Medalhista de bronze nos Jogos Paralímpicos de Tóquio-2020 e campeã mundial de vôlei sentado em 2022, a capixaba Luiza Fiorese inicia uma nova fase da vida após passar por uma amputação transfemoral, realizada acima do joelho. Aos 29 anos, a atleta recebeu alta depois de enfrentar 12 cirurgias desde a adolescência.
Após receber alta hospitalar no domingo, dia 4 de outubro, a capixaba destacou as mudanças que já percebe na rotina depois da cirurgia. A amputação, segundo ela, representa o encerramento de um ciclo de procedimentos médicos e a possibilidade de viver com mais autonomia após anos de dores e complicações.
"Está sendo muito mais dinâmico e livre, mais fácil fazer as coisas do dia-a-dia. Não quero me colocar no lugar de romantizar a amputação, mas para mim está sendo muito bom. É como se tivesse tirado um peso de mim, e isso me deixou mais leve em todos os sentidos", relatou Luiza ao g1.
A trajetória de Luiza com os procedimentos médicos começou aos 15 anos, quando foi diagnosticada com osteossarcoma, um tipo de câncer ósseo localizado no fêmur esquerdo. Após o tratamento, parte do osso precisou ser substituída por uma endoprótese.
Em junho deste ano, a atleta passou por uma nova etapa de tratamento para trocar o implante, mas o espaçador utilizado durante a preparação para a cirurgia quebrou, provocando dores e novas complicações.
Diante do quadro, a atleta recebeu duas possibilidades: colocar uma nova endoprótese, que poderia precisar de outra substituição cerca de dez anos depois, ou amputar a perna. Após conversar com familiares, o noivo, amigos e médicos, ela decidiu pelo procedimento.
"Conquistei grandes coisas com a minha perna e tenho um apego emocional por tudo o que vivemos 'juntas'. Aos 29 anos, estou mais madura. Se eu tivesse feito aos 22 anos, isso influenciaria no meu bem-estar e autoestima. Hoje, tenho a tranquilidade de saber que tomei a decisão certa", afirmou a atleta.
Para Luiza, a amputação não representa uma perda. Ela afirmou que o procedimento trouxe a possibilidade de recuperar a liberdade. A possibilidade da amputação já havia sido pensada anteriormente, mas a atleta disse que foi importante ela se preparar psicologicamente e amadurecer primeiro.
A atleta também defende que a amputação seja tratada com mais naturalidade e que as necessidades das pessoas com deficiência sejam consideradas, inclusive os impactos emocionais, familiares e financeiros e o alto custo das próteses.
"Eu não vejo a amputação como uma coisa que me tirou algo. Eu vejo como algo que me deu liberdade de viver de novo, e a vida não para. Falo disso no lugar da menina de 15 anos que teve que colocar uma endoprótese. Minha vida não parou ali, só se multiplicou. Conquistei coisas que jamais imaginei conquistar", disse.
Luiza também contou com o apoio do noivo, Gabriel Garcia, que também é atleta. Ele a pediu em casamento em fevereiro deste ano. Segundo ela, Gabriel ajudou a dar segurança para que ela tomasse a decisão pensando no próprio bem-estar.
"Ele me mostrou que nada mudaria entre nós e que continuaria me achando linda, o que me deu paz para decidir pensando só em mim", disse.
Luiza passou pelo procedimento em São Paulo, mas pretende concluir a reabilitação perto dos pais e dos cachorros, no sítio da família em São Roque, comunidade rural de Venda Nova do Imigrante, no Sul do Espírito Santo.
Os primeiros objetivos são recuperar a mobilidade, andar bem e voltar a ter qualidade de vida. Depois, Luiza quer viajar. Ela contou que precisou cancelar diversos passeios por causa das cirurgias e das complicações. Agora, pretende conhecer novos destinos ao lado da família e das amigas.
"Não me assusta [a mudança de vida], porque eu sei que o ser humano é feito para se adaptar. Eu sei que vai ter suas dificuldades, seus momentos difíceis, mas também vai ter coisas legais, novas e diferentes que eu vou descobrir. Eu sei que a gente tem essa capacidade de se adaptar", relatou Luiza.