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Gabriel Tebaldi

Mobilidade urbana não é apenas tinta no asfalto

Não se transforma a mobilidade urbana com tinta no asfalto, câmeras e apelos de conscientização. É preciso qualidade e competência antes de fazer exigências

Publicado em 27 de Abril de 2018 às 19:56

Públicado em 

27 abr 2018 às 19:56

Colunista

Linha verde, na orla de Camburi, em Vitória Crédito: Ricardo Medeiros

Entre as boas intenções e o êxito há um abismo: a realidade. Por detrás do projeto da Linha Verde, em Vitória, há bons princípios: redução de viagem para 60% da população, prioridade para o transporte coletivo, preocupação ambiental e menos veículos particulares nas ruas.

Para a prefeitura, a cruzada é cultural: é preciso mudar os hábitos, migrar dos carros para os ônibus. Para isso, a Linha Verde é a carta de boas-vindas. Mas essa expectativa é ilusória, e muitas são as razões que desmancham tal esperança.

Segundo o Setpes, Vitória conta com cerca de 300 ônibus em circulação. Já a frota de carros da Capital passa de 200 mil. Caso 5% dos motoristas substituíssem seu meio de transporte, hipótese bastante otimista, a superlotação do sistema implodiria.

Na prática, o transporte coletivo na Região Metropolitana é um convite ao estresse, ao desconforto, ao descaso e à insegurança

A baixa qualidade do transporte é, também, seu grande repelente. A idade média da frota é de seis anos, o que supera a média nacional de 4,8 anos, e chega perto do limite técnico da CNT, de sete anos. Somado a isso, os coletivos sofrem cerca de 90 assaltos por mês, segundo o Sindirodoviários, além de 2.100 pulos de roleta por dia somente no município de Vitória!

Segundo a ANPARQ, dos 24 indicadores de qualidade do transporte público da Capital, apenas quatro alcançam nota máxima de desempenho; 15 itens possuem índices intermediários e cinco deles recebem a nota zero! Dentre estes, estão a qualidade das vias, suas tarifas e o índice de passageiros por quilômetro.

Na prática, o transporte coletivo na Região Metropolitana é um convite ao estresse, ao desconforto, ao descaso e à insegurança. A crença no abandono dos carros para uso de um sistema com velocidade média de 33 km/hora e desestímulos generalizados é como lançar palavras ao vento.

Não se transforma a mobilidade urbana com tinta no asfalto, câmeras e apelos de conscientização. É preciso oferecer qualidade e competência antes de fazer exigências. Só assim a queda de braço entre governo e população pode se transformar num verdadeiro debate em direção ao futuro.

*O autor é graduado em História e Filosofia, e pós-graduado em Sociologia

 

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