Publicado em 24 de maio de 2023 às 07:51
Quando as contrações de Mona começaram, um camelo se tornou sua única salvação.>
Mona, de 19 anos, esperava que a viagem de 40 km até o hospital demorasse quatro horas de sua casa no topo de montanhas rochosas . Mas sem estradas — sofrendo dores de parto e com mau tempo — o trajeto acabou levando sete horas.>
"A cada passo que o camelo dava, eu morria por dentro", diz ela.>
Quando o camelo não pôde mais avançar, Mona desmontou e fez a etapa final de sua jornada a pé com o marido.>
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Na província de Mahweet, no noroeste do Iêmen, o hospital Bani Saad é o único centro de saúde ainda de pé para milhares de mulheres. Da casa de Mona, no vilarejo de Al-Maaqara, o acesso às instalações só pode ser feito por meio de montanhas traiçoeiras em camelos ou a pé.>
Enquanto cumpria a desafiadora jornada, Mona temia por sua segurança e a de seu filho ainda não nascido.>
"A estrada era cheia de pedras", disse ela, lembrando a "viagem fisicamente e mentalmente exaustiva".>
"Houve momentos em que orei para que Deus me levasse embora e protegesse meu bebê para que eu pudesse escapar da dor.">
Mona não se lembra de ter chegado ao hospital , mas de ter ficado cheia de esperança ao ouvir o choro de seu bebê nas mãos de parteiras e cirurgiões.>
Ela, junto com o marido, deu ao bebê o nome de Jarrah em homenagem ao cirurgião que os salvou.>
As estradas para o hospital dos vilarejos próximos são estreitas. Alguns estão destruídas ou bloqueadas devido a oito anos de guerra entre forças pró-governo apoiadas por uma coalizão liderada pela Arábia Saudita e o movimento rebelde Houthi apoiado pelo Irã.>
Mulheres, familiares ou parceiros muitas vezes auxiliam mulheres grávidas por horas pelas colinas até o hospital.>
Salma Abdu, 33, que acompanhava uma gestante, disse que no meio da viagem viu uma grávida que morreu à noite no caminho.>
Salma está pedindo às pessoas que tenham misericórdia das mulheres e crianças.>
"Precisamos de estradas, hospitais, farmácias. Estamos presos neste vale. As que têm sorte dão à luz com segurança. Outras morrem, também tendo suportado a miséria da viagem", disse ela.>
Algumas famílias podem pagar o hospital, mas não têm recursos financeiros para chegar lá.>
Uma mulher morre a cada duas horas durante o parto por causas evitáveis no Iêmen, de acordo com Hicham Nahro, do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) no Iêmen.>
Nahro diz que muitas vezes as mulheres em áreas remotas do Iêmen não conseguem fazer o pré-natal ou procurar ajuda, a menos que comecem a sangrar ou sintam dores fortes.>
Menos da metade dos partos é assistida por um médico qualificado e apenas um terço dos partos ocorre em uma unidade de saúde, segundo o UNFPA. Dois quintos da população do Iêmen vive a mais de uma hora de distância do hospital público mais próximo.>
O combalido sistema de saúde do Iêmen estava em dificuldades mesmo antes da guerra civil. O conflito, porém, causou danos generalizados aos hospitais e estradas do Iêmen, impossibilitando que as famílias viajem sem dificuldade.>
Os hospitais carecem de funcionários, equipamentos e medicamentos, e o investimento em estradas e infraestrutura estagnou.>
Apenas uma em cada cinco instalações em funcionamento pode fornecer serviços confiáveis de saúde materno-infantil, de acordo com o UNFPA.>
A história de Mona é apenas um dos muitos casos de dificuldades enfrentados por mulheres grávidas no Iêmen. >
A maioria das pessoas não tem automóvel no Iêmen, onde 80% da população depende de ajuda.>
O marido de Hailah usou o pouco dinheiro que economizou quando trabalhava na Arábia Saudita para garantir que sua esposa pudesse ir ao hospital em uma motocicleta.>
Quando chegaram ao centro de saúde Hadaka em Dhamar , Hailah foi rapidamente transferida para a ala cirúrgica.>
"Pensei que era o fim", disse Haila, de 30 anos. "Não havia como eu e meu feto sobrevivermos.">
Ela foi avisada durante os estágios iniciais de sua gravidez de que dar à luz em casa não era uma opção devido aos riscos de sangramento grave e outras complicações da gravidez.>
O médico do centro de saúde disse que Hailah e o bebê foram salvos por pouco.>
Ela chamou sua filha de Amal, que significa "esperança" em árabe.>
"Quase perdi o bebê e a vida perdeu o sentido devido à maldita guerra, mas esse bebê me deu esperança", disse ela.>
Com a escassez do financiamento internacional, centros como o hospital Bani Saad estão sem recursos. Funcionários temem pelo futuro de mães e bebês, pois são forçados a priorizar quem tem maior chance de se salvar.>
Colaboraram com esta reportagem Fuad Rajeh e Mohammed Al Qalisi >
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