Publicado em 23 de fevereiro de 2026 às 08:12
Na vila de pescadores de Sedanka, no extremo leste da Rússia, a vida é difícil.>
A maioria das casas não tem serviços básicos, como água encanada, banheiro interno e aquecimento central, mesmo com temperaturas que costumam chegar a -10°C nos meses de inverno.>
Cercada por floresta-tundra e áreas pantanosas, o centro da vila só é acessível de maio a outubro por barcos ou veículos de tração por esteiras e, no inverno, exclusivamente por moto de neve (snowmobile) ou helicóptero.>
Há poucos empregos locais, e a maior parte da população vive da pesca e do cultivo do próprio alimento.>
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Os lixões atraem visitantes perigosos, como o urso-pardo-de-Kamchatka, que está entre os maiores do mundo.>
Ainda assim, Sedanka enfrenta um desafio mais recente.>
Segundo os próprios moradores, quase todos os homens de Sedanka com idades entre 18 e 55 anos deixaram o local após se juntarem à guerra da Rússia na Ucrânia.>
"É de partir o coração — muitas das nossas pessoas foram mortas", declara Natalia, moradora cujo nome foi alterado por razões de segurança, em entrevista ao Serviço Mundial da BBC.>
"O marido da minha irmã e meus primos estão na linha de frente. Em quase todas as famílias, há alguém lutando.">
Localizada no extremo noroeste da Península de Kamchatka, próxima ao Mar de Okhotsk, Sedanka fica a mais de 7.000 km das linhas de frente na Ucrânia.>
A cidade americana de Anchorage, do outro lado do oceano, está a cerca de metade dessa distância.>
De um total de 258 habitantes, 39 homens da vila assinaram contratos com a Rússia para lutar na guerra. Destes, 12 morreram e outros sete estão desaparecidos.>
"Todos os nossos homens partiram para a operação militar especial", afirmou um grupo de mulheres ao governador da região, durante visita em março de 2024, utilizando a expressão adotada pelo governo russo para se referir à guerra na Ucrânia.>
"Não há ninguém para cortar lenha para o inverno e aquecer nossos fogões", acrescentaram, em diálogo exibido pela televisão estatal.>
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A BBC, em conjunto com o site russo Mediazona e pesquisadores voluntários, verificou até agora que 40.201 soldados russos morreram em 2025.>
Segundo a nossa análise, estimamos que o total de mortos confirmados em 2025 chegará a 80 mil, o que tornaria este o ano mais letal para as perdas russas na Ucrânia desde o início da invasão em larga escala, iniciada em 24/2/2022.>
Esse cálculo leva em conta obituários que indicam 2025 como o ano da morte ou do sepultamento, mas são dados que ainda não foram totalmente processados nem cruzados.>
As mortes confirmadas em 2024 somam agora 69.362 — número aproximadamente comparável à soma de 2022 e 2023 —, e a curva se acentuou desde o fim de 2024.>
As confirmações foram feitas com base em comunicados oficiais e em um registro de inventários — cadastro oficial de processos abertos após a morte de uma pessoa —, além de reportagens de jornais, publicações em redes sociais feitas por familiares ou amigos próximos e dados de novos memoriais e túmulos.>
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Ao todo, a BBC identificou até agora 186.102 soldados russos mortos no conflito.>
O número real de mortos é geralmente considerado muito mais alto, já que muitas mortes no campo de batalha não são registradas.>
Especialistas militares avaliam que nossa análise pode representar entre 45% e 65% do total, o que situaria o número potencial de mortos russos entre 286 mil e 413,5 mil.>
A Ucrânia também sofreu perdas significativas.>
No mês passado, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky disse à emissora francesa France 2 que, "oficialmente", 55 mil ucranianos foram mortos no campo de batalha.>
Além disso, um "grande número de pessoas" é considerado oficialmente desaparecido, afirmou ele, sem apresentar um número exato.>
