Publicado em 19 de março de 2026 às 06:34
Caminhoneiros de diferentes regiões do país ameaçam paralisar atividades nos próximos dias, em meio à alta do diesel, provocada pela guerra no Irã. >
Pressionado pela ameaça grevista, o governo corre para anunciar novas medidas, na tentativa de apaziguar os ânimos da categoria que parou o país em 2018.>
"Estamos muito mais organizados do que em 2018", afirma o presidente da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava), Wallace Landim, conhecido como Chorão, em entrevista à BBC News Brasil.>
Em 2018, uma greve de 10 dias da categoria impactou fortemente a economia brasileira, explicitando a forte dependência do país no transporte rodoviário de carga, e enfraquecendo o governo de Michel Temer (MDB), com implicações também nas eleições daquele ano.>
>
O preço médio do diesel S-10, tipo mais vendido no Brasil, subiu 19,4% no país desde 28 de fevereiro, quando começou o ataque de Estados Unidos e Israel contra o Irã, segundo painel de monitoramento de preços da ValeCard, a partir de dados de abastecimentos em mais de 25 mil postos em todo o Brasil.>
Na semana passada, o governo anunciou medidas para tentar reduzir o preço do diesel, como a isenção do PIS/Cofins, subvenção para produtores e distribuidores, e imposto sobre a exportação.>
No dia seguinte, no entanto, a Petrobras anunciou uma alta de R$ 0,38 por litro do diesel A (puro) em suas refinarias. >
Mesmo com o aumento de 11,6% nas refinarias, a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) aponta que o preço ainda permanece abaixo do mercado internacional, indicando risco de novos reajustes à frente.>
Na quarta-feira (18/3), o governo anunciou novas medidas em uma tentativa de conter os ânimos da categoria, já de olho nos possíveis impactos eleitorais e sobre a popularidade de Lula de uma eventual paralisação.>
Pela manhã, o ministro dos Transportes, Renan Filho, e o diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Guilherme Sampaio, anunciaram iniciativas para ampliar a fiscalização do cumprimento da tabela do piso mínimo do frete e para responsabilizar infratores.>
A lei que estabeleceu o piso mínimo foi uma das conquistas da greve de 2018, mas a categoria afirma que ela não vem sendo cumprida pelas empresas.>
Mais tarde, o governo federal propôs aos Estados a desoneração do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre a importação de diesel, com compensação de 50% da receita pela União, em uma renúncia total estimada em R$ 3 bilhões por mês.>
Landim afirma que os caminhoneiros ainda avaliam os anúncios do governo nesta quarta-feira, para decidir se são suficientes para desmobilizar o indicativo de greve.>
Segundo o presidente da Abrava, os caminhoneiros decidiram cruzar os braços em assembleia realizada na segunda-feira (16/3) em Santos, com a presença de lideranças do Rio Grande do Sul, Paraná, Goiás e Brasília.>
"Com esses altos preços de combustíveis, a categoria está pagando para trabalhar e não fecha a operação", diz Landim. >
"Caminhoneiro sai de um Estado, chega no meio da viagem [com o diesel] a outro preço, chega no final da viagem, não tem nem recurso para voltar.">
Landim afirma que a categoria tem ciência de que a alta do diesel é um efeito do conflito no Oriente Médio, mas aponta que os donos de postos de combustíveis passaram a aumentar os preços na bomba mesmo antes do reajuste anunciado pela Petrobras.>
"Não temos mais possibilidade de trabalhar, é a mesma cena de 2018 — 'vale a pena ver de novo'", diz Chorão.>
O líder caminhoneiro afirma que a iniciativa do governo de zerar a PIS/Cofins do diesel foi insuficiente e defende medidas adicionais, além da reestatização da Petrobras Distribuidora, para que a estatal possa ter maior controle dos preços praticados.>
A Petrobras perdeu o controle da BR Distribuidora em julho de 2019, durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), quando teve início o processo de privatização da subsidiária, concluído em 2021.>
Landim defende ainda que a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e o Ministério da Justiça tomem medidas mais enérgicas para fiscalizar as redes de postos do país.>
A categoria reivindica também a implementação de medidas para garantir um preço mínimo operacional e a isenção de pedágio para caminhões vazios.>
Segundo Landim, o segmento está em interlocução com o governo, através do Ministério do Transporte e da Casa Civil, e da participação no Fórum Permanente para o Transporte Rodoviário de Cargas (Fórum TRC).>
Ele afirma que, diferentemente de outros protestos recentes da categoria, que tiveram cunho mais político, a mobilização atual tem motivação puramente econômica.>
"Pode ver que todas essas greves que foram chamadas nos últimos anos, eu sempre fui contra, porque de fato eram de cunho político. Nesse exato momento, a dor é econômica, como em 2018.">
Os caminhoneiros são uma categoria pulverizada, com lideranças dispersas em diferentes partes do país e entidades representativas diversas. Segundo informações do UOL, além da Abrava e do Sindicato dos Caminhoneiros de Santos (Sindicam), a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes e Logística (CNTTL) também apoia a paralisação.>
Sem perspectiva de um desfecho para o conflito no Oriente Médio e com preços dos combustíveis que devem se manter pressionados no futuro próximo, o risco de uma greve de caminhoneiros que tenha impactos negativos para a economia do país é real, afirma Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados.>
"O governo tenta reagir de alguma forma, coloca isenção, diminui o imposto, mas não é suficiente para impedir todo o impacto negativo do aumento do preço na economia nesse momento", diz Vale.>
O economista observa que os caminhoneiros já vêm pressionados por custos em alta, uma safra menor em 2026 e pela economia em desaceleração.>
"Esse caminhoneiro se ressente disso e traz aquele fantasma de maio de 2018, quando tivemos a greve dos caminhoneiros com impactos muito evidentes na economia e depois na eleição no segundo semestre", lembra Vale. "É tudo que o governo quer evitar agora ao máximo, neste momento.">
Em 2018, a greve dos caminhoneiros tirou 1,2 ponto porcentual de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) daquele ano, segundo estimativa do Ministério da Fazenda à época.>
O movimento provocou perdas bilionárias em setores diversos da economia, gerando desabastecimento do comércio, paralisando a produção industrial e prejudicando o agronegócio.>
Vale observa, porém, que o espaço de manobra do governo para apresentar medidas adicionais é limitado, devido às restrições fiscais e dificuldade para entregar o resultado primário esperado.>
Assim, ele avalia que uma paralisação pontual dos caminhoneiros nos próximos dias pode ser inevitável, embora, por ora, não seja esperada uma mobilização do porte daquela de 2018.>
"Algo vai acontecer, mas não dá pra ter ideia da magnitude, e se os caminhoneiros vão conseguir pegar de fato todo o setor e ter uma paralisação completa", diz o economista.>
Quanto ao reflexo da ameaça de greve no mercado financeiro brasileiro, Vale aponta que ele é limitado.>
"O paradoxo é que, quanto mais você tem coisas que afetam negativamente o governo, mais o mercado tende a não ter uma reação muito negativa, porque o mercado vê com bons olhos uma troca de governo no final do ano, com a ideia de fazer um ajuste fiscal mais forte [no próximo governo].">
"Então, o mercado, numa ideia de fragilidade do Lula, acaba tendo impactos menores.">
>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta