
Monica Amorim Gonçalves*
Uma máxima nordestina diz que “a primeira coisa que a chuva lava é a memória da seca”. A crise hídrica que recentemente marcou regiões brasileiras, como o Sudeste e o Nordeste, tem sido amplamente discutida entre governos, usuários de água e sociedade. Nesse contexto, o desperdício em sistemas de abastecimento público tem se tornado um assunto recorrente e cada vez mais preocupante.
No Brasil, os indicadores sobre perdas de água potável são ruins e esse fato não é de hoje. Contudo, a escassez ocasionada pelos regimes pluviométricos alterados nos últimos anos tem realçado a questão tornando-a difícil de engolir. Essa insatisfação da sociedade pode ser fundamental e muito positiva se, num futuro próximo, quisermos usufruir de água, ou de mais água, para as nossas atividades.
Historicamente, a questão das perdas de água em sistemas de abastecimento tem permanecido quase paralisada, ou seja, muito pouco tem sido feito, Brasil afora, para solucionar ou amenizar o problema. Mas, com a crise hídrica, principalmente no Sudeste, olhar água vazando da rede de abastecimento tem gerado desconforto no cidadão comum. Para quem já vivenciou os efeitos da falta de água, o desperdício pode ser algo inaceitável. Será que estamos começando a criar uma memória da seca?
De acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), as perdas de água nos sistemas de abastecimento podem chegar a 38%. O Instituto Trata Brasil, em estudo publicado recentemente, transformou este número em algo mais concreto e nos informou que 38% de perdas corresponde a 7 mil piscinas olímpicas de água pronta para beber, potável, indo pelo ralo, literalmente, todos os dias. Esse número é o equivalente a seis vezes a capacidade do Sistema Cantareira completamente cheio. Se vier à memória os dias em que tínhamos água chegando nas torneiras dia sim, dia não, é provável que pensemos nisso como algo desconfortável ou inaceitável.
Nossa insatisfação com o desperdício pode aguçar nossa memória da seca e fazer com que, enquanto cidadãos busquemos instâncias de participação como os Comitês de Bacias Hidrográficas para discutir o assunto. Podemos ainda tratar a questão nos processos participativos de elaboração de instrumentos como os Planos de Recursos Hídricos e os Planos de Saneamento Básico. Esforçar-se para preservar a memória pode ser muito saudável, em muitos aspectos.
*A autora é doutora em Recursos Hídricos