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Cotidiano

Crônica: A arte do próximo

A fala das personagens, somadas à delicada potência das imagens, são prato cheio para um nó cego

Publicado em 14 de Maio de 2023 às 08:00

Publicado em 

14 mai 2023 às 08:00
Maria Sanz

Colunista

Maria Sanz

Arte
A mim, restou a experiência e o impacto, especialmente do Manifesto da Pop Art – sempre ligada a essa ideia de propagar o que haja Crédito: Shutterstock
Tá no livro do substancioso artista Antônio Bokel: "a propaganda da alma É o negócio".
E que negócio é esse que se propaga de tantas formas...?
Que ação é essa que transforma? E de que tipo de acontecimentos sensoriais/estéticos a vida se vale para denominar o que seja arte?
Manifesto? Ok, um manifesto é sempre uma tentativa. Mas há tantos, tantos, que juntos os Manifestos compõe uma verdade que basta: não há certo, nem errado.
Há apenas o próximo passo.
É disso que fala o último filme de Julien Rosenfeldt, que faz uma ode aos Manifestos de artistas como André Breton, Lars Von Tries, Alexander Rodtschenko, Wassily Kandisnky, entre outro, que com suprema beleza literária, tentaram e ainda experimentam dar conta de definir "o negócio" de que trata a propaganda da alma: A.R.T.E.
O filme pode ser considerado o Manifesto dos Manifestos, no sentido em que oferece uma visão-maxi: "julgue não".
Aliás, não julgue sequer o filme em si – que apesar de ser interpretado genialmente por Cate Blanchett, encarnada em 13 figuras que mesclam uma série Manifestos dos principais movimentos artísticos do último século (Situacionismo, Futurismo, Arquitetura, Expressionismo, Criativismo, Construtivismo, Dadaísmo, Surrealismo, Pop Art, Performance, Minimalismo e Filme) – não é nada fácil.
A fala das personagens, somadas à delicada potência das imagens, são prato cheio para um nó cego. A mim, restou a experiência e o impacto, especialmente do Manifesto da Pop Art – sempre ligada a essa ideia de propagar o que haja.
Talvez porque no roteiro, Julien tenha escolhido para este movimento um único texto: "Im am for an art...", escrito em 1961, por Claes Oldenburg. Apresentado no filme em forma de oração por uma mãe conservadora, sentada à mesa com sua família, instantes antes da refeição. Com as mãos em prece, solenemente ela suplica: "I am for an art...":
Sou por uma arte que seja política-erótica-mística. Que seja além de sentar a bunda num museu. Sou por uma arte que cresça mesmo sem saber que é arte. Uma arte que tenha a chance de começar do zero. Sou por uma arte que imite o humano, que seja cômico se necessário, ou violento, se for preciso. Por uma arte que parta das linhas da própria vida, que torça e estenda e acumule, e cuspa e pingue. Que seja pesada e grosseira, ou franca e doce como é a vida. Por uma arte que as crianças lambam depois de tirar o papel. Por uma arte que se fume, como um cigarro, e cheire como um par de sapatos. Sou por uma arte que se põe e tira, como calças, uma arte que tenha buracos como meias. Por uma arte que se coma como um pedaço de torta, ou seja abandonada com satisfação como um pedaço de merda. Sou por uma arte do fundo do bolso e da ponta da faca, dos cantos da boca, presa nos olhos ou usada nos pulsos. Sou por uma arte do suor que cresce entre as pernas cruzadas. Sou pela arte da conversa de bar, do palitar de dente, de cozinhar ovos, de insultar. Sou pela arte de cair do banco, pela arte das cuecas e calcinhas, pela arte da decoração dos caminhões, pela arte das casquinhas de sorvete que derretem no concreto chão. Pela arte que cai, esparrama, escorre e segue. Pela arte dos miados dos gatos, pela arte das geladeiras e do trabalho muscular de abri-las e fecha-las. Pela arte dos corações, os doces e os sombrios. Pela arte das bolhas de sabão nos cantos da banheira, pela arte dos ursos de pelúcia e das armas. Pela arte das árvores, dos ossos de galinha, e das bombinhas de São João. Pela arte das caixas com homens dentro e pela arte das flores ligeiramente murchas no funeral. Pela arte das baterias, tambores e tamborins. Pela arte do preço justo. Pela arte econômica. Sou pela arte do presunto, do frango, pela arte da banana, da maçã, arte do bolo e pela arte do biscoito. Pela arte que é raspada das pernas, que é escovada nos dentes e pela arte que até os pés escorrega. – (e então todos os familiares repetem juntos) – "Quadrado que se torna amorfo".
Adorei. Pessoalmente, também sou pela arte do próximo.

Maria Sanz

É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

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