleito Papa Leão XIV, aparece na sacada da Basílica de São Pedro, no Vaticano Crédito: ANDREW MEDICHINI/AP
Após ser chamado, na noite de domingo (12), de "terrível" e "fraco" pelo presidente dos Estados Unidos, o pontífice respondeu na manhã desta segunda (13). "Não tenho medo da administração Trump. Vou continuar a falar em voz alta da mensagem do Evangelho", disse.
Esse é o mais explícito confronto entre os dois desde que Robert Prevost foi eleito papa, em maio do ano passado, o primeiro americano da história a liderar a Igreja Católica.
A declaração de Leão 14 foi dada a jornalistas durante o voo de Roma para Argel, capital da Argélia, primeira etapa da sua viagem de dez dias pelo continente africano.
"Não sou um político, não quero entrar em debate com ele", disse em referência a Trump. "Não acho que a mensagem do Evangelho deva ser abusada como alguns estão fazendo. Eu vou continuar a falar forte contra a guerra, buscando promover a paz, o diálogo e o multilateralismo entre os Estados para encontrar soluções", disse o papa.
"Muita gente está sofrendo hoje, muitos inocentes foram mortos e penso que alguém deve se levantar e dizer que existe uma via melhor", afirmou Leão 14.
Horas antes, Trump havia publicado em sua rede social uma longa mensagem em que chamou o papa de "fraco com a criminalidade e terrível para a política externa". "Não quero um papa que ache que é OK o Irã ter uma arma nuclear. Não quero um papa que pense que é terrível que os EUA ataquem a Venezuela."
O presidente disse ainda que Leão 14 deveria ser grato por, segundo ele, ter sido escolhido como papa somente por ter nascido nos EUA. "Eles [a Igreja] acharam que seria o melhor modo de lidar com o presidente Donald J. Trump."
O ataque é considerado sem precedentes no passado recente. Apesar de críticas de Francisco à política imigratória do primeiro governo de Trump, em especial a construção do muro na fronteira com o México, e de João Paulo 2o à invasão de George W. Bush no Iraque, nunca um papa havia sido alvo de palavras tão duras de um presidente americano.
Mais tarde, Trump lançou outra provocação, ao publicar uma imagem gerada por inteligência artificial em que ele aparece vestido como se fosse Jesus, com a mão apoiada sobre a testa de um homem aparentemente doente e com a bandeira dos EUA ao fundo. Horas depois, a publicação foi apagada de suas redes sociais. Ainda assim, o presidente disse que não iria se desculpar com o pontífice.
As ofensas a Leão 14 acontecem depois de semanas de apelos do papa pelo fim do conflito no Irã promovido pelos EUA e por Israel. No sábado, o pontífice comandou uma vigília na Basílica de São Pedro, em que condenou o uso de linguajar religioso para justificar a guerra. "A ilusão de onipotência que nos rodeia está se tornando cada vez mais imprevisível", disse.
Na véspera, afirmara que "Deus não abençoa nenhum conflito" e que "discípulos de Cristo jamais se aliam àqueles que ontem empunhavam a espada e hoje lançam bombas".
Também na semana passada, Prevost havia sugerido que os cidadãos, sem nomear de qual país, pressionassem "congressistas" e "autoridades", comunicando a eles que desejavam a paz.
Nos últimos dias, foi revelado ainda que, em encontro ocorrido no Pentágono em janeiro, o Vaticano teria sido pressionado, por meio de seu embaixador no país, a se alinhar às políticas militares dos EUA. Segundo o site The Free Press, teria sido feita uma referência ao papado de Avignon, onde, no século 14, o rei da França teve um "antipapa" em oposição a Roma. O Pentágono afirmou que se tratou apenas de uma discussão "respeitosa".
Na Itália, os ataques de Trump ao papa foram seguidos de notas de apoio divulgadas pelo presidente da República, Sergio Mattarella, e a primeira-ministra Giorgia Meloni. Oficialmente, as mensagens foram em razão da viagem ao continente africano.
"Em meu nome e do governo italiano, desejo transmitir ao papa Leão 14 meu agradecimento e votos de sucesso para o bom êxito da sua viagem. Que o ministério do Santo Padre possa favorecer a resolução de conflitos e a volta da paz, interna e entre as nações", escreveu Meloni no Instagram, com uma foto sua com o papa.
Horas depois, ela escreveu em comunicado que as declarações de Trump sobre o pontífice são inaceitáveis. "O papa é o chefe da Igreja Católica, e é correto e normal que ele peça a paz e condene todas as formas de guerra."
Meloni, que se apresentou como aliada assim que Trump voltou à Casa Branca e possível intermediadora entre EUA e União Europeia, tem sido menos explícita no apoio ao presidente americano nas últimas semanas.
A Conferência Episcopal Italiana, equivalente à brasileira CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), condenou as palavras de Trump. "Lembramos que o papa não é um adversário político, mas o sucessor de Pedro", disse em nota. "Em um tempo marcado por conflitos e tensões internacionais, a sua voz representa um apelo exigente à dignidade humana, ao diálogo e à responsabilidade."

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