Cão orelha. Crédito: Redes sociais
O caso do cachorro Orelha, em Santa Catarina, escancarou uma ferida que vai além de um episódio isolado. Ele nos obriga a olhar para dentro, como sociedade, como família, como humanos.
Cães e gatos, não exigem status, desempenho, sucesso. Pedem apenas presença, cuidado e afeto. Em troca, entregam tudo. Orelha fez exatamente isso. Abanou o rabinho e foi em direção em busca de amor, mas acabou, infelizmente, encontrando a morte de uma forma tão atroz que nos deixou, a todos, estarrecidos.
O tamanho da violência praticada em Orelha revela o quanto ainda falhamos na construção da empatia, dos limites e da responsabilidade. A violência contra um animal nunca nasce do nada, ela é reflexo de relações quebradas, de ausências e de uma educação que falhou em ensinar respeito à vida.
Só após uma comoção coletiva, que reuniu brasileiros de todos os estados e até pessoas do exterior, sensibilizadas com o tamanho da violência praticada contra Orelha, clamando por justiça, é que se deu início de fato à investigação da polícia de Santa Catarina.
E nesse imbróglio, chegamos, ao que parece, uma ação delituosa planejada e executada com tamanha habilidade que não deixa evidências, não permite a identificação do (s) autor (es) e, no seu nível mais absoluto, sequer é detectado como um crime. Isso, em uma praia que tem cerca de 5 mil habitantes apenas.
Enfim, as provas, os vídeos, as testemunhas, tudo, agora, parece ser fruto da imaginação de um Brasil que, de repente, enlouqueceu “só por conta de um cachorro”. Mas como se diz na máxima da investigação criminal moderna: não existe crime perfeito, mas sim crime mal investigado.
Vamos combinar, não se trata “apenas de um cachorro”, mas de um ser senciente, que pode ser afetado positivamente ou negativamente, como, aliás, nós, os humanos (a única coisa que nos diferencia de outros animais é justamente as habilidades cognitivas, o pensamento, a racionalidade, o uso de linguagem simbólica e a consciência de nós mesmos).
A médica-veterinária, membro da Comissão de Bem-Estar Animal do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Espírito santo (CRMV), Letícia Barcellos, explica como funciona a “Teoria do Elo” (The Link), que estabelece uma relação direta entre maus-tratos a animais e a violência interpessoal, especialmente contra mulheres, crianças e idosos.
“Evidências científicas mostram que a agressão a animais frequentemente antecede ou coexiste com outras formas de violência, funcionando como um marcador precoce de ambientes familiares disfuncionais e relações baseadas em dominação e controle. Nesse contexto, os animais assumem um papel técnico importante: tornam-se sentinelas da violência. Por isso, profissionais da saúde, incluindo médicos-veterinários, têm papel estratégico na detecção precoce desses cenários, contribuindo para a prevenção de violências futuras”, ressalta.
O caso de Orelha, portanto, destaca Barcelos, extrapola a esfera da proteção animal e convoca a uma abordagem integrada, alinhada ao conceito de Saúde Única, que reconhece a interdependência entre saúde animal, humana e social. “Ignorar esse tipo de violência é perder a oportunidade de interromper ciclos que tendem a se agravar com o tempo", garante.
Cabe a nós, população de bem, continuar lutando por Orelha e todos os Orelhas deste país. A investigação da polícia catarinense que afirma não ter mais provas suficientes, me fez pensar em quantos tutores de animais de estimação ajudei, que tiveram seus companheiros de quatro patas fugidos de casa e o encontraram traçando o seu percurso apenas colhendo imagens de câmeras de videomonitoramento, públicas e privadas, a partir do momento que colocaram as patinhas para fora do portão. Inclusive gatos. E só quem conhece o perfil dos bichanos sabe o quanto isso é difícil, porque eles tendem a se esconder.
Fica a dica: se a polícia catarinense contratar um tutor de felino, garanto que qualquer crime será solucionado.
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