O massacre na escola em Parkman, Flórida, vitimou até o momento 17 pessoas, entre alunos e professores. Armado com um rifle AR-15, Nikolas Cruz invadiu sua antiga escola e disparou centenas de tiros contra seus ex-colegas e professores. Longe de ser a exceção, entretanto, incidentes com armas de fogo em escolas se tornaram a regra nos Estados Unidos. Desde 2013, foram quase 300 incidentes em escolas e universidades norte-americanas. Praticamente um por semana, de acordo com a Everytown For Gun Safety.
Deu início a um ciclo que a maioria já conhece e se repete a cada nova tragédia envolvendo armas de fogo, como a de Sandy Hook e, mais recentemente, Las Vegas. Democratas clamam para que leis restringindo o comércio de armas sejam aprovadas. Republicanos lamentam o acontecido, apontam para problemas associados – como o histórico de problemas psicológicos que, com frequência, acompanha o atirador – e reafirmam a defesa da 2ª Emenda, que garante o direito ao porte de armas nos Estados Unidos. Com o passar dos dias, a memória do incidente se esvanece – para aqueles não diretamente envolvidos – e a agenda política e a imprensa seguem em frente.
E por que nada acontece? A resposta mais simples é que, enquanto republicanos controlarem ambas as Casas do Congresso e a Presidência, permanece extremamente improvável que haja mudanças restringindo o comércio ou a posse de armas de fogo. Um olhar mais atento permite que se notem algumas dinâmicas de fundo.
Apesar de restrições específicas ao comércio de armas, como a proibição da venda de rifles automáticos, como o usado pelo atirador em Parkman, tenham apoio da maioria da população, é fato que os eleitores contrários a quaisquer dessas restrições são mais engajados politicamente do que aqueles que são favoráveis. Votam em função desse único assunto, se mobilizam e, principalmente, contribuem financeiramente para os candidatos que compartilham da sua opinião.
Financiamento de campanhas eleitorais exerce um papel difícil de superestimar nesse tema. A National Rifle Association, principal entidade de lobby pró-armas dos EUA, doa milhões de dólares para candidatos que apoiam irrestritamente sua causa. Donald Trump, por exemplo, recebeu mais de 10 milhões de dólares em contribuições, diretas e indiretas. A NRA também é temida por financiar pesadas campanhas contra candidatos a favor de restrições ao comércio e porte de armas – Hillary Clinton foi alvo de quase 20 milhões de dólares em propaganda negativa.
Enquanto essas dinâmicas políticas permanecerem, dificilmente serão aprovadas as restrições que podem tornar escolas menos perigosas. E, se não há expectativa de que a frequência desses incidentes diminua, com as eleições legislativas de 2018 se aproximando, esse tema poderá ganhar força e se tornar um importante instrumento na pretensão dos democratas de retomar o controle da Câmara dos Deputados e do Senado.
Por Guilherme France
Pesquisador do Centro Justiça e Sociedade da FGV Direito Rio e mestre em Direito Internacional