Os deslocamentos transformaram-se no tormento dos grandes centros urbanos, e a Grande Vitória, com suas características peculiares, amarga gargalos tão emperrados quanto o seu trânsito nos horários de pico. As propostas para o incremento da mobilidade urbana de postulantes ao Palácio Anchieta há anos se encaixam num refrão sem grandes variações, repetido à exaustão sem que se chegue a concretizações que enfim encerrem a cantilena.
Há muito a ser feito, ninguém que saia diariamente para o trabalho, para a escola ou para seus compromissos pessoais ousa discordar. Mas, se as obras de infraestrutura essenciais não conseguem sair do papel, é preciso também atacar pelas beiradas, com ações mais facilmente implementadas. Não se trata somente de dinheiro, mas de colocar as melhores cabeças da gestão para funcionar. Passamos por uma crise fiscal, porém não se pode economizar na busca de soluções inteligentes, transformadoras. Um exemplo corriqueiro nesse sentido: ruas mais arborizadas são um incentivo ao uso da bicicleta (com a presença de ciclovias, é claro) e até mesmo aos deslocamentos feitos a pé. Os mais céticos dirão que não resolvem o problema, mas são um começo, uma mudança de cultura.
Outros choques de realidade são necessários, um deles diz respeito à segurança pública. Enquanto persistir a violência nas ruas, é improvável que donos de carro deixem seus veículos em casa para adotar o transporte público, por mais pontual e confortável que ele seja (dois adjetivos que ainda passam longe da realidade do Transcol ou dos ônibus municipais). Destaca-se, assim, que a mobilidade urbana é afetada por aspectos multidisciplinares.
No campo das grandes propostas, fica claro que um sistema aquaviário, uma das promessas mais recorrentes, ajudaria a desafogar o tráfego entre a Ilha e os municípios da região. Mesmo com um custo elevado, é um tipo de transporte que se encaixa perfeitamente à nossa geografia e, por isso, lamenta-se tanto a sua ausência. Mas será mesmo possível colocar o sistema em funcionamento nos próximos quatro anos? É preciso ser realista.
É o momento de escolhas, e não há mais tempo para populismos e projetos por ora impraticáveis. Projetos esses que não podem ser enterrados, pelo contrário. Devem ser mantidos com a máxima carga de idealismo. Mas a conversa dos eleitos com seus eleitores deve ser mais franca do que nunca. É possível aprimorar o transporte urbano sem pirotecnias eleitorais que não durarão até o início do próximo mandato.