Publicado em 7 de março de 2026 às 15:10
Os homens estão sendo exigidos demais para apoiar a igualdade com as mulheres. Essa é a opinião de 70% dos brasileiros que responderam a uma pesquisa que investigou a opinião sobre questões de gênero em 29 países.>
O índice de concordância com essa visão no Brasil ficou bem acima da média global, de 46%, e foi o mais alto dentre todos os países do levantamento, ao lado da Índia, também com 70%, seguidos por Malásia (68%) e Indonésia (64%).>
Mas o Brasil aparece em primeiro no ranking deste ponto porque, entre os brasileiros, o percentual dos que discordam foi de 21%, menor do que entre os 27% registrados entre os indianos.>
Quando os resultados são separados entre homens e mulheres, há praticamente um empate, com um nível de concordância ligeiramente maior entre as mulheres, de 71%, enquanto 69% dos homens disseram o mesmo.>
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Ao mesmo tempo, a maioria dos participantes brasileiros da pesquisa (52%) avaliam que a igualdade de direitos entre homens e mulheres "já avançou o suficiente" no país, um aumento de dez pontos percentuais em relação a um levantamento anterior realizado em 2019.>
A pesquisa mostra ainda que 43% dos brasileiros acreditam que a promoção da igualdade das mulheres foi tão longe a ponto de homens serem hoje discriminados. Essa opinião é mais comum entre homens (50%), mas uma parcela relevante das mulheres (36%) compartilha dela.>
Entre os brasileiros, aponta o levantamento, 38% se identificam como feministas — 30% entre os homens e 47% entre as mulheres.>
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Para Catarina de Almeida Santos, pesquisadora do Núcleo de Estudos da Diversidade Sexual e de Gênero da Universidade de Brasília (UnB), esses dados ilustram uma reação conservadora ao maior debate sobre igualdade de gênero e dos direitos mulheres no Brasil.>
"Quanto mais as mulheres abrem a boca, mais tem uma reação mais violenta", diz Santos.>
"O debate crescer não significa que a gente avançou objetivamente. Você debate mais, mas não significa que na prática a gente fez isso.">
Beatriz Besen, pesquisadora associada do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, chama atenção para o fato de que o Brasil aparece no levantamento ao lado de Índia, Malásia e Indonésia — países onde as transformações nas relações de gênero foram rápidas e concentradas no tempo, diferentemente de países europeus onde essas mudanças ocorreram de forma mais gradual ao longo do século 20.>
"Isso faz com que novos valores convivam com estruturas normativas mais antigas", diz Besen.>
"Discursos que afirmam uma assimetria ou injustiça dirigida aos homens tendem a encontrar maior ressonância social.">
Para a pesquisadora Letícia Oliveira, que estuda o conservadorismo no Brasil, o empate entre homens e mulheres no Brasil reflete a penetração de um discurso antifeminista que não chegou só pelos homens.>
"A gente teve, ao mesmo tempo, o discurso misógino voltado para homens e o discurso antifeminista voltado para as mulheres", diz Oliveira.>
O levantamento do King's College também mostrou que, globalmente, os homens da geração Z (nascidos entre 1996 e 2012) têm visões sobre papéis de gênero mais conservadoras do que a geração dos baby boomers (1945 a 1965).>
Segundo o levantamento, feito com 23 mil pessoas, 31% dos homens da geração Z concordam que "a esposa deve obedecer ao marido" — contra 13% dos boomers.>
Um terço acha que o homem deve ter a palavra final nas decisões do casal, ante 17% dos boomers.>
Cerca de um em cada quatro acredita que "uma mulher não deveria parecer independente demais ou autossuficiente" — o dobro do percentual entre os mais velhos.>
E 59% sentem que os homens estão sendo exigidos demais para apoiar a igualdade de gênero, contra 45% dos boomers.>
Ao mesmo tempo, 41% dos homens da geração Z dizem achar mulheres com carreiras de sucesso mais atraentes — percentual bem maior do que entre os boomers, que ficam em 27%. Querem, ao mesmo tempo, uma companheira realizada e submissa.>
Para Catarina Santos, da UnB, a contradição se desfaz quando se entende o que está por trás da atração.>
"Ela é atraente, porque ela tem um cargo, inclusive para me servir melhor. Ela vai cozinhar, vai lavar minha roupa e ainda vai prover para mim", diz Santos.>
"Isso não significa que ela é livre. Ela pode trabalhar, contanto que a última palavra sobre o que ela vai fazer passe pela decisão dos homens.">
Para entender por que essa virada acontece justamente na geração que cresceu com smartphone na mão, é preciso olhar para o ambiente onde esses jovens se socializam, dizem as especialistas ouvidas pela reportagem.>