Com base em estimativas de fontes como o site UA Losses, cujos dados foram cruzados pela BBC, estimamos que o número de ucranianos mortos possa chegar a 200 mil.>
A maior parte dos russos mortos na guerra tem sobrenomes de origem eslava.>
Mas as perdas são desproporcionalmente altas entre pequenos grupos indígenas, especialmente em áreas economicamente desfavorecidas da Sibéria e do extremo leste, como Sedanka.>
Sedanka é habitada principalmente por koryaks e itelmens — povos indígenas que, pelas regras em vigor durante a guerra, podem ser isentos da mobilização.>
A ativista antiguerra Maria Vyushkova afirma que a televisão estatal russa reforça estereótipos de que comunidades indígenas seriam "guerreiros natos" e atiradores habilidosos para incentivá-las a se alistar na guerra.>
"Muitas comunidades indígenas se orgulham dessa herança como parte de sua identidade. A Rússia usa esse orgulho para recrutar para a guerra", disse Vyushkova.>
Entre os moradores de Sedanka que aderiram à guerra está Vladimir Akeev, 45, caçador e pescador, que assinou contrato com o Exército no verão de 2024.>
Quatro meses depois, ele foi morto em combate.>
No funeral, em novembro de 2024, as pessoas só conseguiram chegar ao cemitério de moto de neve, e o caixão de Akeev foi transportado em largos trenós de madeira.>
Em outras regiões, as perdas confirmadas entre povos indígenas incluem 201 nenets, 96 chukchi, 77 khanty, 30 koryaks e sete inuítes.>
Entre homens de 18 a 60 anos, isso representa aproximadamente 2% dos chukchi, 1,4% dos inuítes russos, 1,32% dos koryaks e 0,8% dos khanty.>
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A análise da BBC mostra que 67% dos mortos são de áreas rurais e cidades pequenas — definidas como aquelas com menos de 100 mil habitantes —, embora 48% da população russa more nesses locais.>
A taxa de perdas foi menor nas grandes cidades. Moscou, capital da Rússia, registrou o menor número de mortes per capita: cinco a cada 10 mil homens, ou 0,05%.>
Em regiões mais pobres, como Buryatia, no leste da Sibéria, e Tuva, no sul da Sibéria, a taxa de mortalidade é, respectivamente, de 27 e 33 vezes maior do que na capital.>
O principal fator por trás dessa diferença entre centros urbanos e áreas rurais é a desigualdade em desenvolvimento econômico, renda e educação, afirma o demógrafo Alexey Raksha.>
Como resultado, soldados de regiões mais pobres e de minorias étnicas representam uma parcela maior do Exército e dos mortos do que sua participação na população total, explicou Raksha.>
Regiões com elevada proporção de perdas já apresentavam menor expectativa de vida antes mesmo de seus homens irem para a guerra, afirmou outro demógrafo russo à BBC.>
"Para muitos, o fator determinante não é apenas a pobreza, mas a falta de perspectivas — a sensação de que não há nada a perder", disse.>
Em Sedanka, foi inaugurado, no outono de 2024, um monumento dedicado aos "participantes da operação militar especial".>
No ano passado, o governo regional prometeu conceder o título honorário de "vila de valor militar" em reconhecimento à participação de seus homens na guerra.>
Anunciou também um programa de assistência às famílias dos militares da vila.>
No entanto, a vila ainda não recebeu o título honorário, nem a maior parte do apoio prometido às famílias dos soldados foi entregue.>
Os telhados das casas de quatro soldados foram consertados após entrarem em estado de deterioração, mas apenas depois de ampla repercussão na imprensa.>
Uma em cada cinco casas, construídas na era soviética, foi considerada insegura pelo Estado.>
A única escola da vila foi considerada pelas autoridades em estado de emergência, com algumas paredes sob risco de desabamento.>
Tudo isso foi agravado pela perda dos homens em idade ativa para a guerra da Rússia na Ucrânia.>
Reportagem adicional de Yaroslava Kiryukhina e Natalia Maca Groca.>
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