Publicado em 6 de maio de 2025 às 10:39
Em um lugar com mais de cinco séculos e meio de história, no menor Estado do mundo, acontece uma das eleições que mais despertam a curiosidade das pessoas, seja pelas razões religiosas, políticas, sociais ou intelectuais. >
Mas interessam, particularmente, os cerca de 1,4 bilhão de fiéis católicos, por se tratar da escolha do sucessor de São Pedro, o primeiro papa indicado por Jesus. >
Segundo essa tradição, a linha de sucessores garantiu que as mensagens e os ensinamentos que Cristo transmitiu aos apóstolos fossem mantidos inalterados. >
Os cardeais com voz e voto na decisão sobre o novo pontífice da Igreja Católica se reuniram pela primeira vez na Capela Sistina em 1492. Mas essa não foi a única sede dos conclaves, até que, em 1878, se tornou a sede permanente. >
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Desde então, durante o período em que se escolhe um papa, o mundo inteiro volta os olhos para a fina chaminé da Capela Sistina, à espera da fumaça — a única pista do que está acontecendo lá dentro. >
É que, a partir do momento em que se proclama o extra omnes (em latim, "todos fora") e os que não fazem parte do conclave se retiram, os cardeais eleitores ficam trancados entre aquelas quatro paredes e sob um teto que cobre o céu.>
Soa um pouco claustrofóbico, mas...que paredes, e que teto!>
A Capela Sistina é uma obra de arte que, ao longo dos séculos, tem deixado milhões de pessoas maravilhadas. >
Algumas ficam sem palavras; outras, como o erudito alemão Goethe, dizem: "Até que você veja a Capela Sistina, não terá a menor ideia do que o ser humano é capaz de fazer".>
A BBC separou cinco curiosidades sobre o local do conclave. Confira:>
É incongruente pensar que Michelangelo tenha criado uma obra tão sublime no teto da Capela Sistina contra a própria vontade. >
Mas foi exatamente isso que aconteceu. Ele sempre se considerou mais um escultor do que pintor. >
Quando o papa Julio 2º lhe pediu que assumisse a decoração da capela, Michelangelo estava trabalhando no túmulo de mármore do próprio pontífice, e nunca havia concluído uma pintura completa.>
Apesar de a encomenda vir de uma autoridade tão alta, ele tentou recusá-la duas vezes, mas acabou cedendo.>
Uma das provas dessa resistência é um poema que Michelangelo enviou ao amigo Giovanni di Pistoia, em 1509, apenas um ano depois de começar o trabalho no teto da Sistina — uma tarefa que se estenderia por mais três anos. >
As queixas de Michelangelo eram numerosas. Dizia que estava com a glândula tireoide inflamada, a coluna torta e curvada, o peito comprimido, as pernas em constantes câimbras e o traseiro dolorido pelo esforço.>
Como se não bastasse, "meu pincel, que fica acima de mim o tempo todo, pinga tinta sem parar e minha cara virou um chão para os dejetos!", escreveu em um trecho do poema.>
Os lamentos não eram em vão. >
Para pintar o teto de 3.300 metros quadrados, Michelangelo precisava ficar de pé sobre um andaime precário a 18 metros de altura, com o pescoço inclinado para trás e o braço estendido acima da cabeça. >
Grande parte do tempo ele trabalhou sozinho, já que, como pode ser visto durante a restauração da Capela Sistina, as pinturas foram realizadas, majoritariamente por sua própria mão, com exceção de partes relativamente menores, que foram feitas por assistentes. >
Michelangelo também se preocupava com sua saúde mental. >
"Por estar preso aqui, >
meus pensamentos são loucuras tolas, perversas:>
qualquer um atira mal com uma zarabatana torta.">
E preocupava-se, ainda, com o impacto negativo que pintar nessas condições poderia ter em sua obra, como escreveu no fim do poema:>
"Minha pintura está morta.>
Defende-a por mim, Giovanni, protege minha honra. >
Não estou no lugar certo, não sou pintor.">
A imagem central do teto da capela, que mostra Deus criando Adão, com seus dedos quase se tocando, é uma das mais impactantes de todo o edifício.>
Segundo a historiadora do Renascimento Catherine Fletcher, é "uma das poucas pinturas que se vê em todos os lugares".>
"Junto com a Mona Lisa, é possivelmente a única pintura da arte ocidental que alcança esse nível icônico", disse à BBC.>
A obra não impressiona apenas pela sua maestria, mas também pela sua originalidade. >
Deus aparece como um super-herói, arrastado pelo vento, musculoso, com roupas justas que revelam suas pernas, e um manto. >
O ato de criação, realizado com a ponta do dedo, também foi invenção de Michelangelo. >
Mas há algo que pode passar despercebido diante de uma pintura tão majestosa.>
Na verdade, foi só na década de 1870, após a primeira publicação de fotografias do teto da Capela Sistina, que se notou uma presença significativa embaixo do braço de Deus. >
Ela está entre as figuras envoltas no manto vermelho oval do Criador: é uma mulher que lança a Adão um olhar atento. >
Mas, quem poderia ser?>
