Publicado em 23 de setembro de 2025 às 12:33
Nesta terça-feira (23/9), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) subiu ao púlpito da Assembleia Geral da ONU pela décima vez.>
Em seu discurso, o presidente brasileiro afirmou que o multilateralismo "está diante de nova encruzilhada" e que a autoridade das Nações Unidas está em xeque.>
Lula defendeu maior participação dos países do sul global em questões internacionais, como a guerra da Ucrânia.>
"A Iniciativa Africana e o Grupo de Amigos da Paz, criado por China e Brasil, podem contribuir para promover o diálogo", disse. "A voz do Sul Global deve ser ouvida.">
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Sobre conflitos globais, Lula afirmou que "nenhuma situação é mais emblemática do uso desproporcional e ilegal da força do que a da Palestina".>
"Os atentados terroristas perpetrados pelo Hamas são indefensáveis sob qualquer ângulo. Mas nada, absolutamente nada, justifica o genocídio em curso em Gaza.">
O presidente também falou sobre mudanças climáticas e a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), que ocorre em novembro no Pará.>
"Em Belém, o mundo vai conhecer a realidade da Amazônia", disse Lula. "Será o momento de os líderes mundiais provarem a seriedade de seu compromisso com o planeta.">
"Nações em desenvolvimento enfrentam a mudança do clima ao mesmo tempo em que lutam contra outros desafios. Enquanto isso, países ricos usufruem de padrão de vida obtido às custas de duzentos anos de emissões.">
Sem citar o governo de Donald Trump, que falou em seguida ao presidente brasileiro, Lula criticou "sanções arbitrárias" e "intervenções unilaterais".>
No início de julho, Trump anunciou em suas redes sociais a taxação em 50% de produtos brasileiros, justificando para isso a suposta "caça às bruxas" a que Bolsonaro estaria sendo submetido na Justiça brasileira.>
Cerca de 700 produtos acabaram depois isentos da taxação.>
Também em julho, o governo Trump anunciou a abertura de uma investigação comercial contra o Brasil, mirando em vários assuntos, do Pix ao desmatamento.>
Em seu discurso, o presidente brasileiro disse que a condenação de Jair Bolsonaro (PL) por golpe de Estado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) é um "recado aos candidatos a autocratas do mundo e àqueles que os apoiam".>
"O Brasil deu um recado a todos os candidatos a autocratas e àqueles que os apoiam: nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis.">
O presidente falou sobre o autoritarismo e a soberania. "O autoritarismo se fortalece quando nos omitimos frente à arbitrariedade", afirmou. "Seguiremos como nação independente e povo livre de qualquer tipo de tutelas.">
Na segunda-feira (22/09), o Departamento de Estado americano anunciou que a advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, seria punida pela Lei Magnitsky.>
Moraes, relator da ação penal que condenou por golpe de Estado e outros crimes o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) — alinhado ideologicamente a Trump —, já havia sido submetido à Magnitsky no fim do julho.>
A aplicação dessa lei é umas das punições mais severas disponíveis contra estrangeiros considerados pelos EUA autores de graves violações de direitos humanos e práticas de corrupção.>
Abaixo, confira a íntegra do discurso do presidente brasileiro.>
Senhora Presidenta da Assembleia Geral, Annalena Baerbock,>
Senhor Secretário-Geral, António Guterres,>
Caros chefes de Estado e de Governo e representantes dos Estados-Membros aqui reunidos.>
Este deveria ser um momento de celebração das Nações Unidas.>
Criada no fim da Guerra, a ONU simboliza a expressão mais elevada da aspiração pela paz e pela prosperidade.>
Hoje, contudo, os ideais que inspiraram seus fundadores em São Francisco estão ameaçados, como nunca estiveram em toda a sua história.>
O multilateralismo está diante de nova encruzilhada.>
A autoridade desta Organização está em xeque.>
Assistimos à consolidação de uma desordem internacional marcada por seguidas concessões à política do poder.>
Atentados à soberania, sanções arbitrárias e intervenções unilaterais estão se tornando a regra.>
Existe um evidente paralelo entre a crise do multilateralismo e o enfraquecimento da democracia.>
O autoritarismo se fortalece quando nos omitimos frente a arbitrariedades.>
Quando a sociedade internacional vacila na defesa da paz, da soberania e do direito, as consequências são trágicas.>
Em todo o mundo, forças antidemocráticas tentam subjugar as instituições e sufocar as liberdades.>
Cultuam a violência, exaltam a ignorância, atuam como milícias físicas e digitais, e cerceiam a imprensa.>
Mesmo sob ataque sem precedentes, o Brasil optou por resistir e defender sua democracia, reconquistada há quarenta anos pelo seu povo, depois de duas décadas de governos ditatoriais.>
Não há justificativa para as medidas unilaterais e arbitrárias contra nossas instituições e nossa economia.>
