Publicado em 15 de janeiro de 2024 às 17:11
O Equador vive uma das maiores crises de segurança da sua história recente.>
Um ataque violento a uma emissora de televisão, sequestros de policiais, fugas de importantes líderes criminosos das prisões e incursões de grupos armados em universidades são alguns dos episódios que atingiram o país nos últimos dias.>
Isso tudo levou o presidente equatoriano, Daniel Noboa, a declarar a existência de um "conflito armado interno" no país, pedindo às Forças Armadas que ajudaessem a restabelecer a ordem.>
A crise de segurança no Equador agravou-se especialmente nos últimos 4 anos.>
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Em 2023, o Equador bateu o seu recorde histórico de homicídios com 7.878, um aumento drástico em comparação com os 1.187 registrados em 2019.>
O país se tornou um importante centro regional de armazenamento, processamento e distribuição de drogas, o que fortaleceu as mais de 20 facções criminosas que nele operam.>
Diante desta situação complexa, o que outros países, como o Brasil, podem aprender com o que está acontecendo hoje no Equador?>
Especialistas consultados pela BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, concordam que uma das coisas mais importantes para impedir o avanço do crime organizado é a presença do Estado em diferentes territórios.>
"No Equador, temos um Estado que evaporou, que se tornou invisível ou que, quando está presente, está presente de forma negativa", explica Douglas Farah, consultor e analista de segurança nacional, que estuda a América Latina há mais de três décadas.>
"É fundamental que os países redesenhem os seus sistemas para que o Estado seja visto como um agente positivo", acrescenta.>
Pablo Zeballos, ex-oficial de inteligência chileno e consultor internacional sobre crime organizado, tem opinião parecida.>
"O controle territorial por facções criminosas anda de mãos dadas com o abandono do Estado. E isso pode gerar condições extremamente dramáticas, onde estes grupos fazem acordos com as estruturas de governo", diz.>
Para conseguir uma maior presença do Estado, o investimento no setor público é fundamental, em áreas como a educação, o emprego e a saúde, afirmam os especialistas.>
E quando esses fatores falham, a criminalidade aumenta.>
É o que afirma o Observatório Equatoriano do Crime Organizado (OECO), que, em um relatório sobre a caracterização do crime organizado no Equador, afirma que "a pobreza, o desemprego e a desigualdade", que sofreram "crescimento sustentável" nos últimos anos, "têm uma relação causal com o nível de crime e violência nas cidades".>
"A promoção do emprego é uma ação que combate o crime, porque melhores padrões de vida estão correlacionados com menor criminalidade", disse a pesquisadora boliviana Diana Balderrama à BBC News Mundo.>
Por outro lado, para Luis Córdova Alarcón, coordenador do programa Pesquisa, Ordem, Conflito e Violência da Universidade Central do Equador (UCE), a presença do Estado na regulação da economia dos países latino-americanos também é importante.>
Ela considera que um processo de "encolhimento do Estado" ao longo das últimas três décadas agravou a situação e acelerou a estruturação do crime organizado, facilitando "lavagem de dinheiro e fluxo de dinheiro sujo" em toda a região.>
Para os especialistas, é importante que os países latino-americanos compreendam que o crime organizado "opera sempre na intersecção entre agentes estatais, criminosos e setores econômicos".>
"Portanto, qualquer estratégia para neutralizar a presença de mercados ilícitos e estruturas criminosas deve apontar nestas três direções", afirma Luis Córdova Alarcón.>
No caso do Equador, os especialistas dizem que as facções se tornaram onipresentes na estrutura do país, expandindo os seus tentáculos não só na sociedade civil, mas também nas próprias instituições.>
Em meados de dezembro, o Ministério Público equatoriano lançou uma megaoperação contra a corrupção e o tráfico de drogas em diferentes partes do país.>
A operação Metástase, como foi chamada, levou à prisão de 29 pessoas, entre elas juízes, promotores, policiais, advogados e outras pessoas ligadas ao crime organizado.>
Os entrevistados pela BBC News Mundo dizem que é importante que os governos latino-americanos criem um mecanismo de supervisão das forças de segurança e do Estado.>
"O Equador nunca fez isso. O Equador usou a força pública sabendo que há 'narcogenerais' na polícia ou que temos criminosos infiltrados nas Forças Armadas... então o resultado é óbvio", diz Córdova Alarcón.>
Para Pablo Zeballos, a corrupção é uma das "condições mais importantes" para o crescimento do crime organizado.>
"Essas estruturas não crescem do nada. Eles crescem porque há algo que lhes permitiu crescer ou porque ninguém prestou atenção nelas, intencionalmente ou não", afirma.>
No Equador, as prisões são o epicentro da crise de segurança pública.>
A realidade de outros países latino-americanos, como o Brasil ou a Venezuela, não é muito diferente.>
E as diferentes penitenciárias criadas pelos Estados para melhorar a segurança dos que estão fora deles tiveram o efeito oposto ao pretendido: tornaram-se centros de comando de importantes organizações criminosas.>