A interpretação mais aceita é a apresentada pela primeira vez pelo crítico de arte inglês Walter Pater (1839-1894), que afirmou que a pessoa sob os braços de Deus é Eva, antes mesmo de sua criação. >
As outras 11 figuras, assim, representariam simbolicamente as almas da futura descendência de Adão e Eva: toda a humanidade. >
Segundo Pater, o Criador "vem com as formas das coisas que ainda serão — a mulher e sua descendência — no dobrar do seu manto".>
"Ela parece muito consciente do que está acontecendo" explicou à BBC Matthias Wivel, da Galeria Nacional de Londres. >
"Deus está dando a Adão uma alma, está lhe dando livre-arbítrio, e isso é o que personifica Eva", acrescenta. >
Mais recentemente, surgiu outra hipótese: a de que a mulher que ocupa esse lugar de honra junto a Deus seria, na verdade, a Virgem Maria. >
Essa teoria ganhou força por causa da criança pintada ao lado da figura feminina, sobre quem os dedos de Deus passam suavemente. Debate-se se essa criança poderia ser o menino Jesus, que aguarda pacientemente ao lado do Pai. >
Quando o papa Sisto 4º encomendou a construção da capela que leva seu nome, em 1480, Michelangelo tinha apenas 5 anos. >
Levaria quase três décadas até que o mestre do Renascimento transformasse o teto com o seu pincel. >
Mas isso não quer dizer que o teto estivesse em branco: a abóbada era pintada de azul, com estrelas douradas. >
Era um céu criado por Piermatteo d'Amelia, um dos artistas convocados para decorar o recinto sagrado em um período extremamente curto — de apenas 11 meses, de julho de 1481 a maio de 1482.>
A equipe era formada pelos maiores pintores da geração anterior, entre eles Sandro Botticelli, Pinturicchio, Cosimo Rosselli, Pietro Perugino (mestre do pintor e arquiteto Rafael) e Domenico Ghirlandaio (mestre de Michelangelo). >
O projeto incluía um ciclo de cenas do Antigo Testamento e outro do Novo Testamento, com narrativas que começavam na parede do altar, continuavam ao longo das laterais da capela e terminavam nas paredes da entrada. >
Na parte superior, foi pintada uma galeria de retratos papais, completada na parte inferior com representações de cortinas pintadas. >
Doze pinturas desses artistas do século 15 ainda retratam de forma magnífica as cenas da vida de Cristo e de Moisés nas paredes da capela. >
Originalmente, eram quatorze, mas, em 1533, Clemente 7º de Médici pediu que Michelangelo pintasse O juízo final na parede do altar, e os primeiros episódios da história, pintados por Perugino, se perderam, assim como o retrato da Virgem entre os apóstolos.>
O juízo final foi pintado 25 anos depois do teto da Capela Sistina, quando Michelangelo tinha 60 anos. >
A tarefa era desafiadora: representar o fim dos tempos e o começo da eternidade.>
Ninguém melhor do que Michelangelo para fazer isso.>
A pintura traduz com maestria, sobre um fundo azul, o significado literal do apocalipse. O termo, que vem do grego apokálypsis, significa "remover o que cobre", "retirar o véu", "descobrir", "revelar".>
Assim, muitas das mais de 300 figuras que rodeiam Cristo — quase todas masculinas — estão nuas. >
Quando Biagio da Cesena, mestre de cerimônias papal, reclamou de "tamanha indecência", a resposta de Michelangelo foi imortalizá-lo na pintura como o juiz dos condenados e do inferno. >
Pintou-o nu, exceto por uma serpente enrolada nos quadris, que morde seu órgão genital.>
Mas Biagio não foi o único a se escandalizar com a obra, e as críticas continuaram mesmo após a morte de Michelangelo. >
Quando o Concílio de Trento proibiu a "arte lasciva", a obra foi condenada como indecorosa. >
Em 1564, o papa Pio 5º ordenou que Daniel da Volterra, que havia sido aprendiz de Michelangelo, cobrisse a nudez dos personagens. >
Isso lhe rendeu o apelido de Il Braghettone, ou "o criador de calcinhas".>
Quatro séculos depois, durante a restauração de O juízo final nas décadas de 1980 e 1990, surgiu o dilema: preservar ou remover as pinturas adicionais que ocultavam a obra original de Michelangelo.>
A solução foi deixar alguns vestígios da censura como evidência da mentalidade dominante do século 16, e recuperar o máximo possível do aspecto original da pintura.>
Assim, São Pedro, São Bartolomeu e Santa Catarina de Alexandria ainda vestem as peças criadas pelo "criador de calcinhas".>
O Renascimento italiano e o Império inca raramente são associados, mas ambos foram fenômenos que ocorreram na mesma época. >
A cidade de Machu Picchu, localizada nos Andes, no Peru, terminou de ser construída por volta de 1450, no auge do poder do império, e provavelmente permaneceu ocupada até 1530. >
A mais de 10.500 quilômetros de distância, enquanto os imperadores incas continuavam reinando do alto da montanha, os grandes artistas italianos criavam suas pinturas na Capela Sistina do Vaticano. >
E Machu Picchu ainda estava habitada quando, em 1512, Michelangelo estava dando os retoques finais em sua obra no teto da capela. >
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