Quando se fala em maus-tratos contra animais, a imagem mais comum ainda está associada a abandono ou a agressão física. Mas nem sempre os sinais são tão evidentes. Em muitos casos, eles começam de forma silenciosa, dentro de casa, e podem passar despercebidos por quem convive com o pet . Alimentação desequilibrada, ausência de cuidados básicos de saúde, ambiente inadequado e falta de estímulo estão entre os exemplos mais comuns.
Esse olhar mais amplo sobre o cuidado com os animais também vem sendo refletido na própria forma de se referir a quem convive com eles. O Conselho Federal de Medicina Veterinária, por exemplo, passou a recomendar o uso do termo “responsável” no lugar de “tutor”, reforçando a ideia de que o vínculo vai além da companhia e envolve deveres relacionados ao bem-estar e à saúde dos pets . A discussão ganha espaço durante o Abril Laranja, campanha dedicada à prevenção da crueldade contra animais, e pode também ampliar o entendimento sobre o que caracteriza, de fato, uma situação de negligência.
“Ainda existe uma associação muito forte entre maus-tratos e somente violência física, mas o bem-estar geral do animal depende de uma série de cuidados diários. Quando essas necessidades não são atendidas, mesmo sem intenção, isso também pode trazer prejuízos importantes para a saúde”, alerta Mayara Andrade, médica-veterinária de Guabi Natural (MBRF Pet).
Alimentação também é um ponto de atenção
Entre os fatores que mais impactam a saúde dos pets, está a alimentação, que, em muitos casos, pode ser negligenciada. Isso inclui desde a oferta de alimentos em quantidade insuficiente até dietas desequilibradas ou inadequadas para o animal.
“A relação das pessoas com os pets mudou muito nos últimos anos. Hoje eles são vistos como parte da família, e isso fez com que os responsáveis passassem a se preocupar mais com a alimentação e entendessem melhor os riscos de oferecer restos de comida ou dietas caseiras sem orientação”, explica a médica-veterinária.
O exagero na alimentação é um dos erros mais frequentes entre os responsáveis. “Ao mesmo tempo, ainda vemos um desafio importante relacionado ao excesso. Muitos associam cuidado a oferecer mais alimento, mas a nutrição precisa ser equilibrada e adequada às necessidades do animal, porque tanto a falta quanto o exagero podem trazer prejuízos à saúde”, explica Mayara Andrade.
Efeitos da alimentação inadequada
Segundo a profissional, os efeitos da alimentação inadequada nem sempre são imediatos. Alterações na pelagem, perda ou ganho de peso, apatia, desnutrição, perda de massa muscular, entre outros sinais silenciosos, costumam aparecer de forma gradual. Em situações mais graves, pode comprometer a resposta a tratamentos e a recuperação do animal.
Um levantamento da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo, por exemplo, mostrou que 40,5% dos cães da capital paulista apresentam sobrepeso ou obesidade, condição que pode estar associada a outras doenças crônicas, como diabetes, problemas metabólicos ou endócrinos e alterações ortopédicas.
Necessidades básicas dos animais
Além da alimentação, outros aspectos do dia a dia têm impacto direto no bem-estar dos animais. Ambientes sem espaço adequado, ausência de estímulos físicos e mentais e falta de interação podem levar a quadros de estresse e mudanças de comportamento. Mayara Andrade explica que a World Small Animal Veterinary Association (WSAVA) determina que, para cuidar dos animais de forma correta, é necessário pensar nas 5 principais necessidades dos pets :
- Ambiente adequado;
- Dieta adequada;
- Possibilidade de ser alojado com ou afastado de outros animais;
- De poder expressar padrões normais de comportamento;
- Ser protegido da dor, do sofrimento, do trauma e da doença.
A profissional ressalta que cuidados veterinários também entram nessa lista: “ Vacinação, controle de parasitas intestinais e ectoparasitas, cuidados com a pelagem e acompanhamento de saúde são medidas básicas que ajudam a prevenir doenças e garantir qualidade de vida. Esses fatores fazem parte do conceito de bem-estar animal, que envolve diferentes necessidades”, completa.
Realidade observada por quem atua no resgate
Organizações de proteção animal lidam com as consequências desse tipo de negligência de forma recorrente. O Grupo de Apoio Voluntário aos Animais Abandonados (GAVAA), que atua no resgate e reabilitação de cães e gatos, recebe animais em diferentes condições — muitos deles com problemas relacionados à alimentação e à falta de cuidados básicos.
“Grande parte dos animais chega debilitada. A recuperação passa, necessariamente, por uma alimentação adequada e por um ambiente que permita que eles se restabeleçam”, afirma Juliana Valverde, responsável pela ONG.
Hoje, cerca de 4,8 milhões de cães e gatos vivem em situação de vulnerabilidade no Brasil, segundo o Instituto Pet Brasil. Embora o número esteja frequentemente associado a animais abandonados , a médica-veterinária destaca que problemas relacionados ao cuidado também podem ocorrer dentro de casa.
Para Mayara Andrade, parte dessas situações está ligada à falta de informação: “Muitos tutores querem fazer o melhor, mas nem sempre sabem como atender às necessidades do pet . Por isso, buscar orientação e entender o que o animal precisa em cada fase da vida faz toda a diferença”.
Por Roberta Muller