A Casa dos Segredos de Trent Park faz jus ao nome. A fachada e os salões do térreo dessa elegante mansão no norte de Londres revelam o gosto refinado de sir Philip Sassoon, esteta e grande anfitrião antes da guerra. Mas quem desce ao porão encontra uma história pouco conhecida de espionagem e intrigas durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Aviso: este artigo menciona o Holocausto e pode causar desconforto em alguns leitores.
No mês passado, Trent Park abriu as portas ao público pela primeira vez como museu, em reconhecimento a seu papel crucial durante a guerra.
Foi ali que uma equipe monitorou, às escondidas, as conversas de prisioneiros de guerra alemães de alta patente mantidos na mansão. Muitos dos agentes eram refugiados judeus alemães. Os generais nazistas não faziam ideia de que cada palavra sua era captada por microfones. Convencidos de que estavam seguros, deixaram escapar informações vitais que mudaram o curso da guerra.
Uma mansão luxuosa
O político e colecionador de arte sir Philip Sassoon herdou Trent Park em 1912. Na década de 1920, promoveu uma grande remodelação da fachada e dos interiores, seguindo o estilo neogeorgiano, então muito em voga.
"A arquitetura que ele criou é muito elegante, serena e discreta. Os interiores seguem a mesma linha: sem excessos, muito amplos e com poucas antiguidades, todas belíssimas e de grande valor", disse Simon Thurley, assessor sênior de Trent Park, à BBC.
Papéis de parede chineses requintados e retratos da família pintados pelo pintor húngaro Philip de László e pelo italiano John Singer Sargent decoram as paredes.
Os interiores do térreo dessa elegante mansão foram agora recriados com todo o cuidado.
"As pessoas vão sentir que voltaram ao mundo de Sassoon quando estiverem aqui", diz Giuseppe Albano, diretor do museu. "Mas, depois, é claro, elas descem."
Microfones por toda parte
O porão é, de fato, outra história. Sir Philip morreu em junho de 1939 e, quando a guerra começou, em setembro, o governo britânico requisitou a mansão. Thomas Kendrick, um dos mais altos dirigentes do serviço secreto britânico, identificou o local como ideal para instalar um Centro de Interrogatório Detalhado dos Serviços Combinados (CSDIC, na sigla em inglês).
Kendrick já havia testado a escuta de prisioneiros de guerra na Tower of London (Torre de Londres), mas percebeu que os centros de interrogatório precisavam funcionar em locais mais discretos e afastados o bastante do centro da capital para reduzir o risco de bombardeios.
Trent Park, Latimer House e Wilton Park também tinham o espaço necessário para que Kendrick ampliasse a operação e obtivesse, em conversas privadas dos prisioneiros, as informações que buscava.
E Kendrick de fato ampliou a operação.
"A mansão inteira e o bloco das cocheiras foram equipados com microfones", disse a historiadora Helen Fry, autora de The Walls Have Ears ("as paredes têm ouvidos", em tradução literal) à BBC.
Havia microfones escondidos em vasos de plantas, luminárias e na mesa de bilhar, além de árvores nos jardins.
Fios ocultos, instalados atrás dos painéis e sob o assoalho, ligavam esses microfones às salas equipadas para a escuta no porão, conhecidas como salas "M" e recriadas pelo museu.
De lá, agentes de escuta — inicialmente britânicos que falavam alemão — monitoravam as conversas dia e noite.
Trent Park se tornaria o principal centro de detenção de oficiais alemães de alta patente, muitos deles de famílias ricas ou aristocráticas. A presunção de que tinham direito a tratamento privilegiado parece ter feito deles presas surpreendentemente fáceis para os planos de Kendrick.
Os parentes de Sassoon talvez tenham levado as valiosas antiguidades da mansão, substituídas por móveis do governo, bem mais funcionais. Ainda assim, a casa continuava sendo uma prisão luxuosa, pensada para fazer os detidos baixarem a guarda.
Cada general tinha seu próprio criado militar, também capturado com ele. Havia uma biblioteca, oficiais britânicos davam aulas de inglês e, de vez em quando, os prisioneiros podiam até sair para passear pela cidade.
Um lorde de mentira
Os prisioneiros também tinham um responsável por seu bem-estar: o fictício lorde Aberfeldy, aristocrata escocês interpretado por um jovem oficial de interrogatório.
"Ele recebeu o nome de uma destilaria de uísque", brinca Fry.
Aberfeldy dizia admirar Adolf Hitler (1889-1945) em segredo e visitava os prisioneiros para levá-los a fazer confidências que, é claro, eram captadas pelos agentes de escuta no porão.
Todos os oficiais alemães eram avisados de que, se fossem capturados, suas conversas poderiam ser monitoradas. Ainda assim, os generais parecem ter acreditado, para surpresa de todos, que isso não acontecia em Trent Park.
"Há uma gravação impressionante de dois generais conversando sobre o assunto. Eles dizem: 'Bem, fomos avisados, mas é claro que não estão nos monitorando. Perceberíamos se estivessem'", conta Thurley, o assessor, rindo.
"Você massageia o ego deles, alimenta a sensação de importância, e eles deixam de pensar com lógica", diz Fry.
As informações continuavam a chegar com regularidade, mas, com o avanço da guerra, ficou claro que os agentes britânicos tinham dificuldade para entender o jargão e as gírias. Eles haviam aprendido alemão apenas em contexto acadêmico.
Por isso, decidiu-se recrutar refugiados judeus que falavam alemão, vindos da Alemanha, da Áustria e da Tchecoslováquia.
O agente de escuta
Um desses recrutas foi Ernst Lederer, avô da comediante e atriz Helen Lederer. Em 1939, ele fugiu da Tchecoslováquia em um dos últimos trens a deixar o país.
Como os demais agentes de escuta, assinou a Lei de Segredos Oficiais e manteve segredo sobre seu trabalho durante a guerra até o fim da vida.
"A mulher dele achava que ele fazia parte da Home Guard, a força britânica de defesa local. Na verdade, ele ia cumprir longos turnos em Trent Park", disse à BBC a neta de Lederer, que hoje trabalha no roteiro de um filme sobre o que aconteceu lá.
"Não sabíamos o que ele fazia até que, por acaso, participei de um documentário chamado War Hero in My Family ("um herói de guerra na minha família", em tradução literal), do Channel 5."
A série acompanhava personalidades que investigavam documentos secretos sobre a atuação de seus pais e avós durante a guerra.
"E há um detalhe inusitado: minha mãe, que era inglesa, foi convocada para trabalhar em Bletchley Park aos 21 anos", diz Lederer.
"Ela costumava participar de passeios em família com Ernst Lederer, e nenhum dos dois sabia o que o outro havia feito."
De fato, os agentes de escuta não sabiam da existência do Centro de decifração de códigos de Bletchley Park, embora seus superiores soubessem. Informações foram compartilhadas entre os dois locais durante toda a guerra.
Em 1941, agentes de Trent Park ouviram uma conversa que mencionava o Knickebein ("perna torta", em tradução livre), um sistema de orientação por feixes que permitia aos bombardeiros noturnos atingir com precisão fábricas britânicas de munições. Os decifradores de códigos de Bletchley Park confirmaram a informação e repassaram ao serviço de inteligência da Força Aérea os dados necessários para interferir nos sinais.
A informação mais importante obtida em Trent Park dizia respeito, sem dúvida, ao programa secreto alemão das armas V. O projeto previa desenvolver as poderosas Vergeltungswaffen (armas de vingança, em tradução livre), destinadas a ser lançadas contra cidades aliadas, como Londres.
Uma conversa captada mencionou um foguete capaz de atingir 15 km de altitude; outra revelou a existência do V-2, o primeiro míssil balístico de longo alcance do mundo, com alcance de 300 km.
As informações acabaram levando ao bombardeio, em agosto de 1943, do principal centro alemão de pesquisa e testes de foguetes e mísseis, em Peenemünde, na costa do mar Báltico. Como ressalta Fry em seu livro, o impacto do ataque foi imenso.
O primeiro ataque com um foguete V-1 contra Londres foi adiado para 13 de junho de 1944, uma semana depois do desembarque aliado na Normandia, no Dia D. Se os V-1 tivessem sido lançados antes, é possível que o desembarque nem tivesse ocorrido. O primeiro V-2 só caiu em Londres em 8 de setembro de 1944.
Atrocidades nazistas
A equipe da mansão Trent Park também obteve "informações sobre a dimensão das atrocidades que Hitler vinha cometendo, pouco conhecidas na época", diz Albano, diretor do Museu. Para ouvintes judeus como Eric Mark, escutar essas conversas deve ter sido extremamente traumático: os pais dele foram mortos nas câmaras de gás de Treblinka, em 1943.
Mark, que morreu em 2020, contou que ouvia os alemães se gabarem do que haviam feito. "Diziam coisas como: 'Despachei [matei] uns 1.500'."
Essas informações nunca foram usadas em julgamentos por crimes de guerra, pois isso exigiria revelar como haviam sido obtidas. "O governo britânico da época não queria que as táticas, a tecnologia ou a audácia da operação se tornassem conhecidas, sobretudo diante da perspectiva de uma Guerra Fria com a Rússia", explica Albano.
É difícil aceitar que pessoas que, na prática, confessaram ter cometido atrocidades tenham escapado da Justiça. Na época, o governo britânico estava muito preocupado com a dimensão da ameaça russa, em grande parte por causa das conversas interceptadas em Trent Park.
O local só encerrou as atividades de escuta em novembro de 1945.
"Trent Park e os outros dois centros da rede nos prepararam para a Guerra Fria de maneiras que ninguém percebeu, ou compreendeu de fato até agora", diz Fry.
"Seu legado é imensurável, e só agora começamos a compreender sua dimensão."
- Como memórias da guerra e do passado nazista estão no centro de disputa eleitoral na Alemanha
- 'Achava que minha família tinha resistido a Hitler, até descobrir que meu bisavô era nazista'
- 'Hitler estava destruído, seu rosto era uma máscara de medo e confusão': como foram os últimos dias do líder nazista há 80 anos