
Pedro Valls Feu Rosa*
Era o dia 24 de setembro de 1968. Chegava às bancas o jornal A GAZETA. Lia-se, logo na primeira página, a seguinte notícia: “Feu Rosa lamenta que o Brasil esteja pagando tantos juros. O Brasil já está pagando mais de 153 milhões de dólares de juros anuais sobre os empréstimos. A informação é do Ministro da Fazenda, em resposta a requerimento do deputado Feu Rosa”.
A matéria prossegue com um lamento do meu saudoso pai, a observar que enquanto isso “as nossas indústrias e o nosso comércio estão enfrentando grandes dificuldades e muitas até mesmo fecham suas portas”. E conclui com um pedido de “providências enérgicas e imediatas para se pôr cobro a esse horroroso estado de coisas”.
Passou-se o tempo e chegamos a 2006. Naquele ano, calculadora à mão, apurei que os recursos destinados no orçamento nacional para custear toda a Previdência Social, a Assistência Social, a Saúde, a Educação, o Trabalho, a Reforma Agrária, a Segurança Pública, o Urbanismo, a Habitação, os Direitos da Cidadania, o Desporto e Lazer, a Cultura e até o Saneamento, somados, davam R$ 317 bilhões. Ou R$ 7,9 bi a menos do que pagamos a título de juros - só de juros - naquele ano.
Fico a imaginar a expressão do meu saudoso pai, ao contemplar o triste país que nossa geração está deixando para a posteridade. Que a história nos seja misericordiosa!
Mais dez anos se passaram e alcançamos 2016, quando o Brasil reduziu em 23% seu gasto com juros em comparação com 2015 - e mesmo assim esse montante foi de R$ 407 bi. O do ano anterior havia sido o mais alto da história: mais de R$ 530 bi, em valores atualizados.
Precisamente meio século depois do já distante dia de 1968 consulto o Jurômetro da Fiesp. 2018 ainda está algo longe de acabar, mas já nos consumiu uns bons R$ 331 bi a título de pagamento de juros. Esta montanha de dinheiro seria suficiente para construir 315.996 escolas. Ou 5.038.422 casas populares. Ou 110.117 km de ferrovias. Ou para conceder 1.245.056.683 benefícios do Bolsa-Família. Ou 798.883.341 cestas básicas. Ou, pasme, pagar 540 vezes mais juros que em 1968!
Dizem ser muito fácil ocultar-se um elefante em uma plantação de morangos: basta pintar as unhas dele de vermelho. Deve ser verdade, já que temos passado as décadas a discutir a eliminação de direitos do bode expiatório, digo, do povo, e a entrega, digo, venda, do patrimônio público, a fim de que tenhamos mais recursos para nutrir o paquiderme dos juros - que segue em paz, longe dos holofotes.
Fico a imaginar a expressão do meu saudoso pai, ao contemplar o triste país que nossa geração está deixando para a posteridade. Que a história nos seja misericordiosa!
*O autor é desembargador