A agressão contra a independência do Poder Judiciário é inaceitável.>
Essa ingerência em assuntos internos conta com o auxílio de uma extrema direita subserviente e saudosa de antigas hegemonias.>
Falsos patriotas arquitetam e promovem publicamente ações contra o Brasil.>
Não há pacificação com impunidade.>
Há poucos dias, e pela primeira vez em 525 anos de nossa história, um ex-chefe de Estado foi condenado por atentar contra o Estado Democrático de Direito.>
Foi investigado, indiciado, julgado e responsabilizado pelos seus atos em um processo minucioso.>
Teve amplo direito de defesa, prerrogativa que as ditaduras negam às suas vítimas.>
Diante dos olhos do mundo, o Brasil deu um recado a todos os candidatos a autocratas e àqueles que os apoiam: nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis.>
Seguiremos como nação independente e como povo livre de qualquer tipo de tutela.>
Democracias sólidas vão além do ritual eleitoral.>
Seu vigor pressupõe a redução das desigualdades e a garantia dos direitos mais elementares: a alimentação, a segurança, o trabalho, a moradia, a educação e a saúde.>
A democracia falha quando as mulheres ganham menos que os homens ou morrem pelas mãos de parceiros e familiares.>
Ela perde quando fecha suas portas e culpa migrantes pelas mazelas do mundo.>
A pobreza é tão inimiga da democracia quanto o extremismo.>
Por isso, foi com orgulho que recebemos da FAO a confirmação de que o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome neste ano de 2025.>
Mas no mundo, ainda há 670 milhões de pessoas famintas. Cerca de 2,3 bilhões enfrentam insegurança alimentar.>
A única guerra de que todos podem sair vencedores é a que travamos contra a fome e a pobreza.>
Esse é o objetivo da Aliança Global que lançamos no G20, que já conta com o apoio de 103 países.>
A comunidade internacional precisar rever as suas prioridades:>
- Reduzir os gastos com guerras e aumentar a ajuda ao desenvolvimento;>
- Aliviar o serviço da dívida externa dos países mais pobres, sobretudo os africanos; e>
- Definir padrões mínimos de tributação global, para que os super-ricos paguem mais impostos que os trabalhadores.>
A democracia também se mede pela capacidade de proteger as famílias e a infância.>
As plataformas digitais trazem possibilidades de nos aproximar como jamais havíamos imaginado.>
Mas têm sido usadas para semear intolerância, misoginia, xenofobia e desinformação.>
A internet não pode ser uma "terra sem lei". Cabe ao poder público proteger os mais vulneráveis.>
Regular não é restringir a liberdade de expressão. É garantir que o que já é ilegal no mundo real seja tratado assim no ambiente virtual.>
Ataques à regulação servem para encobrir interesses escusos e dar guarida a crimes, como fraudes, tráfico de pessoas, pedofilia e investidas contra a democracia.>
O Parlamento brasileiro corretamente apressou-se em abordar esse problema.>
Com orgulho, promulguei na última semana uma das leis mais avançadas do mundo para a proteção de crianças e adolescentes na esfera digital.>
Também enviamos ao Congresso Nacional projetos de lei para fomentar a concorrência nos mercados digitais e para incentivar a instalação de datacenters sustentáveis.>
Para mitigar os riscos da inteligência artificial, apostamos na construção de uma governança multilateral em linha com o Pacto Digital Global aprovado neste plenário no ano passado.>
Senhoras e senhores,>
Na América Latina e Caribe, vivemos um momento de crescente polarização e instabilidade.>
Manter a região como zona de paz é nossa prioridade.>
Somos um continente livre de armas de destruição em massa, sem conflitos étnicos ou religiosos.>
É preocupante a equiparação entre a criminalidade e o terrorismo.>
A forma mais eficaz de combater o tráfico de drogas é a cooperação para reprimir a lavagem de dinheiro e limitar o comércio de armas.>
Usar força letal em situações que não constituem conflitos armados equivale a executar pessoas sem julgamento.>
Outras partes do planeta já testemunharam intervenções que causaram danos maiores do que se pretendia evitar, com graves consequências humanitárias.>
A via do diálogo não deve estar fechada na Venezuela.>
O Haiti tem direito a um futuro livre de violência.>
E é inadmissível que Cuba seja listada como país que patrocina o terrorismo.>
No conflito na Ucrânia, todos já sabemos que não haverá solução militar.>
O recente encontro no Alaska despertou a esperança de uma saída negociada.>
É preciso pavimentar caminhos para uma solução realista.>
Isso implica levar em conta as legítimas preocupações de segurança de todas as partes.>
A Iniciativa Africana e o Grupo de Amigos da Paz, criado por China e Brasil, podem contribuir para promover o diálogo.>
Nenhuma situação é mais emblemática do uso desproporcional e ilegal da força do que a da Palestina.>
Os atentados terroristas perpetrados pelo Hamas são indefensáveis sob qualquer ângulo.>
Mas nada, absolutamente nada, justifica o genocídio em curso em Gaza.>