O paradoxo foi exposto há poucos dias em Guayaquil, onde a fuga da prisão de Adolfo Macías, o "Fito", líder de um dos grupos criminosos mais perigosos do Equador, desencadeou uma onda de tumultos nas prisões e ataques fora delas.>
Os especialistas concordam que existe uma urgência para os países latino-americanos investirem em prisões melhores, com maior sistema de vigilância.>
Mas eles alertam que o investimento não é apenas sinônimo de melhor infraestrutura.>
"Podemos ter prisões modernas, mas se isso não for acompanhado de investimento em recursos humanos qualificados e mecanismos de controle adequados, teremos uma perda. É como dar um hotel 5 estrelas ao grupo criminoso", afirma Pablo Zeballos.>
"As prisões continuam sendo uma prioridade muito baixa para a grande maioria dos países latino-americanos porque se acredita que os criminosos não têm direitos. Mas a verdade é que se não criarmos boas condições, as prisões acabam por se tornar nascedouros de violência e criminalidade", afirma Douglas Farah.>
Luis Córdova Alarcón alerta que é preciso ter cuidado com os benefícios penitenciários que são concedidos aos líderes de gangues em troca de informações. >
"No Equador, as prisões tornaram-se trincheiras do crime organizado graças à política estabelecida pelo governo e pela polícia para obter informações sobre o tráfico de drogas", explica.>
"Em troca de informações sobre o movimento das drogas, eles deram benefícios aos líderes criminosos.">
"E, claro, o governo teve sucesso na apreensão de drogas, na desintegração de gangues, mas ao mesmo tempo as estruturas de gangues nas prisões tiveram sucesso porque continuaram acumulando fortunas e privilégios", ressalta.>
Na América Latina, militares têm sido utilizados para restaurar a ordem diante de várias crises de segurança.>
O Equador faz isso agora, mas países como Brasil, México e Colômbia também são exemplos disso. >
Para especialistas, uma das razões pelas quais os governos latino-americanos têm recorrido tão frequentemente a esta via é devido à percepção de fraqueza das suas forças policiais, que é alimentada por casos de corrupção e profundas crises de representatividade. >
"A polícia na América Latina, em geral, tem sido caracterizada pela corrupção e pela fraqueza no enfrentamento ao tráfico de drogas", diz David Saucedo, especialista mexicano em segurança pública.>
É o que acontece hoje no Equador, onde vários agentes policiais foram recentemente demitidos. >
Na opinião dos especialistas, este é um fator fundamental para fortalecer o crime organizado. >
"Ter uma força policial saudável, capaz e treinada é um eixo fundamental de qualquer política de combate à violência", afirma Douglas Farah.>
"Vimos que quando as pessoas pensam que ao chamar um policial vai chegar um ladrão é porque o sistema falhou", diz.>
Pablo Zeballos afirma que não só é importante apoiar e formar a polícia, mas também "punir drasticamente os policiais que, quebrando o seu juramento, cometem crimes e permitem que estes espaços sejam contaminados".>
Por sua vez, Luis Córdova Alarcón afirma que o problema da segurança não pode ficar apenas nas mãos da polícia ou dos militares.>
"Essa questão deve envolver mais fortemente a população civil. Caso contrário, acabam sendo os militares e a polícia que ocupam o debate sobre segurança e essa é uma armadilha na qual o Equador caiu e na qual estão caindo vários países latino-americanos", alerta.>
Segundo o presidente do Equador, Daniel Noboa, hoje operam no país mais de 20 gangues criminosas que seu governo classifica como "organizações terroristas". >
Eles travam uma luta interna pelo controle das rotas lucrativas do tráfico de drogas que existem no território equatoriano. >
Entre as gangues mais conhecidas estão os Choneros, liderados pelo foragido conhecido como "Fito", os Tiguerones, os Lobos e os Lagartos.>
E embora hoje muitos latino-americanos tenham ouvido o nome destes grupos, até poucos anos atrás eles não apareciam amplamente no debate público.>
"Acho que uma das grandes lições aprendidas com o caso equatoriano é que não devemos subestimar a capacidade do próprio crime local", diz Pablo Zeballos.>
"Um erro que o Equador cometeu foi dizer: 'isto são apenas gangues'. E ainda são gangues, mas são capazes de ter organizações muito fortes", acrescenta.>
Na mesma linha, os especialistas concordam que, se não forem levados a sério, os criminosos receberão mais poder e ferramentas para crescer.>
"Na América Central, as 'maras' foram 'apenas gangues' durante quase duas décadas. Até que começaram a se organizar e agora são um grupo do crime organizado muito forte", diz Douglas Farah.>
O pesquisador acrescenta que isso não significa que não se deve ficar alerta a possíveis entradas de criminosos vindos de outros países.>
Por isso, diz ele, deve haver um controle adequado das fronteiras e uma política de colaboração entre países vizinhos. >
Mas os especialistas concordam que hoje, com o acesso tecnológico, os modelos criminais bem-sucedidos de outros países são facilmente replicáveis. >
"As facções estão sempre aprendendo", alerta Pablo Zeballos.>
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