Guy Debord, filósofo francês, criou a expressão “sociedade do espetáculo”. Uma crítica tanto ao mundo capitalista como socialista. Não importa a essência dos fatos, mas a aparência da comunicação, isto há 50 anos. Nada mais atual em uma sociedade influenciada pela informação e pela contrainformação. Assim está sendo tratado o caso do julgamento do ex-presidente Lula, no TRF-4. Como a impunidade para políticos, empresários e poderosos ainda é grande, o julgamento de um ex-presidente é tido como o grande acontecimento - um show. Não deveria ser, se nossa sociedade fosse justa e onde todos seriam iguais perante a lei, como reza nossa Constituição.
Lula é um fenômeno de comunicação. Sua carreira política foi feita no movimento sindical, usou as estruturas sociais da Igreja Católica para divulgar o PT e empolgou os intelectuais com seu discurso reformista. Alcançou a presidência, entre outros motivos, pela incompetência do PSDB - partido dito de centro-esquerda, mas vivia e vive muito mais na “Casa Grande” do que na “Senzala”. Lula veio da “Senzala”, conhecia as necessidades da população historicamente marginalizada, esquecida de todos, sem voz e sem vez.
Eleito, sabia que não poderia deixar de lado o poder financeiro. Ironicamente, nunca antes na história deste país os banqueiros ganharam tanto dinheiro como no seu governo, assim como a indústria automobilística, o agronegócio e a infraestrutura. Brasil potência! Os pobres ficaram com as migalhas sociais; os ricos, mais ricos; e a classe média se esfolando para pagar impostos, pois pobres não pagam, e ricos sonegam, para manter uma máquina pública cada vez mais inchada, ineficiente, anacrônica e corrupta. Lula, como tantos outros, se apaixonou pela “Casa Grande” e suas mordomias.
A casa começou a cair com o “mensalão”. Lula não foi atingido, apesar de vários dos seus companheiros de primeira hora terem conhecido o cárcere. Com o “petrolão”, esquema gigantesco de corrupção, o messiânico sindicalista foi alcançado. Agora, tivemos um ato importante, como o ex-presidente indo a julgamento em 2ª instância no primeiro de seis outros processos, onde é réu ou indiciado. Lula, infelizmente, é um exemplo de que nada muda neste país. Tudo o que ele combatia - velhas oligarquias políticas, falta de renovação, a luta por cargos públicos e manipulação da Justiça - agora ele, através de seus apoiadores, pratica. Ele é mais um “senhor de engenho” da política brasileira, agora transvestido de vítima das classes opressoras.
E o povo? Ora, o povo que fique com carnaval e Copa do Mundo. Pão e circo é uma prática válida há mais de 2000 anos.
*O autor é economista e teólogo