Ali, sob toneladas de escombros, estão enterradas dezenas de milhares de mulheres e crianças inocentes.>
Ali também estão sepultados o Direito Internacional Humanitário e o mito da superioridade ética do Ocidente.>
Esse massacre não aconteceria sem a cumplicidade dos que poderiam evitá-lo.>
Em Gaza a fome é usada como arma de guerra e o deslocamento forçado de populações é praticado impunemente.>
Expresso minha admiração aos judeus que, dentro e fora de Israel, se opõem a essa punição coletiva.>
O povo palestino corre o risco de desaparecer.>
Só sobreviverá com um Estado independente e integrado à comunidade internacional.>
Esta é a solução defendida por mais de 150 membros da ONU, reafirmada ontem, aqui neste mesmo plenário, mas obstruída por um único veto.>
É lamentável que o presidente Mahmoud Abbas tenha sido impedido pelo país anfitrião de ocupar a bancada da Palestina nesse momento histórico.>
O alastramento desse conflito para o Líbano, a Síria, o Irã e o Catar fomenta escalada armamentista sem precedentes.>
Senhora presidenta,>
Bombas e armas nucleares não vão nos proteger da crise climática.>
O ano de 2024 foi o mais quente já registrado.>
A COP30, em Belém, será a COP da verdade.>
Será o momento de os líderes mundiais provarem a seriedade de seu compromisso com o planeta.>
Sem ter o quadro completo das Contribuições Nacionalmente Determinadas (as NDCs), caminharemos de olhos vendados para o abismo.>
O Brasil se comprometeu a reduzir entre 59 e 67% suas emissões, abrangendo todos os gases de efeito estufa e todos os setores da economia.>
Nações em desenvolvimento enfrentam a mudança do clima ao mesmo tempo em que lutam contra outros desafios.>
Enquanto isso, países ricos usufruem de padrão de vida obtido às custas de duzentos anos de emissões.>
Exigir maior ambição e maior acesso a recursos e tecnologias não é uma questão de caridade, mas de justiça.>
A corrida por minerais críticos, essenciais para a transição energética, não pode reproduzir a lógica predatória que marcou os últimos séculos.>
Em Belém, o mundo vai conhecer a realidade da Amazônia.>
O Brasil já reduziu pela metade o desmatamento na região nos dois últimos anos.>
Erradicá-lo requer garantir condições dignas de vida para seus milhões de habitantes.>
Fomentar o desenvolvimento sustentável é o objetivo do Fundo Florestas Tropicais para Sempre, que o Brasil pretende lançar para remunerar os países que mantêm suas florestas em pé.>
É chegado o momento de passar da fase de negociação para a etapa de implementação.>
O mundo deve muito ao regime criado pela Convenção do Clima.>
Mas é necessário trazer o combate à mudança do clima para o coração da ONU, para que ela tenha a atenção que merece.>
Um Conselho vinculado à Assembleia Geral com força e legitimidade para monitorar compromissos dará coerência à ação climática.>
Trata-se de um passo fundamental na direção de uma reforma mais abrangente da Organização, que contemple também um Conselho de Segurança ampliado nas duas categorias de membros.>
Poucas áreas retrocederam tanto como o sistema multilateral de comércio.>
Medidas unilaterais transformam em letra morta princípios basilares como a cláusula de Nação Mais Favorecida.>
Desorganizam cadeias de valor e lançam a economia mundial em uma espiral perniciosa de preços altos e estagnação.>
É urgente refundar a OMC em bases modernas e flexíveis.>
Senhoras e senhores,>
Este ano, o mundo perdeu duas personalidades excepcionais: o ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica, e o Papa Francisco.>
Ambos encarnaram como ninguém os melhores valores humanistas.>
Suas vidas se entrelaçaram com as oito décadas de existência da ONU.>
Se ainda estivessem entre nós, provavelmente usariam esta tribuna para lembrar:>
- Que o autoritarismo, a degradação ambiental e a desigualdade não são inexoráveis;>
- Que os únicos derrotados são os que cruzam os braços, resignados;>
- Que podemos vencer os falsos profetas e oligarcas que exploram o medo e monetizam o ódio; e>
- Que o amanhã é feito de escolhas diárias e é preciso coragem de agir para transformá-lo.>
No futuro que o Brasil vislumbra não há espaço para a reedição de rivalidades ideológicas ou esferas de influência.>
A confrontação não é inevitável.>
Precisamos de lideranças com clareza de visão, que entendam que a ordem internacional não é um "jogo de soma zero".>
O século 21 será cada vez mais multipolar. Para se manter pacífico, não pode deixar de ser multilateral.>
O Brasil confere crescente importância à União Europeia, à União Africana, à ASEAN, à CELAC, aos BRICS e ao G20.>
A voz do Sul Global deve ser ouvida.>
A ONU tem hoje quase quatro vezes mais membros do que os 51 que estiveram na sua fundação.>
Nossa missão histórica é a de torná-la novamente portadora de esperança e promotora da igualdade, da paz, do desenvolvimento sustentável, da diversidade e da tolerância.>
Que Deus nos abençoe a todos.>
Muito obrigado.>
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