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Anvisa aprova Wegovy em comprimido: o que falta para versão oral da caneta emagrecedora chegar às farmácias do Brasil?

Versão oral da semaglutida, tomada uma vez por dia, já é vendida nos Estados Unidos, no Reino Unido, na Alemanha e nos Emirados Árabes.

Publicado em 04 de Novembro de 2026 às 15:33

BBC News Brasil

Publicado em 

04 nov 2026 às 15:33
Imagem BBC Brasil
Crédito: REUTERS/Hannah Beier/Ilustration

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou nesta quarta-feira (4/11) a versão em comprimido do Wegovy, remédio para obesidade da farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk.

É o primeiro medicamento oral da classe dos agonistas de GLP-1, a mesma das chamadas "canetas emagrecedoras", liberado no país para tratar obesidade e sobrepeso.

O comprimido tem o mesmo princípio ativo da caneta, a semaglutida. A diferença é que ele é tomado uma vez por dia, em vez de uma injeção por semana.

"A chegada de um GLP-1 em comprimido representa uma nova ferramenta que vai cada vez mais ampliar as possibilidades de medicações que podem ser utilizadas em diferentes perfis de pacientes", diz a endocrinologista Cynthia Valério, presidente eleita da Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica).

Ainda não há preço nem data de lançamento no Brasil. Em nota à imprensa, a Novo Nordisk diz apenas que o comprimido deve chegar às farmácias brasileiras "nos próximos trimestres".

A BBC News Brasil perguntou à empresa qual é a previsão de lançamento e de preço, mas não teve resposta até a publicação desta reportagem.

No exterior, o comprimido está à venda nos Estados Unidos desde janeiro. Depois chegou aos Emirados Árabes Unidos, ao Reino Unido e à Alemanha.

O que falta para o comprimido chegar às farmácias brasileiras

A aprovação da Anvisa é o primeiro passo.

Antes de chegar às prateleiras, o remédio precisa ter um preço máximo definido pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), órgão do governo federal que fixa o valor teto de todos os medicamentos vendidos no país.

Só depois disso a empresa pode começar a vender. A BBC News Brasil também perguntou à Novo Nordisk se o pedido de preço já foi feito à CMED, e aguarda resposta.

A Novo Nordisk pediu o registro do comprimido à Anvisa em 30 de janeiro deste ano. A decisão foi publicada no Diário Oficial da União por meio da Resolução 4.249/2026.

O remédio é indicado para adultos com obesidade, ou seja, com índice de massa corporal (IMC) igual ou maior que 30. Também vale para adultos com sobrepeso (IMC entre 27 e 30) que tenham pelo menos uma doença associada ao peso, como hipertensão ou diabetes tipo 2. Em todos os casos, deve ser usado junto com mudanças na alimentação e prática de atividade física.

Onde o comprimido já é vendido e quanto custa

Os Estados Unidos foram o primeiro país a aprovar o comprimido, em dezembro de 2025. A aprovação foi da Food and Drug Administration (FDA), a agência reguladora de medicamentos americana. As vendas começaram em 5 de janeiro. Para quem paga do próprio bolso, o preço vai de US$ 149 (R$ 816) por mês na dose inicial a US$ 299 (R$ 1,6 mil) nas doses mais altas.

Segundo a Novo Nordisk, mais de 7 milhões de prescrições do comprimido já foram dispensadas nos Estados Unidos desde o lançamento.

Em junho, os Emirados Árabes Unidos se tornaram o primeiro país fora dos Estados Unidos a vender o remédio. No Reino Unido, a agência reguladora local aprovou o comprimido em junho e as vendas começaram em julho, em farmácias privadas. Por enquanto, o remédio não é oferecido pelo sistema público de saúde britânico, o NHS.

A União Europeia aprovou o comprimido em julho, depois de parecer favorável da Agência Europeia de Medicamentos (EMA). A Alemanha foi o primeiro país do bloco a vender o remédio, a partir de 1º de setembro. O comprimido também foi aprovado no Bahrein.

A Novo Nordisk diz que pretende levar o comprimido a outros países nos próximos meses.

Como o remédio age e por que a dose do comprimido é maior

A semaglutida imita o GLP-1, hormônio que o intestino libera depois das refeições. Ele sinaliza ao cérebro que o corpo já recebeu comida, o que reduz a fome, e faz o estômago esvaziar mais devagar, o que prolonga a sensação de saciedade.

