A disputa política no segundo turno da eleição presidencial acabou se tornando uma guerra. Como em toda guerra, a primeira vítima é a verdade. Como efeito colateral, uma instituição fundamental a qualquer democracia que se preze foi transformada em um dos principais alvos de ataques durante esta campanha eleitoral. Estou me referindo à imprensa profissional, livre e independente do país; a imprensa, cuja razão de existir é justamente a busca incansável pela verdade, ou, como diriam alguns, pela versão mais próxima possível da verdade.
Mostrando uma falta de cultura de consumo de informações jornalísticas, muitos têm preferido se desinformar por meio de fake news e de correntes de WhatsApp que na verdade só confirmam e convalidam algumas concepções prévias que as pessoas já levam consigo. Preferem crer no conteúdo apócrifo compartilhado pelo tio no grupo da família (pelo qual ninguém responde) a notícias assinadas, apuradas e checadas por jornalistas de grandes veículos que, se errarem ou mentirem, estão sujeitos a responder judicialmente por isso.
O que fazer então? Como reagir a esse fenômeno?
Devemos jogar a toalha, pedir as contas, nos curvar ao império das fake news e ir fazer outra coisa da vida? Não, de modo algum. Até porque a importância da imprensa, que já era grande, tende a ganhar peso ainda maior em breve.
Qualquer que seja o resultado da eleição de hoje, os brasileiros deverão apertar bem os cintos e aguentar o tranco, pois os próximos anos nos reservam tempos ainda mais difíceis, na política e na economia.
E então acredito que a imprensa profissional e independente, instituição (repito) que é um dos pilares da nossa democracia, passará a cumprir um papel ainda mais relevante: precisamente o de seguir fiscalizando e investigando os Poderes e os poderosos da vez e defendendo a preservação do Estado Democrático de Direito, ao lado de outras instituições que também trabalham com a busca da verdade, como o Ministério Público, a Justiça e a Polícia Federal.
Ataque a jornalistas é ataque à democracia
Por que essa guerra política se estabeleceu, bem como essa “cruzada contra a grande mídia”? Em grande parte, por responsabilidade das próprias campanhas, que têm trocado a apresentação de propostas por uma estratégia baseada apenas em ataques mútuos e na desconstrução do adversário, investindo no voto pela rejeição.
Em maior ou menor grau, as próprias campanhas têm estimulado esse clima de acirramento, com falas de exaltação da violência política, de apologia da intolerância, de incitação ao ódio em relação ao adversário, tratado como um inimigo a ser sumariamente eliminado. Também há uma longa cauda de declarações por parte de protagonistas ou coadjuvantes desta campanha que constrangem e confrontam instituições como o Poder Judiciário, colocando em xeque a solidez e a soberania dessas instituições.
Acrescente-se a isso uma série de falas irresponsáveis que jogam as respectivas militâncias premeditadamente contra a imprensa e aqueles que dão carne e osso a essa entidade abstrata: nós, os jornalistas, que na verdade somos a imprensa.
Durante a cobertura das eleições no Brasil, jornalistas têm sido sistematicamente atacados verbal e fisicamente, nas ruas e nas redes sociais, pelo simples fato de serem... jornalistas. Só este ano, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) registrou pelo menos 130 agressões a profissionais da comunicação em situações relacionadas à política e às eleições em 2018: 59 ataques físicos e 71 agressões em meios digitais. Isso até o início do segundo turno.
Quem elege a “grande mídia” como adversária a combater e trata jornalistas como “inimigos do povo”, quem escolhe com quem, quando e como vai falar, simplesmente não compreende a democracia. Ou até a compreende, mas tripudia dela.
Jornalismo é sacerdócio, cumpre um dever social, a serviço da verdade e, antes de tudo, do interesse público. Uma sociedade que ataca a imprensa está atacando a si mesma, ferindo os seus próprios direitos. Por quê?
Porque atacar a imprensa é atacar o direito sagrado do cidadão de se manter bem informado para compreender o que se passa à sua volta e tomar as suas decisões com maior embasamento, conhecendo os diferentes e plurais pontos de vista sobre uma mesma questão.
Jornalistas fiscalizam os Poderes e os poderosos, denunciam malfeitos, cobram soluções para problemas que afetam a todos nós. Sem imprensa livre, quem vai fazer isso? Os que carregam as canetas, microfones, lentes e credenciais são os olhos e ouvidos que, em nome da população, mantêm-se incansavelmente vigilantes sobre os atos dos governantes da vez.
Sem a imprensa atuante, como o povo saberá o que faz quem está no poder (ou pretende chegar lá)? Será que, em vez de informação rigorosa, checada e investigada, o público prefere se fartar com mentiras espalhadas por aplicativos e receitas de bolo estampando as páginas dos jornais no lugar das notícias censuradas, como nos tempos da ditadura militar?
A História nos ensina
Desde Gutenberg, nunca faltaram homens poderosos que quiseram calar a imprensa, diretamente ou por meio de seus seguidores, para fazer chegar às pessoas apenas o discurso oficial, filtrado pelo governo e imune a contestações. A prática é comum a todo e qualquer tipo de regime autoritário, a despeito de coloração ideológica: controlar e homogenizar as informações que chegam ao público, como única verdade possível.
Na Alemanha nazista, Joseph Goebbels, o ministro da propaganda de Hitler, ensinou a seus “sucessores”. Políticos assim, que preferiam amordaçar a imprensa, nunca deixaram de existir. E voltam a grassar no mundo ocidental atualmente.
Padrão Obama
Em janeiro de 2017, na última de suas 165 entrevistas coletivas como presidente dos EUA, Barack Obama reconheceu a importância da liberdade de imprensa para o seu governo e para o fortalecimento da democracia em seu país. E agradeceu aos repórteres que cobriram a Casa Branca pelo trabalho desempenhado ao longo dos anos de sua administração. “Ter vocês [jornalistas] neste prédio tornou o lugar melhor. Nos mantêm honestos, faz com que trabalhemos mais duro”, disse. “Vocês não devem ser bajuladores. Devem ser céticos.”
Padrão Trump
Aí, dias depois, veio Donald Trump, instituindo a “nova ordem”: notícia que não agrada a ele é, automaticamente, fake news. Por quê? Porque ele quer que seja assim. O presidente insulta a imprensa e instiga a violência a todo instante contra ela, tratada por ele como “inimiga do povo”. Nesta semana, a CNN sofreu ataque terrorista. É o presidente CNN: “Crazy, Nonsense, Nuts”.
Reflexão
E o próximo presidente brasileiro? Será um Obama ou um Trump na relação com a imprensa profissional? Como vai lidar com ela? Vai tentar silenciar jornalistas ou vai saber conviver com eles? E se o próximo governante tentar calar a imprensa, o povo brasileiro vai aceitar isso passivamente? Vai aplaudir esse suicídio? Pensem nisso.