No dicionário, o significado de cidadão é pessoa que goza de direitos e desempenha deveres que lhe permitem viver em sociedade. Se considerarmos estritamente essa definição, pessoas em situação de rua dificilmente seriam definidas como cidadãos plenos. À margem do convívio social, estão órfãs das tais garantias constitucionais.
Reportagem especial deste jornal apontou que mais de 500 pessoas encaram esse duro cotidiano só em Vitória, Vila Velha e Serra. Em um cenário de violência urbana alarmante, elas são vítimas também do preconceito. Um homem que vive nas ruas da Capital resumiu seu drama: “Você é sempre um suspeito”.
Esse estigma, aliado à falta de documentação, cria barreiras por vezes instransponíveis ao acesso aos serviços públicos – acesso esse que, com frequência, já é complicado para qualquer cidadão, diga-se de passagem. O resultado é que muitos ficam ainda mais isolados. A falta de vínculos, quando se une ao consumo de drogas, gera uma mistura potencialmente fatal para o usuário e para as pessoas à volta.
É o caso do morador de Vila Velha que teve o carro atingido por uma pedra jogada por um usuário de droga, na última quarta-feira. Por sorte, o dano foi apenas patrimonial. Em maio, a empresária Simone Tonani pagou com vida ao ser ferida por um vergalhão lançado por outro dependente químico.
Seria ingênuo bradar aqui frases imperativas, como se as respostas fossem cristalinas. Mas também não cabe o silêncio, confundindo a complexidade do problema com impossibilidade de solução. A situação de rua é um fenômeno de múltiplas causas, mas retirar as pessoas da invisibilidade é o primeiro passo, com saúde e assistência social no front. No entanto, de pouco adiantará que os cidadãos – aqueles que têm direitos de fato – cobrem ação dos entes públicos se não for combatido o abismo que divide o Brasil entre aqueles que vivem nas ruas e aqueles que, já donos de imóveis, recebem auxílio-moradia de R$ 4,3 mil mensais, como bem lembrou um leitor em mensagem enviada a esta Redação.