Quando o remédio é engolido, boa parte da substância se perde no sistema digestivo antes de chegar ao sangue. Por isso a dose do comprimido é bem maior: 25 mg por dia na fase de manutenção, contra 2,4 mg por semana na caneta.

O tratamento começa com 1,5 mg, e a dose sobe aos poucos, passando por 4 mg e 9 mg até chegar aos 25 mg. O comprimido deve ser tomado em jejum, com pouca água. Depois disso, é preciso esperar pelo menos 30 minutos para comer, beber ou tomar outros remédios.

Segundo a Anvisa, quem usa a caneta poderá passar para o comprimido, e quem usa o comprimido poderá passar para a caneta, quando o médico considerar adequado.

Imagem BBC Brasil
Segundo a Anvisa, além da perda de peso, o comprimido melhorou marcadores de saúde cardiovascular e metabólica dos participantes do estudo Crédito: Ben Birchall/PA Archive/PA Images

O que mostrou o estudo que embasou a aprovação

A aprovação se baseou principalmente no estudo OASIS 4, publicado na revista científica The New England Journal of Medicine. Participaram 307 adultos sem diabetes, com obesidade ou com sobrepeso e alguma doença associada, e os resultados foram medidos depois de 64 semanas.

No grupo que tomou o comprimido, a perda média de peso foi de 13,6%. No grupo que recebeu placebo, foi de 2,2%. Quase um terço dos participantes que tomaram o comprimido perdeu 20% do peso ou mais.

A Novo Nordisk diz que a perda de peso com o comprimido é parecida com a obtida com a caneta de 2,4 mg. Segundo a Anvisa, o tratamento também melhorou vários marcadores de saúde cardiovascular e metabólica dos participantes.

Os efeitos colaterais mais comuns foram gastrointestinais, como náusea e diarreia. Eles afetaram 74% de quem tomou o comprimido, contra 42% no grupo placebo, e em geral foram leves ou moderados. Cerca de 7% dos participantes que tomaram o remédio pararam o tratamento por causa de efeitos adversos, contra 6% no grupo placebo.

O que muda em relação ao Rybelsus, aos genéricos e à pílula concorrente

O Brasil já tinha um comprimido de semaglutida, o Rybelsus, também da Novo Nordisk. Ele é indicado para diabetes tipo 2, em doses menores, e não para tratar obesidade.

O comprimido chega a um mercado que mudou em 2026. A patente da semaglutida caiu no Brasil em 20 de março, e, desde agosto, a Anvisa já aprovou versões genéricas da semaglutida injetável.

Por lei, os genéricos precisam custar pelo menos 35% menos que o remédio de referência.

A principal concorrente do comprimido da Novo é o Foundayo (orforglipron), pílula diária para obesidade da americana Eli Lilly, fabricante do Mounjaro. O Foundayo foi aprovado nos Estados Unidos em abril, mas ainda não tem registro no Brasil.

Segundo a endocrinologista Cynthia Valério, a versão oral tende a beneficiar quem não quer usar injeção, quem prefere tomar o remédio todos os dias em vez de uma vez por semana e quem tem dificuldade para guardar a caneta, por exemplo porque viaja muito.

O comprimido, diferentemente da caneta, não precisa ficar em ambiente refrigerado.

Ela afirma que o comprimido pode facilitar o início do tratamento e o aumento gradual da dose em pacientes que usam muitos outros remédios ou têm várias doenças. Isso permite acompanhar melhor os efeitos colaterais e a tolerância ao medicamento.

"O nosso maior desafio hoje é a adesão de longo prazo e a perda de peso sustentada", afirma a médica. Quem interrompe o tratamento perde os benefícios que conquistou.

Ela alerta que o comprimido não terá o efeito esperado se for tomado junto com outro remédio, com outro líquido que não seja água ou sem respeitar o tempo de jejum. "Acaba sendo um desperdício de energia, de dinheiro, de tempo do paciente sem que haja boa resposta", diz. "O acompanhamento médico, ele é sempre necessário."

Para Valério, garantir o acesso ao tratamento da obesidade, seja pelo SUS ou pelos planos de saúde, é essencial. "Entendemos que hoje ainda temos esse grande desafio de incorporação dessas tecnologias", diz.

Ela avalia que, no início, o comprimido não deve estar amplamente acessível, e afirma que a Abeso vai lutar para que as novas terapias sejam oferecidas tanto no SUS quanto na saúde suplementar.

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