A entrevista de Lula à “Folha de S. Paulo”, publicada no dia 7, mostra que o ex-presidente vive em um mundo do “faz de conta”. Ele diz que é favorável à Operação Lava Jato (será?), que a Petrobras é vítima de um complô dos americanos, que os procuradores que o acusam, assim como o juiz Sergio Moro, recebem instruções dos Estados Unidos para agirem como agem e – acreditem! – acha que o presidente Temer foi vítima de uma tentativa de golpe (de Janot, TV Globo e Joesley Batista), que visava colocar Rodrigo Maia em seu lugar. E mais: os Estados Unidos também estariam detrás das manifestações de junho de 2013.
Delírios iguais aos de Lula são difíceis de encontrar. É natural que ele tente se defender – aliás, ele se recusou a responder às perguntas da jornalista sobre os favores que teria recebido de empreiteiras – mas é demais que tente colocar na responsabilidade dos “americanos” o que de ruim aconteceu na Petrobras. Acreditar nesta versão seria o mesmo que imaginar que Paulo Roberto Costa, Renato Duque, Pedro Barusco, Nestor Cerveró e tantos outros dirigentes da Petrobras já condenados cumpriam ordens dos “americanos” e não de quem os colocou lá.
Para Lula, “os Estados Unidos” também estiveram detrás das manifestações de 2013, as que defenderam o impeachment de Dilma. Ele acredita que “ali (...) começava o processo de tentar dar um jeito no Brasil”. Mas, afinal, quem são “eles?”, perguntou a jornalista. Lula respondeu: “Ah, não sei. Eu não vou ficar nominando”. Saída parecida o entrevistado encontrou ao se recusar a responder as perguntas sobre as acusações objeto dos processos a que está respondendo: “Você não é juíza. Eu vou esperar o juiz”.
Lula continua sustentando que nada sabia sobre os atos de corrupção ocorridos no seu governo, apesar de, segundo o Datafolha, 83% dos brasileiros não acreditarem nisso. Ele volta a repetir a desculpa de que ninguém sabe sequer o que o filho está fazendo neste momento. Considerando que cumprem pena por corrupção pessoas muito próximas dele – como Dirceu e Palocci, só para citar dois exemplos –, é possível perceber que Lula nunca foi um presidente que não iria “deixar roubar” como repetia em suas campanhas.
De todas as respostas dadas por Lula na entrevista a que mais chama atenção é a em que ele afirma que não é “contra a Operação Lava Jato” porque pertence “a um partido” e integrou “um governo que criou os mecanismos mais eficientes de combate à lavagem de dinheiro e à corrupção nesse país”. Só faltou explicar porque tantos integrantes desse partido e desse governo estão hoje cumprindo pena por terem cometido esses crimes.
*O autor é jornalista