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Cotidiano

Crônica: Hora do pente

Meus finíssimos fios de cabelo desde sempre se comportaram como um órgão delicado

Publicado em 07 de Maio de 2023 às 07:00

Publicado em 

07 mai 2023 às 07:00
Maria Sanz

Colunista

Maria Sanz

Mulher cuidado com os cabelos no verão
Meus finíssimos fios de cabelo desde sempre se comportaram como um órgão delicado Crédito: Shutterstock
Quando menina havia em minha nuca um eterno nó.
Era um punhado de cabelo que vivia embaraçado, e começava como um caroço de ameixa e devagar ia ficando como um caroço de manga sem caldo. De tempos em tempos, antes que mamãe descobrisse que ele havia voltado – caso em que ela sumariamente o cortava – eu gastava horas e um tubo de Neutrox amarelo para dar conta de desembolar o nó. O evento não falhava em ser semi-trágico – sempre com alguma lágrima envolvida.
Então o cabelo ficava todo lisinho, digno, sem aquele murundum escondido no pé na nuca. Novinho! É, mas só até a página 2. Porque passados alguns dias, o bololô ia voltando devagarinho formando o pequeno caroço de novo. E assim a vida seguia, entre as fases sem nó, e as de fadiga à vista.
Depois na adolescência vieram as micaretas. Juro! Mais de uma vez achei que não tinha jeito. Que meu cabelo seria pra sempre "monodreadlock". Porque todas às vezes que larguei o juízo para seguir o Chiclete na avenida, cheguei em casa com uma peruca anelada e curtinha. Sim, porque meu cabelo liso e comprido, fugia. Dava lugar a um literal nó-só.
Ai... Desembaraçar antes de dormir era uma escalada, um monstruoso exercício de determinação, empenho e autorreflexão – tudo no piloto automático. Já desembaraçar no dia seguinte era... Igualzinho, só que menos solitário – porque todas as amigas também tinham alguma(s) história(s) para desembolar da noite passada.
E nos lavatórios dos salões de beleza? Ai, como já dei (mentira, dou) trabalho. Já vi assistentes com lágrimas nos olhos diante daquele quadro pós-lavagem (na cuba, com jato... Tenso). Pessoalmente, já chorei várias vezes no salão. Claro que hoje, com experiência acumulada, levo minha própria escova amestrada e eles tratam a situação com todo cuidado, sem movimentos bruscos e creme à vontade.
Enfim, meus finíssimos fios de cabelo desde sempre se comportaram como um órgão delicado. Suscetível a mudanças drásticas – dependendo do contexto apresentado.
Sabe que, estive reparando, hoje em dia o mesmo acontece com meus cordões. Carrego no pescoço duas medalhas com o nome dos meus filhos – cada um em um fio. Fios estes que vivem embolados, enroscados, num nó que só. E esse nó engrossa, engrossa, até a hora que o embolo fica pesado. Ai a única saída é tirar tudo do pescoço e praticar com paciência a boa e velha arte-terapia de desenroscar os fios.
Depois de desenrolados, eles voltam a ficar lindos, então é só colocar de volta e esperar o nó engrossar de novo.
Ciclos.
– E não é assim que tudo feito em tramas finas funciona? Embola, desembola. Ata, desata. Estica, encolhe. Embaraça naturalmente e desembaraça na manha – ou na marra.
Então, relações (humanas), sentimentos, situações, cordões, finanças... Horas, dias, fios... Tudo que de modo natural tende mesmo a sair do trilho: misturar, confundir, embolar e deixar a vida completamente descabelada.
Mas... Fazer o quê? Há séculos inventaram o pente fino e o advento do "ano novo" para dar jeito nisso.

Maria Sanz

É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

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