Letícia Oliveira acompanha casos de radicalização de adolescentes e trabalha com professores para identificar sinais de alerta.>
Ela descreve um caminho que se repete: o menino chega à adolescência sem perspectiva clara de futuro, de trabalho, de família, de estabilidade, não encontra espaço para falar sobre isso com adultos, vai buscar pertencimento online e cai em grupos onde o discurso misógino já está instalado.>
"A adolescência é a fase onde você está se descobrindo, já não vai mais pela cabeça dos seus pais", diz Oliveira.>
"Você entra na internet para conversar com seus pares. E aí a gente vai para os fóruns, para os grupos de Discord, para os grupos gamers — e nesses espaços eles começam a ter acesso a grupos da machosfera que tratam mulheres como seres inferiores.">
Santos aponta que as plataformas têm papel ativo nisso. "A rede é uma ferramenta utilizada para manter os privilégios. A quem o algoritmo vai servir? Se a gente pega a internet, que em tese era uma ferramenta muito mais democrática, a gente está descobrindo que não é verdade.">
Besen aponta que, nos últimos anos, esse discurso deixou as margens. "Consolidou-se um ecossistema relativamente amplo de produção antifeminista dentro das direitas radicais", diz ela.>
"Isso inclui redes online, produção editorial e influenciadores ligados a movimentos masculinistas que interpretam as transformações de gênero pela chave da injustiça.">
Oliveira reforça a dimensão econômica do fenômeno. "As plataformas perceberam que conteúdo de ódio gera engajamento. Isso começa a dar dinheiro", diz.>
"A gente tem, de 2010 para cá, movimentos que estavam nas franjas da sociedade virando mainstream.">
No Instagram, influenciadoras consolidaram audiências com conteúdo que questiona o feminismo ou promove papéis tradicionais de gênero. A maioria não se nomeia antifeminista. Seu discurso é calcado em conselhos sobre espiritualidade, estética e relacionamento.>
No cenário político, o antifeminismo é defendido por lideranças como a deputada federal Ana Campagnolo (PL-SC) e a senadora Damares Alves (PL-DF), que formam suas bases políticas em movimentos anti-aborto e cristãos conservadores.>
Santos observa que as mulheres que se destacam nesse ecossistema seguem um padrão: "As mulheres que a política permite, que a igreja permite que se destaquem, são aquelas que vão pregar o que eles estão defendendo.">
A ex-primeira-ministra australiana Julia Gillard, que hoje preside o Global Institute for Women's Leadership no King's College London, chama atenção para a popularidade do movimento em prol de que mulheres assumam papeis tradicionais em seus relacionamentos. Aquelas que defendem esse modelo de vida se intitulam tradwifes (esposas tradicionais, em inglês).>
Para Gillard, o apelo dessa proposta não é necessariamente um desejo real de voltar ao passado ou resgatar um modo de vida tradicional, mas o cansaço de navegar um mundo que ainda não resolveu a equação do trabalho e da família para as mulheres.>
Em entrevista à BBC, ela disse que pesquisas com jovens que consomem esse tipo de conteúdo mostram que elas não querem, de fato, ser tradwives, é uma fantasia sobre tirar dos próprios ombros todas as dificuldades de conciliar trabalho e vida familiar.>
A pesquisa do King's College sugere que essa tensão é real e atravessa gêneros. Entre os homens Gen Z, 21% acreditam que homens que cuidam dos filhos são menos masculinos contra 8% dos boomers. A pressão pelo papel de provedor não desapareceu; ela convive, de forma contraditória, com um mundo onde as mulheres trabalham, estudam e, em muitos lares brasileiros, sustentam a família sozinhas.>
Gillard também aponta o que chama de "jogo de soma zero": a percepção de que mais direitos para as mulheres significam automaticamente menos para os homens. "Nós permitimos que essa impressão se instalasse. E ela é falsa.">
Beatriz Besen aponta que a sensação de sobrecarga aparece como elemento transversal nas percepções sobre papéis de gênero.>
"Para muitas mulheres, ela se expressa na dupla jornada e na persistência das responsabilidades de cuidado. Para parte dos homens, aparece a percepção de que continuam sendo cobrados por papéis tradicionais de provisão em um contexto econômico mais instável", diz a pesquisadora.>
"A questão que permanece é como tornar visíveis as raízes estruturais dessa sensação de pressão, evitando que a solução se traduza no apoio à manutenção dos papéis de gênero tradicionais.">
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