Quando Maria Flor nasceu, Fábio Carvalho acabava de realizar um sonho: dois dias antes, havia colado grau em Música pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). A filha, porém, resolveu antecipar os planos e chegou ao mundo de forma prematura, aos sete meses de gestação. O susto deu lugar à maior transformação da vida do multiartista e ex-integrante da banda Manimal.
Hoje, aos 56 anos, Fábio faz parte de um grupo cada vez mais comum no Brasil: homens que se tornam pais após os 45 anos. Com o aumento da expectativa de vida e os avanços da medicina, a paternidade tardia deixou de ser exceção e passou a fazer parte da realidade de muitas famílias.
Para ele, a idade nunca foi o aspecto mais importante. O que realmente mudou foi a forma de enxergar a vida.
"Eu sou outra pessoa depois que a Maria Flor nasceu. Ela é uma luz na minha vida. Mudou meu jeito de pensar, de agir. Fiquei muito mais tranquilo, mais consciente e muito mais preocupado com o futuro dela", conta.
O desejo de viver a paternidade nasceu justamente da ausência dela. Fábio nunca conviveu com o próprio pai, que se separou de sua mãe quando ele ainda era bebê. Cresceu sem essa referência e, durante muitos anos, teve medo de repetir a história.
"Eu sempre sonhei em ser pai, mas também tinha muito medo, porque não sabia como era ter um pai por perto. Não tive essa referência. Hoje eu vejo que ser pai é um milagre. Não consigo entender um homem que abandona um filho."
A chegada de Maria Flor também foi marcada por apreensão. Prematura, ela permaneceu internada por 49 dias logo após o nascimento.
Ela lutou muito pela vida. Eu sou muito grato por ela ter me escolhido para ser o pai dela
Conhecido por ser cantor, compositor e produtor cultural, Fábio diz que a filha também mudou completamente sua relação com a produção artística. Segundo ele, cada música, filme, trilha sonora ou projeto cultural passou a carregar um novo significado.
"Depois que ela nasceu, tudo o que eu faço tem muito mais consciência. Penso no que estou colocando no mundo e, principalmente, no que ela vai ver quando crescer. Quero que ela sinta orgulho do pai."
Além da música, Fábio atua como curador artístico e cineasta. Em todas essas áreas, Maria Flor se tornou a principal fonte de inspiração. "Eu acordo e lembro que tenho a Maria Flor. Isso me dá força para continuar sendo artista neste país."
A paixão pela arte parece ter atravessado gerações. Aos sete anos, Maria Flor já demonstra interesse por música, pintura, cinema e composição. Segundo o pai, ela costuma criar as próprias canções e já revelou quais profissões pretende seguir.
Ela fala: 'Papai, quero ser cantora, pianista e veterinária'. Eu respondo que ela pode ser tudo o que quiser
Neste ano, pai e filha viveram um momento que Fábio define como inesquecível. Pela primeira vez, Maria Flor assistiu a um show dele com plena consciência do que acontecia no palco. "Ela ficou debruçada na grade, olhando para mim tocar. Foi emocionante."
Em todos os shows, existe um ritual que nunca muda. Fábio dedica à filha o congo "Rainha, o seu brinco caiu", canção que canta desde quando ela ainda estava na barriga da mãe e que acabou se transformando em música de ninar.
Embora reconheça que a paternidade exige energia em qualquer idade, Fábio acredita que os anos trouxeram algo valioso: consciência.
"Você amadurece quando entende a responsabilidade de colocar uma pessoa no mundo. A idade ajuda, mas o que realmente importa é dar exemplo, oferecer amor e estar presente".
Para ele, o maior desafio não está nos cabelos brancos, mas no tempo. "A vida passa muito rápido. O importante é aproveitar esse tempo para formar uma pessoa boa, amorosa e de bom caráter".
Entre tantas lembranças, nenhuma supera os pequenos gestos do cotidiano. "O momento mais marcante é quando ela acorda e diz: 'Papai, bom dia. Papai, eu te amo'. Isso não tem preço".
Ao resumir o que significa viver a paternidade depois dos 45 anos, o músico não hesita: "É padecer no paraíso, num caminho de luz e de amor incondicional."